Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO DIGITAL

Buraco-negro telemático

Por lgarcia em 20/01/2001 na edição 105

JORNALISMO DIGITAL

Cláudio Weber Abramo

Durante o ano de 2000, o mercado de trabalho dos jornalistas viu surgir uma multiplicidade de órgãos informativos publicados na internet. Muitos desses novos produtos surgiram fora do meio jornalístico tradicional, originando-se em bancos, financeiras e mesmo em grupos isolados de economistas e outros profissionais. Mencionavam-se salários astronômicos. O fato de semelhantes salários serem às vezes oferecidos a pessoas improváveis só reforçava a sensação de que, apesar de toda uma discurseira tecnicista, na base daquilo tudo imperava o amadorismo.

Muitas empresas jornalísticas também entraram na onda, investindo (não tão cegamente quanto os amadores, mas ainda assim com certa sofreguidão) em equipes caras e em sistemas excessivamente caros, que não compreendiam bem.

Diversas dessas iniciativas tinham a finalidade transparente de enfeitar o bolo de modo a atrair investidores, capturar seu dinheiro e depois tirar o time de campo.

Houve, porém, quem genuinamente julgasse que haveria, no jornalismo telemático, espaço para uma massa de noticiário on-line capaz de atrair usuários de serviços pagos. Considerava-se que a notícia deveria ser gratuita, e que o faturamento decorreria daquilo que fosse oferecido no entorno.

Observe-se que só os mais ingênuos imaginavam ganhar dinheiro com publicidade. Os mais prudentes sabiam, com sabem, que publicidade na internet não tem futuro. De fato, na internet não há a limitação de espaços que permite a manutenção de preços altos em outras mídias. Como o espaço para publicidade é virtualmente infinito, a receita unitária tende a zero, e o agregado permanece baixo.

Para dizer o mínimo, a atitude das empresas que investiram em jornalismo na internet seguiu um raciocínio estranho: estavam dispostas a dar de graça aquilo que produziam (e muitas vezes com equipes mais caras do que o usual), com os olhos postos em ganhar dinheiro com atividades de intermediação localizadas no plano dos desejos.

Também não havia, como parece não haver até hoje, uma atenção devida sobre aspectos essenciais da atividade editorial, a saber, o que publicar, para quem. Se todo mundo publica basicamente material de agências, e das mesmas agências, como é que os produtos podem se diferenciar? Se todo mundo alvejava os investidores do mercado financeiro, como é que esperavam atingir uma participação de mercado mais do que irrelevante, considerando que esses investidores são em número minúsculo (e, de todo modo, pagam corretores para ficar vigiando o comportamento dos indicadores)?

O resultado líquido do aquecimento verificado no ano passado pode ser visto hoje: os investimentos não apareceram, o público não é relevante, os serviços especializados não se desenvolveram e os órgãos da internet continuam sem mostrar direito a que vieram.

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