Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Canadá lucra US$ 1 bilhão por ano com maconha

Por lgarcia em 20/04/1998 na edição 43


Joel Connelly

Hearst Newspapers

Copyright Universo Online, 19/4/98.

 

S

urrey, British Columbia – Os pés de maconha daqui crescem tão alto – às vezes até mais de 2 metros – que os produtores precisam amarrá-los com cordas. Cada planta pode produzir entre 2,3 e 3,6 quilos de brotos, valorizados por quem os fuma.

O cultivo de maconha na British Columbia é uma indústria agrícola sofisticada, de US$ 1 bilhão por ano, de acordo com a maioria das estimativas. Com cerca de 60% da colheita sendo contrabandeada para os Estados Unidos, trata-se de uma indústria que dá dor de cabeça para os executores da lei de ambos os lados da fronteira.

O tráfico de maconha tornou-se tão intenso que, no último outono, as agências federais americanas classificaram sete condados em Washington como “áreas de tráfico intenso de drogas”. A classificação, que também reflete um certo comércio entre fronteiras de heroína e cocaína, coloca o noroeste de Washington na mesma classificação de alerta em relação a drogas de Los Angeles, da fronteira sudoeste, de Miami e da cidade de Nova York.

"A rota de contrabando através da fronteira, em Blaine, vem registrando um volume surpreendente de maconha de alta potência. Os números que estamos recebendo é de que existem até 3 mil operações de cultivo interior no sul da British Columbia", disse o general Barry McCaffrey, diretor do National Drug Control Policy (Programa Nacional de Controle de Drogas)da Casa Branca.

Apesar do programa acelerado de cumprimento da lei, apelidado de Operation Brass Ring, os funcionários admitem que conseguem interceptar apenas uma fração da maconha que segue rumo aos lucrativos mercados americanos.

"Se pegamos de 1 a 2% na fronteira, estamos tendo sorte", disse Tom Kelly, que trabalhou como agente residente encarregado da U.S. Drug Enforcement Agency em Blaine até o começo deste mês. Gene Kerven, diretor de porto da Alfândega americana, coloca o total em menos de 5%. Nos últimos seis meses, a patrulha da fronteira americana confiscou mais de 136 quilos de maconha. Em todo o ano de 1993, os confiscos chegaram a apenas 11,3 quilos.

Brian Rochom, agente residente encarregado das investigações para a Alfândega em Blaine, disse que as apreensões de maconha começaram a aumentar durante 1994. Em 1993, houve apenas cinco casos. Desde o último novembro, houve cerca de 50 casos.

"Trata-se de um mercado massivo, e Vancouver tem duas grandes vantagens: os Estados Unidos ficam perto, e há menos risco em plantá-la aqui", disse Dana Larsen, editor da revista Cannabis Canada, sediada em Vancouver. O eixo das operações de plantio da maconha fica entre Vancouver e a fronteira, disseram os policiais.

Meio quilo de maconha de boa qualidade custa de US$ 1.500 a US$ 2.000 na área de Vancouver. Depois de cruzar a fronteira para Bellingham, seu valor sobe para US$ 3.000, afirma a procuradora-geral Christine Gregoire. Em Seattle, a maconha conhecida informalmente como "B.C. Bud" chega a U$ 4.000, e talvez $ 6.000 quando chega na Califórnia, ela disse, baseada em um relatório dos policiais americanos e canadenses.

O cultivo e exportação da maconha no Canadá têm relativamente poucos riscos se comparados aos Estados Unidos. As penas para os agricultores pegos no Canadá dão em média cerca de apenas dois meses na cadeia ou em prisão domiciliar.

"As penas pelo cultivo da maconha (no Canadá) são mínimas", disse McCaffrey, "e elas não envolvem o confisco de bens". Uma vez que Washington tem penas mais severas, disse Dave McEachran, promotor público do condado de Whatcom, muitos dos produtores de seu condado mudaram-se para o Canadá. "Recebi uma ligação da alfândega do Canadá na noite passada", disse recentemente o sargento S. J. "Stew" Brown, na polícia real montada canadense em Surrey. "Eles haviam parado uma jovem mulher (americana) que ia para o norte em um trailer. Ela estava levando 300 gramas de maconha – não muito – mas equipamento suficiente para montar uma elaborada operação de cultivo interior. Ela disse que estava indo para Whistler".

Um problema que os agentes alfandegários encontram é que os contrabandistas não parecem se encaixar em nenhum perfil de idade ou estilo de vida, disse Kerven.

Os policiais do cruzamento da Pacific Highway prenderam, no começo deste ano, um senhor de 77 anos e uma senhora de 71 carregando vinte quilos de maconha. Na mesma noite, um casal com dois filhos, de 7 e 9 anos, foram presos em Lynden, a menos de 16 quilômetros dali, com 8 quilos enfiados em um pneu.

Os contrabandistas às vezes lançam mão de métodos pouco comuns para esconder a maconha da B.C., que tem um aroma pungente e revelador. Um contrabandista, preso perto de Oak Harbor, colocou a maconha dentro de um pneu sobressalente e depois escondeu o contrabando em maionese. "Conseguir a evidência pode ser bem sujo", disse Mike Hawley, xerife do condado de Island.

A polícia acredita que gangues de bicicleta e gangues que contrabandeiam heroína da Ásia para o Canadá estão bastante envolvidas com o contrabando de maconha para os Estados Unidos, mas tem poucas evidência para provar suas suspeitas.

"O que está guiando este mercado é a alta qualidade e o controle rígido de qualidade", disse David Keller, agente do serviço secreto junto à patrulha de fronteira de Blaine.

A B.C. Bud é cultivada, em sua maioria, em ambientes interiores, sob poderosas lâmpadas. A maioria da B.C. Bud que vai para os Estados Unidos é cultivada na parte inferior continental da British Columbia, perto da fronteira, em operações de cultivo de 200 a 500 pés, disseram os policiais canadenses. Cada colheita, em uma típica operação grande de cultivo, pode gerar entre U$ 60 mil e U$ 200 mil.

Às vezes, as plantações podem ser imensas. Na semana passada, a polícia real montada canadense confiscou 2.400 plantas em uma casa e outras construções perto de Parksville, na ilha de Vancouver. A maconha estava sendo cultiva sob 62 lâmpadas de mil watts.

Cada safra normalmente leva cerca de oito semanas para amadurecer, embora algumas espécies levem até 13 semanas. Observando o desenvolvimento dos brotos na planta, um produtor instruído sabe quando a colheita ficará entre as melhores.

A revista Cannabis Canada está repleta de anúncios de sementes de maconha, propagandeando a boa formação de brotos, resina abundante e resistência a mofo. O editor Larsen fala de técnicas de cultivo e colheita com o mesmo fervor de um produtor de vinhos americano. "Não queremos chiados e estalos (quando a maconha é fumada) porque o produto está cheio de fertilizantes de fosfato", disse.

Darren Kent Morgan, um jovem da área de Vancouver, preso no último outono por cultivar 417 pés, falava com orgulho sobre a pureza de seu produto. "Eu a cultivei bastante organicamente", disse. "Sem pesticidas. Sem herbicidas. Usei uma pequena quantidade de Miracle-Gro (fertilizante), e um pouco de fertilizante de peixe. E a cultivei a temperaturas específicas para obter uma produção maior de resina".

A B.C. Bud conseguiu um apelo chique, que o agente de alfândega Rochom associa à mania por tênis de marca que varreu os Estados Unidos. "Ela está fazendo seu próprio mercado", acrescentou, observando o cuidado dado ao empacotamento e à aparência da maconha contrabandeada. "Sem caule, sem sementes. É de um verde muito claro. Não é comprimida, é fofa. Podem ser vistas pequenas gotas de óleo nela".

Gregoire dirige uma força-tarefa informal que nasceu de uma reunião recente de procuradores gerais de ambos os lados da fronteira, para lidar com o comércio de maconha. Ela já identificou uma necessidade: maior envolvimento federal nos processos.

Os agentes federais fazem a apreensão, mas a maioria dos casos de contrabando de maconha voltam para o escritório do promotor do condado de Whatcom. "O promotor americano simplesmente não processa muitos casos da fronteira", disse McEachran.

Kate Pflaumer, promotora americana para o oeste de Washington, disse que tem recursos limitados e pode tomar conta apenas de uns poucos casos envolvendo maconha. "Nos envolvemos com operações internacionais mais complicadas, que envolvem quantidades maiores de drogas", disse Pflaumer.

Ela argumentou que o lugar para se parar o contrabando de maconha é ao norte da fronteira. "É mais fácil atingir um número limitado de operações de cultivo do que um número maior de contrabandistas que vêm para o sul através da fronteira", disse Pflaumer.

Pflaumer não revelou o parâmetro usado pelos promotores federais para decidir quando lidar com um caso de contrabando de maconha. Esta informação, argumentou, pode ser útil para os contrabandistas.

O fardo de lutar contra as operações de maconha cai nas costas da polícia e promotores locais. Os exemplos incluem:

Plantio. A parte sul do Fraser Valley, na British Columbia, é ideal para as operações de cultivo interior. Áreas densamente populadas são rodeadas por terras agrícolas protegidas. A fronteira americana fica perto e uma rua canadense, O Avenue, corre paralela à fronteira por vários quilômetros.

A "equipe verde" da polícia real montada canadense, em Surrey, luta para lidar apenas com as operações de cultivo de maconha das quais já tem conhecimento.

"No ano passado, este destacamento arrebentou mais de 200 operações de plantio. Existiam outras 50 ou 75 das quais ouvimos falar, mas sobre as quais não obtivemos informações suficientes para conseguir um mandato de busca", disse o sargento Brown.

Julgamento. Ao sul da fronteira, o escritório da promotoria do condado de Whatcom tem uma média de três a quatro casos de contrabando de maconha por semana. "A maioria dessas pessoas são mulas", disse McEachran, referindo-se aos canadenses que são pagos de U$ 500 a U$ 1.000 para passar com a droga pela fronteira e entregá-la a outros.

"Depois de cinco anos fazendo isso, consigo me lembrar de apenas duas vezes quando os promotores federais se interessaram por um caso", disse David Grant, o promotor-adjunto que lida com casos de drogas. Mesmo quando um carregamento de 115 quilos foi interceptado na fronteira, o escritório da promotoria americana não quis pegá-lo.

Interceptação. Mais de cinco milhões de veículos usam os dois cruzamentos de fronteira em Blaine por ano. No horário de pico, os motoristas que se dirigem ao sul enfrentam uma espera de duas horas no Peace Arch.

"Operando com número limitado de pessoal, estamos tentando manter aberto o maior número possível de pistas", disse Kerven. Qualquer batida policial exige que dois ou três policiais deixem seus postos e ajudem no processo. O congestionamento na fronteira fica ainda pior. Kerven tem um quadro de pessoal com 158 funcionários para manter o tráfego andando, assim como para lidar com batidas policiais em casos de drogas.

"O ritmo pode ser completamente insano", disse. "Temos inspetores trabalhando até 3 turnos de 16 horas durante um período de 7 dias".

A patrulha de fronteira americana conta com apenas 25 agentes para cobrir cerca de 80 quilômetros de terra e água entre Point Roberts e Sumas Mountain. Dois desses agentes atualmente foram destacados para a fronteira mexicana.

Uma lei que tramita no Senado criaria mais 70 cargos de inspetores para atuar na fronteira EUA-Canadá em Washington. Enquanto isso, Kerven quer que os promotores federais se envolvam mais, talvez lidando com casos que envolvam quantidades menores de maconha, para aumentar a sensação de perigo para os contrabandistas.

"Se a quantidade para haver um processo federal caísse para 18 quilos, eu conseguiria tirar todos esses amadores (produtores ou contrabandistas de meio-expediente) do caminho", disse. "Tire os amadores e teremos possibilidade de ir atrás dos criminosos organizados".

Um fato é inegável: a vida está ficando mais dura na pacífica fronteira. A alfândega está registrando "passagens diretas", motoristas que se recusam a parar, acelerando o motor quando chegam à inspeção. No último outono, agentes da patrulha de fronteira trocavam tiros enquanto patrulhavam uma área freqüentada por traficantes.

E vários policiais americanos disseram acreditar que o nível de violência deve aumentar quando elementos do crime organizado perceberem os lucros que podem ser feitos e tentarem se apoderar do mercado. "Definitivamente, temos de nos preocupar com a violência", disse Gregoire. "Não se trata mais de uma coisa da década de 1960".

Notas

A potência da maconha é determinada por agentes químicos contidos na cannabis, a planta cânhamo. Um desses, delta-9-hidrocanabinol (THC), é responsável pela maioria dos efeitos psicoativos, o "alto" associado ao fumo.

No final da década de 1960, a maconha vendidas nas ruas de Gastown, em Vancouver, tinha um conteúdo de THC de 1 a 2 por cento. O sonhado Ouro de Acapulco ou o "Maui Wowie" (Risinho de Maui) tinham de 10 a 12%. Atualmente, o conteúdo de THC da B.C. Bud é de 16%, e potências de até 30% foram registradas em algumas sofisticadas operações de cultivo em ambientes fechados.

"Ter maconha de qualidade tão alta é bom: é preciso fumar menos dela", disse Marc Emery, fundador da loja HempBC no centro de Vancouver.

(Tradução de Laura Knapp.)

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