Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > BALANÇO

Carlos Chaparro

Por lgarcia em 20/01/2001 na edição 105

QUALIDADE NA TV

BALANÇO

"TV, um balanço otimista. Com preocupações", copyright AOL (www.americaonline.com.br), 14/01/01

"O xis da questão – O acesso à tecnologia digital generalizou-se. Mas a qualidade ética e cultural da programação e dos conteúdos da televisão não é uma questão de tecnologia, nem melhora por milagre ou simplesmente porque a acusamos de não prestar. É preciso oferecer à televisão a contribuição de uma audiência crítica, lúcida e livre.

1. Tecnologia acessível

As câmeras mais sofisticadas da televisão brasileira são as que Boris Casoy usa no estúdio onde apresenta o seu telejornal. Mas, em termos de qualidade e movimentação de imagem, são praticamente imperceptíveis, aos olhos dos telespectadores, as diferenças entre o Jornal da Record e o Jornal da Cultura, ou entre esses dois e qualquer telejornal das estações ou redes consideradas menores. De outro lado, empresas terceirizadas são responsáveis pela concepção e pela produção de uma quantidade cada vez maior de programas de boa qualidade técnica, e até artística, tanto na televisão da rede aberta quanto na televisão por assinatura. E esse mercado cresce sem parar, graças à multiplicação de canais, inclusive em portais da Internet.

Eis aí um quadro que o professor Luiz Fernando Santoro, especialista da área, e a quem entrevistei para esta reflexão, resume numa frase simples: ‘Nunca tanta gente fez televisão’.

Essa é uma das avaliações possíveis da televisão brasileira, na virada do milênio. Para o professor Santoro, é o lado mais importante da questão, aquele que, levando em conta a televisão como mercado, economia e campo de produção cultural, mostra uma vocação extraordinária para a convergência das tecnologias de comunicação.

Na opinião do meu entrevistado, o barateamento da tecnologia nivelou as possibilidades de produzir com qualidade.

‘Nesse aspecto, todos ficaram mais próximos da Globo’, diz Santoro. ‘A tecnologia mais avançada tornou-se acessível também às pequenas empresas de produção. Fazem a diferença recursos de outra natureza, como a beleza e o talento de Vera Fischer, e o poder empresarial das grandes redes. Sob o ponto de vista da tecnologia, os processadores de imagem com que eu trabalho no meu estúdio me permitem, tal como os utilizados nas grandes redes, a edição não-linear, com a qual se romperam todos os limites de fusão, intercalação e sobreposição de imagens. Da mesma maneira, posso dispor das fantásticas possibilidades que as câmeras digitais criaram.’

Explica Santoro que, com as câmeras de hoje, é possível realizar na filmagem as idéias mais ousadas de contar uma história por imagens. ‘Elas têm lentes que aproximam qualquer detalhe, num jogo de futebol, por exemplo. E por falar em futebol, as novas câmeras têm memória que permite a recuperação de imagens (replay) a qualquer momento. São recursos que as estações mais poderosas usam, mas que também já estão nas empresas independentes de produção.’

2. Velhas fórmulas, novos sucessos

Quanto à programação, Luiz Fernando Santoro vê poucas novidades.’Olhando a rede aberta e a TV por assinatura, a novidade mais importante que vejo são os programas para jovens; finalmente começaram a aparecer, numa televisão que raramente ligou para a juventude. Nota-se, também, o crescimento desses programas de vendas, tipo shop show, dando à televisão um papel direto na dinamização de negócios.’

No geral, para Santoro, o que está fazendo sucesso são as velhas fórmulas, que sempre fizeram sucesso: telenovelas de época, telenovelas urbanas e rurais, concursos, futebol e seriados. Só que com recursos tecnológicos e requintes de produção que jamais tiveram.

Quanto à televisão nos portais da Internet, Luiz Fernando Santoro considera que as experiências implantadas são ainda formas precárias de fusão de tecnologias. Ele acredita que, com a banda larga, que já está aí, a fusão de tecnologias se dará por uma estratégia de complementação e interação, cada uma das mídias assumindo competências próprias convergentes. E dá um exemplo:

‘Acredito que em pouco tempo estaremos assistindo futebol em duas telas integradas, uma oferecendo o show de imagens da televisão, outra respondendo rapidamente às solicitações da informação organizada, que ajude às interações inteligentes com o espetáculo.’

3. Relação crítica com a TV

Falta, entretanto, avaliar a televisão pelo mérito e pelas intenções do uso que faz das tecnologias, tendo como referência os padrões éticos, morais e estéticos, velhos e novos, que os processos culturais preservam ou fazem aflorar na sociedade, por lógicas de confronto. Há leis e costumes a respeitar, mas também existe a dinâmica da transgressão, sem a qual dificilmente se produzem os aperfeiçoamentos.

Nesse campo, a divergência é inevitável, porque na discussão se refletem os confrontos de crenças e convicções, de gostos e preferências, de projetos e ideários (políticos, ideológicos, cívicos, religiosos, familiares…), de realidades, sonhos e interesses. E é necessário fazer a discussão.

Na minha opinião, o que mais importa, nas relações com a televisão, é o aperfeiçoamento da construção democrática, para o qual é necessário conhecer e respeitar limites. Os limites da liberdade, por exemplo, que a lei impõe ou sugere.

Respeitadas a lei e a cidadania, que as redes e estações façam a televisão que quiserem, e que o telespectador, cidadão livre, assista à televisão e aos programas que escolher.

A liberdade do telespectador está hoje favorecida pela enorme variedade de escolhas possíveis. Mas devemo-nos esforçar para que essa liberdade de escolha exercite e eduque uma relação crítica com a televisão, e a reflita. Será a nossa melhor contribuição. (Carlos Chaparro é professor de jornalismo na Universidade de São Paulo – USP)"

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