Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > LEITURAS DA MÍDIA

Caminhos e descaminhos da imprensa – II

Por lgarcia em 05/02/2003 na edição 210

LEITURAS DA MÍDIA

Ivo Lucchesi (*)

[Complemento de artigo publicado na edição 209 do OI; veja primeira remissão abaixo]

Em algum momento da explosiva transformação cultural que logo foi imaginada como "aldeia global", uma ilusão foi vendida e muitos a compraram, mesmo sem saberem do que efetivamente se tratava. A "mercadoria" ofertada vinha com a fantástica promessa de um mundo inteiramente interligado e movido pelo ideário "neoiluminista", centrado na verdadeira "democratização do conhecimento". Voltaire, Rousseau, Diderot e, na vertente alemã, Kant, se vivos estivessem, logo experimentariam profunda frustração, ante tamanha euforia, a ponto de levarem ao absoluto esquecimento aquele projeto emancipador rascunhado, ao longo do século 18.

Algum tempo se passou e do alto regozijo das primeiras horas de prazer inebriante, parece haver ficado um amplo salão, como arquivo morto da alegria, e depósito de uma sucata de festa. A prometida "sociedade da informação", após algumas décadas, começa a deixar sinais de intensa preocupação. Alguns dos impasses presentes na sociedade contemporânea foram tema do artigo anterior, já desdobramento de outros tantos [remissões abaixo]; portanto, cabe agora dar a eles a continuidade devida.

A informação e a crise da argumentação

É claro que a informação não é um mal em si. Quem porventura endossasse a idéia acerca do malefício da informação, no mínimo, mereceria ser considerado um ser suspeito quanto à sua vocação democrática. Então, o problema aqui não diz respeito à conquista da sociedade moderna. Quanto mais circulação de informações houver, melhor saúde terá o "coração" da democracia. A questão ganha, porém, outras dimensões, quando se constata que o regime da informação assume importância acima de seus limites. Nisso reside a "banda podre" da "mercadoria" mencionada no início do artigo. Passo a passo, a pressão das informações foi abocanhando "territorialidades" que historicamente delas eram tutores o pensamento e a argumentação.

A velocidade e a objetividade da informação se mostraram mais sedutoras que a paciência exigida pela reflexão. Daí para a crença de que estar bem-informado é o requisito essencial para a obtenção do que é desejado foi um pulo. Aquele que, nos dias atuais, se atreve a articular um pensamento contrário pode ser considerado "jurássico". Em certos redutos, conclamar interlocutores ao exercício do pensamento e da criticidade pode redundar num ato de desagradáveis conseqüências. Mais ainda, se a "informação" for colocada sob suspeita. O que, pois, aqui se está problematizando é a capacidade (ou não) de romper-se com a tirania da informação.

O uso do termo "tirania" foi premeditado. A ele se quer contrapor outro: democracia. Aparentemente, fica a sensação de haver produzido uma contradição quanto ao conteúdo do parágrafo anterior. É só aparência. A informação fortalece a prática democrática, se ela não exorbitar de sua função básica, ou seja, servir de mote, de alavanca para o salto qualitativo do pensamento e do juízo crítico. Todavia, ela mesma se torna parceira da face autoritária, se sua presença serve para estancar o movimento pensante. É oportuno, aliás, mencionar passagem do crítico da cultura, Christopher Lasch quando, no capítulo "A esquecida arte da argumentação" ? presente no livro A rebelião das elites e a traição da democracia (Ediouro, 1995) ? afirma:


O que a democracia requer é o vigoroso debate público, não informações. Elas são necessárias também, é claro, mas do tipo que pode ser gerado apenas pelo debate. Nós não sabemos o que precisamos saber até fazermos as perguntas certas, e podemos identificar as perguntas certas somente quando sujeitamos nossas próprias idéias sobre o mundo ao teste da controvérsia pública. A informação usualmente vista como a precondição para o debate, é melhor compreendida como o seu subproduto." (p. 190)


A informação na imprensa e na TV

Quando tentamos aproximar processos cognitivos distintos, a exemplo do que representam o código verbal e o código visual, não podemos perder a noção do que cada um desses padrões prioriza. O verbal destina-se ao pensamento; o visual aciona a percepção. O primeiro é predominantemente racional; o segundo é basicamente sensorial. Compreendida essa fronteira, claramente ficam delineados os perfis distintos que existem entre a função a ser cumprida pela imprensa e aquela a ser desempenhada pela televisão (e outras mídias eletrônicas). Em que momento, pois, a imprensa começou a escalada de uma autotraição? A partir do momento em que relegou a segundo plano seu compromisso prioritário com o regime verbal, substituindo o encargo de contribuir para a construção do pensamento, em favor da incorporação de atributos próprios do código visual, a fim de competir com a expansão da televisão. Palavra-pensamento x imagem-informação constituiu-se o centro de um embaralhamento que redundou na imensa usina da aceleração. Numa ponta perdeu a imprensa; noutra se fez refém o leitor. Nesse jogo, a informação expulsou a reflexão (com esta se foi também a argumentação) que, nos tempos atuais, sobrevive, aqui e ali, como espasmo. Parte do rebaixamento cultural que tipifica o padrão de "consumo cultural" está associada a essa questão. Vale, uma vez mais, retornar à observação de Christopher Lasch:


É a decadência do debate público, não do sistema educacional (embora ruim) que faz com que o público esteja mal-informado, apesar das maravilhas da era da informação. Quando o debate se torna uma arte esquecida, a informação, mesmo que esteja rapidamente disponível, não impressiona." (pp. 189-190).


Na tentativa de sintetizar o problema, pode-se afirmar que a palavra está para a melodia, assim como a imagem, para o ritmo. Posto e equacionamento desse modo, não fica difícil deduzirem-se os efeitos deformadores numa cultura construída fundamentalmente na imagem, a exemplo da experiência brasileira. Quando se faz algo na televisão, voltado para o pensamento, está-se, na verdade, contrariando a natureza do veículo. Programas como Observatório da Imprensa, Roda Viva, Conexão Roberto D?Avila, Letras & Mídias, e outros poucos, a rigor, são sabidamente antitelevisivos, na medida em que vão de encontro aos fundamentos que norteiam os caminhos da TV comercial. Não é por outra razão que programas como os citados apenas encontram lugar fora da rede do entretenimento fácil, apostando na ampliação das forças de resistência contra o paradigma da banalização. Nada de heróico há nisso. Trata-se apenas de firmar posicionamentos centrados no princípio ético e na contribuição ao respeito da cidadania.

Sempre que vem à tona a discussão relativa à qualidade do que é exibido pela TV (Nelson Hoineff tem, sobre o tema, eficientes artigos, publicados tanto neste Observatório quanto no Jornal do Brasil), o foco crítico tende a concentrar-se na programação exibida. Obviamente, nada há de equivocado nisso. Outro atalho, porém, não menos importante carece de observação. É claro que a televisão, como veículo, é dotada de forte apelo tanto explícito quanto subliminar. Todavia, há na televisão um poder oculto que atua no receptor independentemente do conteúdo a ser exibido. Ela produz transformações que repercutem diretamente no ritmo do pensar.

Uma criança que, na infância e na adolescência, foi exposta intensamente às mídias eletrônicas chega à fase adulta com sérios problemas de concentração, bem como graves deficiências quanto ao código verbal (lembramos aqui o importante estudo de Derrick de Kerckhove, A pele da cultura: uma investigação sobre a nova realidade electrónica, editado em Portugal pela Relógio D?Água, 1997). Mais preocupante ainda quando governos formulam programas educacionais baseados nas ofertas das mídias eletrônicas. Pensando, portanto, no alcance desses problemas, o profissional da imprensa, consciente da importância de seu ofício, não tem o direito de negligenciar a análise desses pontos. A solução depende de um esforço conjunto de todos aqueles que se sentem empenhados na elevação da qualidade cultural. Espera-se que, um dia, não seja necessário um dirigente da nação anunciar um programa de combate à "Cultura Zero".

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá), exibido mensalmente pela UTV

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