Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

Campo aberto contra a criminalidade

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

CASO TIM LOPES

José Antônio Silva (*)

Subnutridos rancorosos (justificadamente) de um lado, e supernutridos arrogantes (alienadamente) de outro. Assim vivemos hoje no Brasil, em que uma pequena mas significativa parcela dos mais pobres busca no crime os seus momentos de luxo e consumo, e uma elite inacreditavelmente rica e cruel não aceita dividir o menor de seus anéis, e começa a perder a mão inteira e a vida em assaltos crescentemente ousados e brutais.

Dividida entre estes extremos, a sociedade brasileira, em choque, não sabe o que fazer para barrar a criminalidade. É certo, porém, que não são os milionários os principais atingidos. A vítima preferencial dos criminosos parece ser uma extensa camada intermediária ? que vai desde a situação confortável de empresários médios e profissionais liberais bem-sucedidos ao extremo em que buscam se manter com alguma dignidade pequenos comerciantes, bancários, empreendedores, funcionários públicos e outros ? que não pode contar com equipes particulares de seguranças, com carros blindados ou helicópteros para deslocamento.

Também sofrem, silenciosa e cotidianamente, na mão dos bandidos, trabalhadores braçais, empregadas domésticas, faxineiras, operários, garçons, frentistas ? obrigados a morar com suas famílias, em condições desumanas, nos mesmos morros, vilas e favelas, bem ao lado dos traficantes, assaltantes, seqüestradores.

Mesmo sendo vítima apenas ocasional do banditismo, é a parcela mais bem-aquinhoada do país, no entanto, a responsável pela péssima distribuição de renda dos brasileiros, um caldo de cultura perfeito para a geração da criminalidade. Especialmente quando se junta à falta de empregos (e aos baixos salários de quem tem emprego), um descaso brutal do governo com a adequada e qualificada oferta de educação, saúde pública, política habitacional e outros itens que ampliam a auto-estima e as perspectivas de crescimento pessoal e profissional dos segmentos menos favorecidos.

Em vez disso, o que se observa ? inclusive por parte do atual governo federal ? é a manutenção das mesmas e apodrecidas estruturas, algumas seculares, de beneficiamento interminável das elites e da submissão, dentro da mesma ótica, aos grandes interesses financeiros internacionais.

Não resolve, mas ajuda

É precisamente aí, como num jogo de armar, que se enquadra à perfeição a questão da reforma agrária. Movimento fundamental para que um país ingresse plenamente na modernidade, e já realizado há tempos em praticamente todas as nações do chamado Primeiro Mundo, a reforma agrária, em nosso gigante adormecido, em termos efetivos é pouco mais que uma grande encenação. O governo federal finge que a realiza (mesmo que compute como família assentada quem mal colocou seu nome entre os interessados em ganhar um lote, sabe-se lá em que ano) e termina jogando agricultores ou seus descendentes proletarizados em áreas muitas vezes inóspitas, sem insumos, ferramentas, serviços essenciais ou financiamento adequado.

O Movimento Sem Terra (MST) é justificadamente famoso no mundo por levar adiante, com todas as dificuldades, a idéia do fim do latifúndio improdutivo e da divisão da terra entre os que a querem trabalhar. Este movimento, formado por seres humanos falíveis, comete também erros estratégicos (como a invasão da fazenda da família de FHC, em Buritis, MG), eventuais excessos e até crimes (como a rixa que culminou no assassinato de um assentado que não pertencia ao movimento, no interior de Jóia, RS).

Pois já antes mesmo desses lances episódicos, que não deslegitimam a luta sofrida do MST pela reforma agrária, o movimento enfrenta uma guerra sem tréguas não só dos grandes proprietários do interior profundo do Brasil ? o que é compreensível. O pior: o MST é atacado também pela quase totalidade da grande imprensa brasileira, que nesta questão esquece sua postura oficial de isenção para colocar-se flagrantemente ao lado dos interesses conservadores, definindo os trabalhadores sem terra como criminosos, bandidos, quadrilheiros.

De fato, chega a parecer irônico, embora seja dramático. A imprensa que se queixa, com razão, do aumento da criminalidade nos grandes centros (sempre a partir das periferias, onde ela germina fácil no solo do desemprego e da falta de perspectivas) ? é a mesma imprensa que ataca e joga a opinião pública contra os homens, as mulheres e as crianças que fogem deste destino marginal e pedem, precisamente, um pedaço de terra para trabalhar e viver com dignidade.

Como se não compreendessem nada do que se passa sob seu nariz, articulistas e palpiteiros da mídia gostam de separar os dois assuntos ? aumento da criminalidade urbana e questão agrária. Mas no Brasil os dois temas só fazem sentido e podem formar um quadro coerente e inteligível quando analisados em conjunto.

Seria ingenuidade, é claro, acreditar que mesmo uma reforma agrária efetiva terminaria com a criminalidade, especialmente com o crime organizado, nas grandes cidades brasileiras. Este é um fenômeno que transcendeu fronteiras nacionais e floresce, por exemplo, na disseminação mundial da cultura das drogas e associa-se, ainda, à lavagem de dinheiro em paraísos fiscais e a vários crimes de colarinho branco, incluindo a amoral ciranda financeira praticada alegremente por países respeitáveis.

Histeria e indignação teatral

Porém, situa-se na zona de fronteira entre a imbecilidade e a má fé não perceber que a retomada de empregos e a geração de renda, de forma descentralizada, pelo interior todo do Brasil, na esteira da reforma agrária, não só levaria progresso a regiões historicamente abandonadas, mas também desinflaria as periferias urbanas. Com isso, governos municipais e estaduais poderiam obter melhores resultados em itens como saneamento, preservação ambiental, educação, habitação, saúde, assistência e outras políticas sociais ? incluindo a segurança.

Lembrando ainda: nos assentamentos, um dos pontos fortes é o processo educacional, e mesmo que a retórica seja em muitos casos revolucionária (assustando o conservadorismo), sua ênfase está na ética do trabalho e, até mesmo, na religiosidade. Ou seja, verdadeiros antídotos à cultura marginal de levar vantagem ou se dar bem de qualquer jeito, que incentiva o caminho da criminalidade para quem, numa favela ? sem educação nem valores ?, vê suas perspectivas de melhorar de vida cada vez mais reduzidas.

O que parece tão claro (mesmo sabendo-se que não se trata de solução isenta de dificuldades) não é sequer mencionado nos comentários diários de jornais, revistas, rádios e televisões. Como norma, o que chega a nós ? leitores, ouvintes, telespectadores ? é a mesma cantilena que aposta tudo na repressão: clama por mais rigor e mais polícia contra o banditismo e, igualmente, como se fosse a mesma coisa, contra os conflitos agrários.

O tom de histeria e indignação teatral sobe vários graus em épocas pré-eleitorais como a atual, quando a maioria da imprensa brasileira ? mesmo os segmentos que se pretendem de vanguarda, como a Folha de S. Paulo ? transforma-se num imenso e monocórdio Estadão (se é que me entendem). O mais curioso é que esta mesmíssima mídia, que brada, em causa própria, pela sagrada "liberdade de informação" (pretendendo agora colocar-se acima da ação da Justiça, quando enfrenta ações por calúnia e difamação, caso da condenação de jornalistas da RBS, por ofensa ao governador petista do Rio Grande) ? não mostra qualquer zelo pelos direitos ou liberdades dos movimentos sociais. Afinal, estes são aglomerados de infiéis, a serem tratados a fio de espada no Reino do Deus Mercado, do qual a mídia é, hoje, a sacerdotiza-mor.

(*) Jornalista e escritor em Porto Alegre

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