Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > MEMÓRIA / HÉLIO DAMANTE

Carlos Heitor Cony

Por lgarcia em 04/12/2002 na edição 201

ILUSÕES PERDIDAS

"Um basta no ?basta?", copyright Folha de S. Paulo, 30/11/02

"Lendo o livro de Elio Gaspari, encontrei uma nota em que ele menciona meu nome quando procura identificar o autor de dois editoriais do ?Correio da Manhã?, publicados na virada de 31 de março para 1? de abril de 1964.

Até hoje não se sabe quem escreveu o ?Basta? e o ?Fora?, atribuídos a Edmundo Moniz, que era o nosso redator-chefe.

Elio realmente me perguntou sobre o assunto e eu disse o que sabia. O jornal vinha combatendo o governo de João Goulart, que entrava em decomposição, criando um cenário que poderia descambar numa guerra civil. Na mecânica dos editoriais -que, em linhas gerais, é a mesma até hoje-, combina-se um texto aprovando ou criticando um fato ou pessoa do dia. Em casos mais simples, um editorialista é destacado para escrever o texto inteiro, posteriormente lido e aprovado pelos demais.

Na crise de 1964, os editoriais eram discutidos exaustivamente pela equipe liderada por Moniz e da qual faziam parte Otto Maria Carpeaux, Osvaldo Peralva e Newton Rodrigues, entre outros.

Eu estava recém-operado, no meu apartamento em Copacabana, e Edmundo Moniz, que ia me visitar todos os dias, telefonou-me para comunicar que Carpeaux desejava pisar forte, com um editorial virulento contra Jango. O próprio Carpeaux sugerira que Moniz me consultasse, uma vez que nós dois éramos afinados, tanto em política como em literatura. Minha participação limitou-se a cortar um parágrafo e acrescentar uma pequena frase. Hora e meia mais tarde, Moniz telefonou-me outra vez, lendo o texto final que absorvia a colaboração dos editorialistas, e, embora o conteúdo fosse o piloto elaborado por Carpeaux, a linguagem traía o estilo espartano do próprio Moniz.

Como disse ao Elio Gaspari, um bom editorial é obra coletiva como uma catedral gótica. Não expressa o pensamento de um indivíduo, mas o clima de uma época."

?A GUERRA (1914-1918)?

"Julio Mesquita leva o leitor aos infernos da Primeira Guerra", copyright Folha de S. Paulo, 30/11/02

"?Hoje precisamos lançar um apelo: que venha o homem capaz de produzir um belo medo em nossa existência? (Heidegger, 1929). Esta frase, publicada na sequência da Primeira Guerra, revela um imaginário terrorista. É por tal motivo que Norbert Elias dedicou ?Os Alemães? ao vínculo do terror com o nacionalismo germânico. O terrorista vive do medo e o espalha. Heidegger saúda o pânico enquanto belo, numa estetização do mal que integra as pregações nazistas. A cantilena sobre a ?superioridade? alemã, do plano racial à cultura, despertou a morte, enterrada nas lembranças da guerra, e ampliou seu reino em matanças inauditas.

Heidegger leu Empédocles. Ele percebeu o horror quando apelou para o medo gerado por um homem providencial. O filósofo esqueceu ?apenas? as denúncias contra a guerra feitas pelo pré-socrático: ?Não cessareis a carnificina odiosa? Não vedes em que loucuras descuidadas vos estais a consumir uns aos outros??.

E, hoje, G.W. Bush ainda delira com a ?superioridade? americana e se julga no direito de jogar bombas e gente armada no planeta. Ele e os terroristas definem a ?razão? de Estado com frases feitas.

É nesse contexto que surge, em nova edição, o livro de Julio Mesquita (1862-1927). A obra contém os boletins semanais sobre a Primeira Guerra escritos pelo jornalista e publicados, entre 1914 e 1918, em ?O Estado de S.Paulo?, jornal do qual foi publisher. Ao longo das 920 páginas, divididas em quatro volumes e recheadas por fotos, Mesquita expõe os fatos guerreiros com objetividade e prudência e escreve frases justas sobre a barbárie dos combatentes.

Nas linhas finais, diz: ?Somos homens, e o célebre verso latino, uma vez lido, nunca mais nos saiu da memória: não queremos ser estranhos às coisas humanas, principalmente às que, com tanta evidência, põem em jogo os altos destinos da humanidade. Somos brasileiros. Vimos a nossa terra quase nas garras de uma casta de assalto e de rapina (…). O pangermanismo por terra, somos, sem ameaças, um povo independente. Resta que o saibamos ser no concurso internacional, incruento e civilizador que se vai abrir?.

Cada frase do trecho citado está cheia de correto sentido lógico e histórico. Menos a última. O concurso internacional se mostrou tudo, menos civilizador ou incruento. Depois dos milhões de cadáveres da Primeira Guerra, milhões de cadáveres surgiram na Segunda. E logo ali, na esquina dos tempos, vislumbramos, no século 21, outros milhões.

Mesquita mostra, no livro, ser um jornalista erudito em filosofia e literatura. Ele não se descuidou das informações teóricas sobre a guerra e sobre a história, recorrendo aos dados sobre o comércio, as ciências e as técnicas.

Amigo dos franceses, apreciou com isenção os alemães, mesmo nos instantes em que eles desfilavam arrogância. Também soube julgar os ingleses, desde suas táticas de guerra até o comércio colonial. Dos russos, soube captar as mais escondidas dobras da alma. Ele não se enganou com os norte-americanos e captou a importância que teriam a partir dali.

Jornalista, Mesquita não superestima a imprensa. Ele define seus artigos como partes de um ?despretensioso boletim, em que se não dão soluções, nem se ditam sentenças, mas somente se procuram explicações plausíveis?. O ?plausível? se atinge com dados, pesquisa, saber. E ao leitor fica a autonomia para julgar. O jornalista, diz Mesquita, afasta a ?pura invencionice da legião dos noveleiros, de imaginação inesgotável? e dissolve os ?tremendos disparates? lançados pelos governos.

A leitura de ?A Guerra? traz lições para todos, e serve como desagradável descida aos infernos guerreiros. Quem não perdeu a consciência e se acautela diante das imagens da CNN percebe a relevância do presente resgate de um grande texto jornalístico. Enquanto no Brasil se acumulam os processos judiciários para calar a imprensa, recordemos a dignidade do jornalismo. Este livro cumpre de modo perfeito essa função. (Roberto Romano, 56, filósofo, é professor titular de ética e filosofia na Unicamp)"

MEMÓRIA / HÉLIO DAMANTE

"Morre o jornalista e folclorista Hélio Damante", copyright Folha de S. Paulo, 1/12/02

"Durante toda a sua vida, Hélio Damante não foi apenas um jornalista interessado nos problemas da política, da cidade e da religião. Com igual empenho e talento, dedicou-se ao estudo das tradições históricas e folclóricas do Estado, o que resultou em dezenas de estudos ainda hoje citados e utilizados como fonte de consulta por todos aqueles que pretendam aprofundar-se nesses assuntos. Damante morreu na madrugada de ontem, em Atibaia, aos 83 anos. O enterro realizou-se ontem à tarde no Cemitério de Bom Jesus dos Perdões, sua cidade natal, no interior de São Paulo.

Nascido em 6 de maio de 1919, Hélio Damante era filho de Francisco Damante e Zélia Moreira Damante. Professor diplomado pelo Instituto de Educação Caetano de Campos em 1936, ficou pouco tempo no magistério, voltando-se para a vida da imprensa. E o exemplo vinha de casa: o pai, que morreu em 1927, foi correspondente do Estado em Bom Jesus dos Perdões e um dos pioneiros dos estudos folclóricos no Estado.

Damante trabalhou primeiro no jornal O Operário, semanário editado no Brás.

Em 9 de abril de 1940, entrou no Estado, a convite de Júlio Rodrigues, que escrevia a coluna Movimento Religioso. Foi um início delicado para o jovem profissional de imprensa, segundo ele próprio: ?O jornal havia sido tomado pela ditadura getulista e os Mesquitas foram exilados.? Com a ocupação do jornal, Rodrigues afastou-se do Estado e Damante ocupou o seu lugar até 1945, quando o jornal voltou a ser dirigido pelos legítimos proprietários.

Com o retorno de Júlio Rodrigues ao Movimento Religioso, Damante passou a redigir notas para a seção Notícias Diversas, que publicava o material jornalístico hoje apresentado pelas editorias Geral e Cidades do Estado. Em 1955 elegeu-se para um breve mandato de vereador em São Paulo e, no ano seguinte, foi convidado a editar a seção de Política do Estado.

O ?Papa? – Deixou o cargo em 1959, quando o então governador Carvalho Pinto o convidou para escrever os seus discursos e mais tarde o nomeou assistente particular.

?Pedi afastamento da Política porque me senti eticamente impedido e voltei a redigir o Movimento Religioso?, explicou. Damante sempre admitiu que escrever para essa coluna era uma das suas atividades mais importantes. Ele se envolvia tanto com ela que ganhou, dos colegas de redação, o apelido de Papa, que o acompanhou durante toda a carreira no Estado.

Rubem Braga, que trabalhou no jornal, gostava muito de brincar com Damante por causa da predileção do colega pelos assuntos religiosos. Proferia blasfêmias e falava palavrões só para irritá-lo.

Pelo temperamento expansivo e talvez até pela formação de professor, Hélio Damante aproximava-se com muita facilidade dos jornalistas mais jovens. Na festa comemorativa dos 50 anos de Damante no Estado, um dos seus discípulos, Randolpho Marques Lobato, fez questão de ressaltar: ?Também fora da escola, Damante sempre foi professor de todos, transmitindo humildade e dedicação e contribuindo para o aperfeiçoamento profissional de cada um.? Em resposta, Damante insistiu na importância que dava ao diálogo com os mais jovens.

Não apenas com eles, porém. Era pessoa afável, sempre risonha, amiga dos colegas e tinha sempre uma palavra de elogio para os companheiros cujos textos lhe causassem impressão favorável ou nos quais muitas vezes encontrasse qualidades insuspeitadas pelos próprios autores. De cultura muito vasta, jamais fez alarde dos seus conhecimentos, mas estava sempre pronto a deixá-los à disposição dos companheiros que necessitassem de uma data, um nome ou até uma lembrança para a conclusão de uma reportagem.

Suas opiniões muito claras e definidas a respeito de assuntos religiosos lhe valeram, por vezes, críticas tanto das alas tradicionais quanto das correntes conservadoras da Igreja. O interesse que o aproximou da Igreja Católica também o levou a lecionar História das Religiões na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero.

Muito preocupado com os assuntos de todo o Estado, Damante escreveu, durante anos, o 1.? W, designação interna do editorial que a seção do Interior publicava diariamente. Funcionário da Prefeitura de São Paulo, por causa de suas opiniões políticas foi perseguido em administrações tão diferentes como as de Jânio Quadros e Luiza Erundina, que o demitiu da Prefeitura em 1989, quando ocupava, havia 13 anos, a função de assistente-técnico de divulgação.

O historiador – Em 1943 ingressou no funcionalismo público estadual como redator, cargo que exerceu até a aposentadoria. Nessa qualidade trabalhou no setor de imprensa da Comissão do 4.? Centenário de São Paulo e foi um dos assistentes do professor Jaime Cortesão na organização da Exposição de História de São Paulo comemorativa da data.

Hélio Damante foi sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de SP e membro da Academia Paulista de História, da Academia Paulista de Jornalismo e da Comissão Paulista de Folclore. Aliás, ele foi o autor da proposta que tornou agosto o mês do folclore e criou a expressão ?civilização caipira? para definir a sociedade estável que surgiu em São Paulo após o surto do bandeirismo. Também nesse campo, suas posições eram claras: ?Os verdadeiros folcloristas são os que podem realizar um trabalho no campo, mediante vivência com o povo. O resto é mera sociologia.?

Como historiador, dedicou-se principalmente aos fatos de São Paulo, Estado e capital, e a algumas das suas personalidades. Publicou cinco livros e centenas de artigos sobre religião, folclore e história. Uma de suas obras mais importantes, a Nova Paulística, constitui um painel de ensaios sobre a história de São Paulo. Escreveu ainda trabalhos sobre a Catedral de São Paulo, sobre Mário de Andrade e sua relação com a cidade de São Paulo, além de perfis de Amadeu Amaral e do padre Manuel de Paiva. Seu último livro, de 1999, A Rainha Vitória e o Brasil, trata da influência vitoriana no País.

Teve ainda intensa atividade no Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo e na Federação Nacional dos Jornalistas. Recebeu, entre outras condecorações, a Ordem do Mérito do Trabalho, no grau de cavaleiro, a Medalha do Mérito Literário, gênero jornalismo, do PEN Center de São Paulo, e a Medalha Aluísio de Almeida, do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba.

Aposentando-se do Estado em 31 de dezembro de 1991, Damante continuou assíduo colaborador do jornal, com cartas que enviava, como se fosse um leitor comum, a respeito de assuntos tão variados como o catecismo da Igreja Católica, a Guerra do Paraguai, a Guerra das Malvinas, a criação do Ministério da Defesa e os nomes que, décadas atrás, dignificaram a Câmara Municipal de São Paulo. Mesmo afastado, não conseguia livrar-se do vírus do jornalismo."

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