Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > GOVERNO LULA

Carlos Alberto Di Franco

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

GOVERNO LULA

"Síndrome de conspiração", copyright Folha de S. Paulo, 4/08/03

"Armação da imprensa. Distorção da mídia. Patrulhamento de jornalista.

Quantas vezes, caro leitor, você registrou essas reações nas páginas dos jornais? Inúmeras, estou certo. Elas estão contidas, freqüentemente, em declarações de políticos apanhados com a boca na botija, no constrangimento de homens públicos obsessivamente preocupados com a própria imagem e no destempero de líderes que pescam nas águas turvas do radicalismo. Todos, independentemente de seu colorido ideológico, procuram um bode expiatório para justificar seus deslizes. A culpa é da imprensa! O grito, desesperado ou cínico, é uma manifestação de desprezo pela verdade. Vejamos três episódios recentes. Todos emblemáticos.

De férias em Paris, como faz todos os anos, o ex-prefeito Paulo Maluf foi detido por agentes franceses quando tentava sacar dinheiro do banco e passou horas dando explicações sobre sua movimentação bancária na França. O saldo da conta (US$ 1,8 milhão) na agência do Crédit Agricole, em Paris, foi bloqueado por determinação da juíza Marie Ivonne Caillibotte. A conta poderá ficar bloqueada ?durante meses e até mesmo vários anos, dependendo do desenrolar das investigações?, afirmou. Segundo a juíza francesa, a origem do dinheiro, que passou por um ?circuito financeiro bastante complicado? até chegar à França, é ?certamente curiosa?. Pois bem, caro leitor, desde 2001, quando autoridades da Suíça informaram ao Brasil ter encontrado uma conta em nome do ex-prefeito, Maluf nega que ele ou qualquer pessoa de sua família sejam correntistas de bancos no exterior. Atribui a informação ao ?patrulhamento da imprensa?. O fato é que ao menos uma conta, a do Crédit Agricole, em Paris, existe. Está em nome de Sylvia Lutfalla Maluf, sua esposa. Nenhum patrulhamento de jornalista. Só informação. E nada mais.

Horas depois de ter deixado uma churrascaria em Brasília, onde comemorou com outros deputados a primeira vitória na reforma previdenciária, o presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP), derramou algumas lágrimas.

Preocupado com a repercussão negativa da ação policial que ele autorizou para conter manifestantes que ameaçavam impedir a votação na comissão especial, o deputado se deu conta de que o episódio poderia prejudicar sua biografia petista. A reação não tardou. Ao discursar para uma platéia de deputados, senadores, convidados e líderes de comunidades negras ligadas à questão social, ele desabafou: ?Estou triste.? Citou, então, a célebre frase que diz que, na guerra, a primeira vítima é a verdade. Como de costume, pôs a culpa na mídia, que teria exagerado ao noticiar o ocorrido. ?Informam mal, não consideram nenhuma informação da parte, princípio básico do jornalismo.

Você fica impotente. (…) Tem de ligar para a família. Tem de ligar para os amigos. Uma coisa que contraria toda a sua vida.? Ninguém duvida das boas intenções do presidente da Câmara dos Deputados. Trata-se de um político correto. Mas o fato concreto não bate com a sua versão. Num primeiro momento, João Paulo Cunha negligenciou a segurança da Câmara. Depois, instalada a baderna, chamou a Tropa de Choque da PM. A imprensa só registrou o que aconteceu. Nenhuma distorção da mídia. Só informação. E nada mais.

O líder do Movimento dos Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, voltou a manifestar sua truculência em palestra realizada no Rio Grande do Sul. Num incendiário discurso, carregado de ataques ao Estado de Direito, descarregou toneladas de bílis: ?A luta camponesa abriga hoje 23 milhões de pessoas. Do outro lado há 27 mil fazendeiros. Será que mil perdem para um? É muito difícil. O que falta é nos unirmos, para cada mil pegar um. Não vamos dormir até acabarmos com eles.? O texto, publicado originalmente no jornal Zero Hora, teve péssima repercussão e levou o presidente Lula, que já se havia comprometido a zelar pelo cumprimento da lei, a tirar o boné. O presidente da República considerou ?absurdas? as declarações do líder do MST. Stédile passou dias acusando o diário Zero Hora, responsável pelas gravações da palestra, de distorcer e manipular suas palavras. Disse que não tinha dito o que, de fato, disse. A culpa, mais uma vez, seria da imprensa. As gravações, no entanto, confirmam o noticiário. Nenhuma armação da mídia. Só informação.

E nada mais.

Personalidades públicas, inúmeras, têm procurado usar a mídia. Afirmam e depois, cinicamente, desmentem o que afirmaram. Nós não podemos ficar reféns desse jogo. Os meios de comunicação existem para incomodar. Um jornalismo cor-de-rosa é socialmente irrelevante. A imprensa, sem precipitação e injustos prejulgamentos, tem o dever de desempenhar importante papel na recuperação da ética na vida pública. Nosso compromisso não é com as celebridades, mas com a verdade, com a informação bem apurada e com os leitores. E nada mais. (Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e professor de Ética Jornalística, é representante da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra no Brasil E-mail: difranco@ceu.org.br)"

 

"A volta do grande inquisidor", Editorial, copyright O Estado de S. Paulo, 4/08/03

"Talvez seja justamente por não dispor de um physique du rôle adequado para figurar como ?mocinho? protagonista de filmes mas, ao contrário, uma stanislawskiana identidade com as clássicas figuras de personagens de filmes de terror, inclusive pela desarticulação verbal que o leva à precária fluidez na apresentação de um raciocínio em público, que o procurador da República, Luiz Francisco de Souza, obtém, junto à mídia, espaço privilegiado. Afinal de contas, tudo o que é inusitado é fator de atração, na dura competição pelo interesse – ou, mais precisamente, pela curiosidade – do público, o que não pode deixar de se refletir nas pautas dos veículos de comunicação. É por isso que o procurador Luiz Francisco não deixa passar períodos muito longos entre as suas contundentes e confusas – quando não tumultuadas – apresentações públicas.

A mais recente cena em que o personagem – já associado ao grande inquisidor medieval Torquemada – pôde exibir histrionicamente as obsessivas idiossincrasias, que são produto do seu fundamentalismo ideológico, foi durante depoimento que prestou à CPI do Banestado, uma comissão mista do Congresso que investiga a remessa ilegal de mais de US$ 30 bilhões para o exterior, por meio das contas CC-5. Recorde-se que o procurador já criara uma situação de vexame nessa mesma CPI, quando em 25 de junho, de maneira absolutamente impertinente, a ela encaminhara uma espécie de roteiro a ser seguido pela Comissão parlamentar. Independentemente da tolice dos ?itens? do arrogante roteiro – que incluía a quebra dos sigilos bancários de 120 milhões de pessoas (todos os portadores de CPF) e de todas as empresas (com CNPJ) – é claro que os membros da CPI só poderiam protestar veementemente, como o fizeram, contra aquela intromissão indébita de um membro do Ministério Público nos trabalhos das Casas Legislativas.

Desta vez o desengonçado personagem extraiu a máxima repercussão de sua performance, ao escolher, como alvo de sua furiosa investida, um parlamentar de corpo presente, o senador e presidente do PFL Jorge Bornhausen e sua família, acusando-os de remessa ilegal de dinheiro por meio do Banco Araucária, que, segundo ele, lhes pertence. A reação indignada do senador catarinense – que chegou a chamar o procurador de ?ladrão da honra alheia?, irresponsável, sem honra e sem palavra, além de mandá-lo ?calar a boca? e sugerir que fosse submetido a exame de sanidade mental, o que, certamente, também longe esteve de um comportamento parlamentar apropriado – deveu-se ao fato de o procurador Luiz Francisco não ter dado importância alguma aos documentos, esclarecimentos e certidões já encaminhados pelo acusado a respeito do assunto. Registre-se que este tem sido um comportamento habitual do moderno Torquemada.

Com efeito, dentro de seu tema preferencial e obsessivo – como se fora um leitmotiv operístico – que é o de ?enquadrar? quem quer que tenha, de alguma forma, se ligado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ou seu governo, o procurador Luiz Francisco não tem ligado a mínima para contra-argumentações, contraprovas ou o que mais lhe apresentem as vítimas de sua sanha persecutória. Lembre-se do caso Eduardo Jorge, ex-secretário do ex-presidente contra quem o grande inquisidor não descobriu prova alguma de irregularidade, depois de mais de um ano de descabidas acusações, investigações e difamações assacadas contra sua pessoa.

O mesmo, aliás, já sucedera em relação à subprocuradora da República com 25 anos de carreira e integrante do Conselho Superior do Ministério Público Federal, Delza Curvello Rocha, que sofrera uma perseguição sem trégua, kafkiana, por parte do inquisidor-mor, com base em ?tabelinhas? feitas com desavisados profissionais da imprensa, pelas quais uma simples insinuação – do procurador – era publicada e o respectivo recorte de jornal virava notitia criminis, apta a fundamentar um processo de iniciativa do mesmo procurador.

Como petista de carteirinha, o grande inquisidor aproveitava-se de seu cargo para fazer oposição radical ao governo FHC. Como agora o governo é do PT, imagina-se o grau de preocupação, do Torquemada caboclo, em preservar suas aparições intermitentes no espaço público sem quebrar sua fidelidade ao partido. Não houve problema. Afinal de contas, não importam os meios quando o que está em jogo é o cumprimento da Missão… e esta é, agora, em vez da eterna vigilância sobre o governo, o combate ferrenho à atual Oposição."

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem