Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > GOVERNO LULA

Carlos Chaparro

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

GOVERNO LULA

"Jornalismo que não elucida", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 31/07/03

"O XIS DA QUESTÃO – Mesmo reconhecendo os efeitos limitantes da crise atual, ou por causa disso, existe nas redações uma acomodação, intelectualmente preguiçosa, que escamoteia o sentido político das ações de pessoas e entidades, nos embates políticos e econômicos de onde jorram as notícias.

1. Estranhos critérios

Faz um bom tempo – já lá se vão pelo menos seis ou sete anos – integrei um grupo de professores do curso da ECA/USP que foi à Folha de S. Paulo trocar idéias sobre jornalismo com Octavio Frias Filho, diretor de redação. A conversa, aberta e cordial, flutuou sobre questões em relação às quais interessava aos professores conhecer a opinião do diretor do jornal que se tornara matriz conceitual na imprensa brasileira – e por isso, copiado até por concorrentes.

Os registros do encontro ficaram em anotações que não sei aonde foram parar. Mas guardei na memória uma frase, para mim a mais significativa daquela tarde, dita por Octavinho: ?O jornais estão cada vez menos políticos e cada vez mais utilitários?.

Me lembrei dessa frase na passada quarta-feira, 30 de julho, quando vi na página A7 (primeiro caderno), no jornal de Octavio, jogada no pé da área impressa, como assunto secundário, uma pequena reportagem de Eliane Cantanhêde que me pareceu o texto político de maior importância da edição – e nem chamada de primeira página mereceu. Eliane revelava, creio que com exclusividade, o conteúdo de uma reunião sigilosa realizada no Alvorada, no fim de semana, na qual o ?núcleo duro? do governo manifestou ao presidente Lula ?a preocupação com o recrudescimento das invasões e com os ?sinais desencontrados? que o governo vem emitindo para a opinião pública e para os investidores internacionais?. Um bom trabalho, mal aproveitado, qu ajudava a desvendar sentidos, nos cenários preocupantes da atualidade.

Em vez de aproveitar e dar força de impacto a essa matéria, quem decide as coisas no jornal achou melhor repetir tudo o que a televisão havia noticiado na véspera. Deram destaque, em manchete, à desaceleração da reforma tributária. Era o tom utilitário abafando o sentido político das ações governamentais, neste tempo quente que o país atravessa.

2. Jornalismo da acomodação

Pode-se dizer, e se diz, que o jornalismo impresso está mutilado pela falta de recursos e de gente, também pelo direitismo das suas escolhas ideológicas e pela prudência editorial de proteção aos próprios negócios. Mas, a meu ver, mesmo reconhecendo os efeitos limitantes da crise atual, existe também, nas redações, uma acomodação, intelectualmente preguiçosa, ao jorro imparável dos fatos produzidos para o noticiário por sujeitos organizados, competentes, principalmente entre os contendores dos embates políticos e econômicos.

Não compreendo, por exemplo, a ausência de pautas e matérias sobre a natureza, a estrutura, a história, a filosofia, os percursos e os objetivos do Movimento dos Sem Terra. Ora, quer a gente goste ou não, o MST tornou-se, e continua a ser, o movimento social mais importante da história recente do Brasil e da América Latina. No Brasil, sai do MST o discurso político-social de maior repercussão internacional. Portanto, num movimento desse porte, as ocupações ou invasões, assim como os discursos dos seus dirigentes, não são ações isoladas, descontextualizadas, que brotam aqui e ali por injunções locais, mas ações que certamente integram uma estratégia estudada, definida, inspirada nas razões do próprio MST, estratégia da qual, por motivos óbvios, o movimento não fala, mas que dá rumos e lógica ao seu agir.

Por que não se pautam matérias que ajudem a opinião pública a entender o significado dos grandes confrontos que recheiam o noticiário atual?

Além da História, onde sempre estará o contexto mais elucidativo, existem, certamente, pesquisas acadêmicas, estudos, documentos e protagonistas que poderiam viabilizar e enriquecer essa tão necessária elucidação jornalística.

RECADO DE RODAPÉ – Entre as várias pesquisas que fiz sobre o significado discursivo dos acontecimentos, existe a que estudou a Marcha dos Sem-Terra a Brasília. As revelações do estudo (a que dei o título de ?O acontecimento como discurso?) farão parte de um livro que já comecei a escrever. E do material reunido faz arte uma longa entrevista feita com um dos dirigentes do MST oriundos ou ligados à Igreja Católica, o pedagogo Neuri Rossetto, então coordenador nacional de comunicação do Movimento.

Reli há dias essa entrevista. É uma peça que ajuda a compreender o MST e as suas ações de hoje. Prometo um resumo para próxima coluna. Mas, para aguçar a curiosidade, antecipo um pequeno trecho.

Disse Neuri Rosseto: ?O movimento tem três objetivos. O primeiro é promover a luta pela terra, ou seja, a luta corporativa do camponês que não tem terra e necessita dela para sobreviver. Foi o primeiro estágio da nossa luta. O segundo objetivo é a reforma agrária, e essa é uma luta mais ampla do que a luta pela terra. Porque implica, em nossa opinião, a modificação da estrutura fundiária brasileira, e modificando essa estrutura fundiária, modifica-se a política agrícola do governo. Ou seja: não basta dar um pedaço de terra a quem não a tem; é preciso mudar a agricultura do país. No terceiro objetivo, nós colocamos a necessidade de fazer mudanças políticas amplas na sociedade brasileira, porque sem isso a reforma agrária não terá sucesso.?

A seguir, Neuri Rossetto traçou a identidade político-social do MST: ?Somos, simultaneamente, um movimento com uma vertente sindical, quando fazemos a luta corporativa; somos também um movimento popular, porque, para nós, a reforma agrária tem um significado que vai muito além da luta econômica dos camponeses por um pedaço de terra; e somos um movimento político, porque temos consciência de que precisamos mudar a sociedade para fazer a reforma agrária.?"

 

"Ex-marqueteiros de Lula vencem licitação", copyright Folha de S. Paulo, 1/08/03

"As agências Duda Mendonça, Lew, Lara e Matisse foram escolhidas ontem para fazer a publicidade institucional do governo federal nos próximos 12 meses. O valor total do contrato para esse período é de R$ 150 milhões.

O resultado foi proclamado após a abertura das propostas de preço -a terceira fase da licitação-, no Palácio do Planalto. Há um prazo de cinco dias úteis para a apresentação de recursos, após a publicação no ?Diário Oficial da União?, que deve ocorrer hoje.

Havendo ou não recurso, a expectativa das agências é que o resultado permaneça o mesmo, já que essa última fase (preços) influencia menos na licitação, que valorizou a melhor técnica (fase dois). Os recursos, caso existam, têm de se limitar à terceira fase.

Encerrado o prazo de recursos, segundo a Secom (Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica), a assinatura do contrato será imediata. Ainda não se sabe qual será a primeira campanha, mas, entre as primeiras, está a da reforma da Previdência.

Entre as agências vencedoras, duas (Duda e Matisse) são comandadas por ex-marqueteiros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Duda Mendonça foi o responsável pela campanha vitoriosa de Lula, em 2002. A Matisse, agência de porte médio de Campinas (SP), associou-se no início deste ano ao publicitário Paulo de Tarso Santos, que fez as campanhas de Lula em 1989 e 1994. Após 1996, porém, Santos afastou-se do PT e coordenou campanhas do PFL do Paraná em 1998 e 2000. Em 2001, tornou-se publicitário do PSDB e cuidou da imagem de FHC.

Segundo a Secom, a ligação anterior desses publicitários com Lula não coloca sob suspeita o resultado da licitação. A Secom diz que os critérios da licitação são objetivos, determinados pelo edital, e o resultado depende da avaliação de cada quesito apresentado. Luciana Merehb, da Master São Paulo, que ficou em quarto lugar, considerou a licitação ?totalmente transparente? e disse que a agência não vai recorrer.

Participaram da terceira fase as 12 agências classificadas na etapa técnica -47 se inscreveram. Ninguém contestou o resultado, que já era esperado, pelo fato de essas três agências terem sido as primeiras classificadas nessa fase.

No resultado final não há ordem de classificação. As três venceram e dividirão a publicidade oficial, a critério da Secom. Cada uma tem garantidos apenas 15% do valor do contrato, que tem como objetivo assegurar que não haja acomodação. O desempenho de cada uma é que determinará a distribuição das campanhas.

Zilmar Fernandes da Silveira, sócia da agência Duda Mendonça, classificou de ?maravilhoso? o resultado. ?De todas as agências, a que mais conhece o pensamento e a estratégia deste governo é a nossa. Fizemos um trabalho fantástico. Tínhamos que ganhar em primeiro lugar, sem margem de contestação?, afirmou.

Dalva Fazzio, diretora-presidente da Matisse, disse que a experiência de Paulo de Tarso em marketing político foi fundamental para a classificação da agência, que tem apenas cinco anos. ?É um grande desafio?, afirmou.

As melhores propostas ontem foram feitas pelas agências Master e SMBB: cobrança de 9% de honorários e desconto de 20% nos custos próprios. As três primeiras colocadas na fase anterior, porém, alteraram suas propostas e assumiram esses percentuais, como lhes faculta o edital de licitação, permanecendo na frente."

 

"Me ajudem: sigo Miriam ou Joelmir?", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 4/8/03

"Miriam Leitão apóia sem reservas a política financeira do ministro Antonio Palocci, em nome da prioridade absoluta ao controle da inflação – inclusive juros altos, arrocho no crédito e superávit fiscal maior do que o acertado com o Fundo Monetário.

Três páginas adiante no caderno de Economia de O Globo, Joelmir Betting tem posição claramente contrária, apontando a alta taxa de juros como agente de sufocação da economia e responsável maior pela forte retração da economia e pelo forte desemprego.

Esse debate diário – e consistente dos dois lados – é, sem dúvida, um dos pontos altos do jornal carioca e de toda a imprensa. Teoricamente permite ao leitor um confronto quase imediato das duas principais correntes de reflexão sobre os problemas econômicos do país e que chegam até a dividir tanto os partidos da base governista como os da oposição.

Miriam e Joelmir são reconhecidos como jornalistas íntegros e independentes. Mas a história, segundo Marx (cujas idéias chegaram a influenciar os dois quando jovens), é construída pelos interesses materiais dos homens. Seja ou não por conta dessa interpretação, é óbvio que as opiniões de Miriam coincidem mais com o pensamento do setor financeiro da economia (onde ela também tem suas fontes mais constantes), enquanto as colunas de Joelmir tendem a endossar as queixas do setor produtivo (com os industriais e suas entidades sendo ouvidos com maior freqüência).

Os argumentos dos dois lados são fortes e, talvez por isso, tenho a impressão de que a soma algébrica aumenta a incerteza e a desconfiança do leitor em relação a todas as análises e proposições. Talvez os economistas estejam se concentrando em números e modelos matemáticos que deixam de lado fatos importantes. O Gosplan – órgão superior de planejamento da União Soviética – fazia cálculos sobre produção, distribuição e consumo de 20 milhões de produtos, mas nunca resolveu o problema de que os números não coincidiam com a realidade nos supermercados. Os jornais nos dizem que os Estados Unidos estão retomando o crescimento mas o item mais importante (e nitidamente decisivo) para essa retomada é o aumento das despesas militares. Enquanto isso, o desemprego aumenta e a massa de salários cai, da mesma forma como aqui. Esse conjunto de fatos deve ser chamado de crescimento?

Talvez eu não esteja lendo com a devida atenção o que Miriam e Joelmir se esforçam – e com a maior competência – para me explicar. Algum de vocês pode me ajudar?"

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