Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > IMPRENSA & VIOLÊNCIA

Carlos Chaparro

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

MST NA MÍDIA

"No MST, a competência de agir e divulgar", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 8/08/03

"O XIS DA QUESTÃO – O MST tornou-se fonte de notícias não porque as espalha, mas porque as produz, materializando conflitos de alta voltagem, em acontecimentos recheados de atributos jornalísticos. E o sucesso do movimento se deve à capacidade de criar sintonias perfeitas, inteligentes, entre o fazer e o dizer, entre o agir e o divulgar.

1. Sincronismo do sucesso

O MST jamais teve dificuldade em conquistar espaço e tempo na mídia, na divulgação das suas ações políticas. Para tal sucesso não precisou recorrer às habilidades de sedução dos esquemas de relações públicas nem às técnicas hoje tão desenvolvidas de assessoria de imprensa. Embora dando à comunicação importância de vertente fundamental em suas estratégias de intervenção na realidade política e social, o MST nunca montou grandes estruturas de divulgação jornalística. Em vez disso, desenvolveu a competência de produzir acontecimentos com irrecusáveis elementos de noticiabilidade. Tornou-se fonte de notícias não porque as espalha, mas porque as produz, materializando conflitos de alta voltagem social, política e ideológica, em acontecimentos recheados de atributos jornalísticos.

Se percorrermos a história e as manifestações do movimento, pode-se dizer que o sucesso político do MST se deve à capacidade de criar sincronismos perfeitos, inteligentes, entre o fazer e o dizer, entre o agir e o divulgar.

A mais brilhante demonstração dessa capacidade foi, sem dúvida, a Marcha dos Sem Terra a Brasília, iniciada a 17 de fevereiro de 1997 e encerrada, em ápice vitorioso, no dia 17 de abril, dois meses depois. Se considerarmos o período preliminar, de ?aquecimento? noticioso, e os debates posteriores que se alongaram por pelo menos uma semana, foram quase oitenta dias de presença forte no noticiário diário, tempo durante o qual a Marcha se manteve como principal assunto na agenda da discussão pública.

Acompanhei e estudei, na sua dimensão comunicativa, o longo ?arco de vida? do acontecimento ?Marcha dos Sem Terra a Brasília?, com medições do espaço impresso e avaliações qualitativas da cobertura feita pelos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Em números, na soma dos dois jornais, o resultado foi o seguinte: ao longo do percurso de dois meses, a Marcha gerou 374 peças jornalísticas, entre reportagens, editoriais, crônicas, artigos assinados, notícias e entrevistas. Incluindo textos e fotos, á área impressa conquistada equivalia a 67 páginas formato standart.

2. A práxis e seus conceitos

Para esse mesmo estudo, pouco tempo depois da Marcha e do seu sucesso, fiz a entrevista a que me referi no texto da semana passada, com o então coordenador nacional de comunicação do MST, o pedagogo Neuri Rossetto. E para se compreender as razões do sucesso discursivo do SMT, basta a transcrição de alguns trechos do que ele me disse – naturalmente, com a recomendação de que essas falas sejam colocadas e entendidas nos contextos de tempo e espaço em que se deu a Marcha a Brasília.

Vamos, então, as falas de Neuri Rossetto.

Lógica e raízes do Movimento – ?Não quisemos ser sindicato, porque os sindicatos são alvos fáceis da repressão, de um lado porque a lei os amarra ao Estado, de outro porque, também por imposição legal, estão fragmentados em categorias e áreas geográficas específicas, fora das quais não podem atuar. A luta pela terra ligada aos sindicatos rurais sempre existiu, mesmo nos tempos da ditadura, mas era uma luta de batalhas isoladas, distantes entre si, o que tornava fácil a repressão. Por isso, decidimos criar uma organização de âmbito nacional, capaz de atuar agilmente em várias regiões, com grande capacidade de mobilização e de produzir pressão social. (…) Valeu-nos, logo no início, o apoio da Igreja, que tinha muita força no meio rural, onde já desenvolvia um trabalho de conscientização política no tempo do regime militar. Depois, os apoios dos sindicatos urbanos, em lutas mais específicas.?

Importância estratégica da comunicação – ?Tomamos a decisão de não restringir a luta ao meio rural. Se ficássemos limitados ao campo, a luta poderia ficar isolada. Resolvemos trazer a luta também para a cidade. Achamos necessário que o meio urbano, onde está a maioria da população, tenha contato com o que acontece no campo, até porque depende dele.?

?(…) Não acreditamos que, sozinhos, possamos vencer a luta pela reforma agrária. Ou a gente consegue envolver a sociedade nessa luta, ou não teremos êxito. Por um longo tempo, das nossas ações no campo não chegava notícia à cidade. Jornalistas amigos nos diziam: ?Temos orientação para não divulgar o que vocês fazem e dizem?. E quando a imprensa silencia, ela nos isola. Mas a gente aprendeu a lidar com a lógica do jornalismo…?

?(…) A comunicação jornalística tem um papel muito importante, de mão dupla. Tão perigoso quanto o silêncio da imprensa a nosso respeito é o afastamento e a falta de interesse da nossa gente pelo que acontece nas cidades. Um conflito que não é noticiado não produz problemas para o governo, e se não produz problemas, não obtém conquistas, porque o governo só age sob pressão. Por isso precisamos do apoio da sociedade. Ora, se não conseguimos manter a sociedade informada, como poderemos esperar o seu apoio? Por outro lado, a nossa gente, no cotidiano da luta, precisa estar a par do que acontece no país, e descobrir a relação que a nossa luta tem com os problemas nacionais. Sem isso não iremos além daquela primeira fase da nossa luta, que é a fase corporativa, da conquista de uma gleba de terra para quem dela precisa. Se o trabalhador rural achar que lhe basta a conquista do pedaço de terra, e que depois disso nada mais interessa, até o pedaço de terra ele acabará perdendo.?

?(…) O que gera notícia e debate são os fatos políticos. Nós nunca trabalhamos com a hipótese de transformar em objetivo a conquista de espaço na imprensa. Não queremos noticiário insuflado. Claro que buscamos competência para lidar com a informação. Mas consideramos que a divulgação não pode ser o objetivo. Os objetivos do MST são aqueles de que lhe falei: conquistar a terra para quem dela precisa; mudar o país com a reforma agrária; mudar a sociedade para fazer a reforma agrária. O sucesso que nos interessa não é o da divulgação, mas o sucesso das ações.?

Só que (acrescento eu), sem divulgação sincronizada com a materialização dos fatos, as ações fracassam, porque não alcançam o espaço público dos conflitos em que o jornalismo se transformou. A própria história do MST ensina isso.

NOTAS DE RODAPÉ

1) Não sei se o MST evoluiu ou regrediu, em relação às idéias e ao estágio da luta dos tempos da Marcha a Brasília. Mas, qualquer que seja a hipótese, há muito a aprender com os ensinamentos contidos nos conceitos e nas práticas do MST. E talvez a melhor lição seja esta: nos embates da construção democrática, dizer sem fazer é tão ineficaz quanto fazer sem dizer.

2) Socializar, no território dos confrontos e nos processos democráticos, o dizer discursivo contido nas ações dos sujeitos sociais, é o que hoje dá importância política e cultural ao jornalismo. Porque, para dizer e socializar o discurso das suas ações, os sujeitos sociais precisam da credibilidade, da clareza (narrativa e argumentativa), da abrangência, da velocidade, da independência e do poder de elucidação da linguagem jornalística. Se não entendermos isso, e se não zelarmos por esses predicados, o jornalismo perderá função e fracassará."

 

BOATOS & JORNALISMO

"O que você acha, Alceu?", copyright O Globo, 8/08/03

"Por que publicamos tão poucas boas notícias? Más notícias vendem mais? Para falar a verdade, más notícias, preocupantes notícias, terríveis notícias vendem bem mais, sim senhor. O leitor, perdoe-se o registro, adora a desgraça alheia, o vexame alheio, o decote e outras vistas da mulher alheia. E, mais que tudo, adora boatos, quanto mais dolorosos melhor.

Boatar – o verbo existe mesmo – pode ser de dois tipos: há o rumor interesseiro, criado para que o boateiro lucre com a mentira, e o boato impulsivo, incontrolável, até inofensivo. Esse era o caso, contam, de um certo Zé Boateiro. Tantas fez, que o comandante do destacamento local mandou prendê-lo e o condenou a ser fuzilado – com tiros de festim, só para assustar o atrevido. Mas a pólvora seca saiu pela culatra. No dia seguinte, Zé já espalhara pela cidade que o Exército vivia séria crise: estavam vazios os seus paióis de munição verdadeira.

Do folclore para a vida real, poucos boatos são mais malévolos e ardilosamente difundidos do que os da área financeira – espalhados para fazer alguém ganhar muito dinheiro e você perder o seu pouco dinheiro. (Ou os seus muitos dinares, afinal quase todos somos filhos de Deus; lista de exceções pode ser entregue na paróquia mais próxima, em duas vias, uma lá para cima, outra lá para baixo.)

Toda esta chorumela sobre a difusão de falsidades é justificada por uma nossa preocupação profissional com boatos. É mais ou menos generalizada nas redações sérias a norma ética de que eles só podem ser publicados desde que isso sirva para desmoralizá-los e assim exorcizar a manobra infame. É crucial a escolha do momento de fazê-lo. E é sempre possível, para quem leva a profissão a sério, escapar da acusação de leviandade sem deixar de denunciar o atentado contra a verdade. Foi exatamente o que aconteceu segunda-feira passada, quando a explosiva notícia da demissão do ministro Palocci só impressionou os trouxas, e matou no berço o raid especulador que se armava, sem deixar de denunciá-lo.

O episódio sugere maturidade na mídia e no mercado. Disso muito precisamos hoje e ainda precisaremos por bastante tempo. Pelo menos, foi o que me garantiu, de fonte segura, o primo de um amigo meu que serve cafezinho na Bovespa.

Mas é melhor terminar falando sério, com palavras preocupantes de Alceu Amoroso Lima, em 1964:

?…o Boato é astuto e sinuoso como a serpente, mas alado e irresponsável como uma pomba. Nas asas dessa pomba, porém, os gaviões e os usuários aguçam as unhas. Jogam na bolsa, fazem subir e baixar o valor das ações ou o preço do dólar e preparam, maquiavelicamente, pela tática do ?quanto pior, melhor?, o advento das ditaduras e o crepúsculo das liberdades…?"

 

IMPRENSA & VIOLÊNCIA

"Momento de autocrítica", copyright Jornal do Brasil, 4/08/03

"Depois de duas semanas apontando críticas que considerei injustas à atuação da imprensa, é hora de fechar a série com as falhas que conheço de perto. Agradeço a leitores engajados no debate, como Milton Lima, Marcos Lessa, César de Oliveira, Rose Ribeiro e Cristina Castro, uma das criadoras do blog tamoscomraiva.blogger.com.br, que apontaram, em e-mails, problemas que constam da minha lista.

É lamentável que órgãos de comunicação ainda se refiram a ?jovens de classe média? quando tratam de bandidos nascidos em bairros nobres, diferentemente do tratamento dispensado a filhos de bairros pobres. O preconceito é inaceitável.

É triste o esgarçamento da cobertura política. Reportagens em jornais, rádios e TVs se formam com seqüências de declarações. Entrevistas que nada dizem alimentam páginas e páginas. Quando se quer um mínimo de substância é preciso recorrer a colunistas, obrigados a ir além do ofício de desnudar bastidores para, muitas vezes, explicar o óbvio. Nas últimas eleições, manchetes eram produzidas com mais freqüência por resultados de pesquisas eleitorais do que pelo debate de idéias ou conteúdo substantivo.

Há quem veja ?interesses por trás das empresas jornalísticas?construindo desvios. Há, no país, 5.600 municípios. Com jornais locais e emissoras de rádio e TV distribuídas entre políticos ao longo de anos. Percebe-se que os preceitos da ética, da busca da verdade e o exercício pleno do jornalismo é prática da minoria. As grandes empresas foram obrigadas a abandonar o amadorismo para atender ao crescente número de leitores, ouvintes ou telespectadores. Evoluíram tecnologicamente. São empresas e agem como tais. Se ameaçam o maior patrimônio de um órgão de imprensa, a credibilidade, perdem justamente o que lhes garante sustento: o público.

A proliferação de dossiês ou de gravações de fitas teve sua era. Nefasta no quesito básico de checar dados, fatos, fontes. A imprensa aprendeu a lidar com tais ?bombas?. Bastou, diante delas, juntar às cinco perguntas do lead – quem, quando, como, onde e por quê – a sexta e fundamental: ?a quem interessa?. É o melhor antídoto contra meias verdades, escândalos e sensacionalismo. A mesma preocupação ainda não é tão precisa no noticiário em tempo real na internet. Ali, a necessidade de divulgar antes dos concorrentes muitas vezes provoca o que chamamos de ?barriga?. É o outro nome da mentira.

Mais um foco de fragilidade é a queda do nível profissional. Os jovens, de formação precária, são arrogantes em sua maioria, não se preocupam em pesquisar sobre um entrevistado antes de ouvi-lo, se excedem no próprio ponto de vista, escorregam no português. Há críticos para os quais o cinema nasceu depois de Pulp fiction, de Tarantino. O efeito do que produzem é devastador. Os filtros, pelos quais nos cabe zelar, são cada vez menos permeáveis. Sob pena de assinarmos nossa sentença de morte.

Sobre a suspensão dos Repórteres Sem Fronteira na ONU, o ministério das Relações Exteriores justifica seu voto: ?Em maio último, membros da associação acorrentaram-se à entrada da Embaixada de Cuba em Paris, impedindo a entrada de funcionários e da população que buscava serviços consulares de rotina. Durante o protesto, um cidadão cubano foi agredido por integrantes da ONG. Tumultuaram também a última sessão da Comissão dos Direitos Humanos em Genebra, contrariando o espírito de colaboração que se espera das ONGs que gozam desse status consultivo e devem respeitar as regras protocolares. Por fim, a presidência da sessão da CDH, por eleição realizada entre os países africanos, foi destinada ao representante líbio, decisão contra a qual essa ONG se insurgiu.?

Ao comentar o assassinato de um turista alemão na Estrada das Paineiras, o tenente-coronel Jorge Braga, comandante do Batalhão de Policiamento Turístico disse ser uma fatalidade. O turista, alegou, optara por andar numa área de risco. É o caso de sinalizar certas ruas do Rio como ?área de risco?. E avisar claramente, como se faz, por exemplo, nos metrôs de Paris e Londres, que indicam a presença de ladrões de carteira pelo sistema de alto-falantes."

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