Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >  ***

Carlos Heitor Cony

Por lgarcia em 06/01/2004 na edição 258

PERSONALIDADE DO ANO

“Os homens do ano”, copyright Folha de S. Paulo, 28/12/03

“Uma revista dos Estados Unidos costuma dar em sua capa, na edição de dezembro, a personalidade que seus editores consideraram o homem do ano. A galeria é ilustre e, entre mortos e feridos, a escolha costuma ser aprovada pela opinião pública mundial.

Neste ano, a homenagem recaiu sobre os soldados norte-americanos, louvação genérica aos bravos rapazes que foram lutar, matar e morrer no Afeganistão e no Iraque.

Louva-se a escolha. Foram jovens que cumpriram sua missão e, desde que mundo é mundo, houve matanças por causas boas e más, geralmente más. O sacrifício dos heróis merece reconhecimento, mas daí a considerá-los os personagens mais importantes do ano vai uma distância -e termina numa bobagem.

A distância é que a causa defendida (ou agredida) por esses rapazes foi macetada por políticos nada recomendáveis, que, sob o pretexto de o Iraque manter um arsenal destruidor da humanidade, puseram-se em posição mais que estratégica na região mais rica em petróleo no mundo.

A bobagem é que os soldados não fazem mais do que sua obrigação ao matar ou morrer cumprindo a ordem de seus superiores. Caso contrário, seriam julgados desertores ou traidores e, conforme o caso, alguns deles seriam executados por decisão de cortes marciais. E os heróis são suficientemente medalhados.

Lixeiros, engraxates, contínuos, serventes, faxineiros, as classes mais humildes da pirâmide funcional também cumprem sua obrigação, e a roda social, bem ou mal, rola para a frente, embora para trás em alguns momentos da história.

Os soldados, norte-americanos ou não, já recebem a homenagem tradicional dos monumentos dedicados ao Soldado Desconhecido, esse sim herói e vítima de uma engrenagem que todos sabemos injusta. Uma engrenagem demente, que até hoje a humanidade não conseguiu abolir. E às vezes, como no caso do ano que acaba, chega a exaltar.”

“Ossos do ofício”, copyright Folha de S. Paulo, 01/01/04

“Rio de Janeiro ? Durante anos, como editor de revistas, algumas semanais, outras mensais, folgava no final e no início de cada ano: a pauta de dois números seguidos era feita por geração espontânea, designava um cara para fuçar o ano que passara e outro para prever (em termos) o ano que começava.

Aparentemente, a retrospectiva saía mais fácil, bastava consultar os 12 últimos números da própria revista, selecionava-se aqui e ali uma foto, um texto -e pronto, a edição se fazia sozinha.

Difícil era prever o que o novo ano traria para o mundo e para o Brasil. Tirante alguns assuntos recorrentes, que estão sempre em processo, era difícil imaginar o que de bom ou de mau esperava a humanidade. Para quebrar o galho, procurava-se alguns videntes, profissionais ou amadores valiam o mesmo, astrólogos consultavam seus siderômetros, toda a sua parafernália zodiacal, e, quando o material obtido era pouco e não era convincente, inventava-se alguma coisa mais ou menos provável, bem vaga. Por exemplo, em ano de Copa do Mundo, ?o Brasil terá papel destacado no futebol?.

Onde a porca torcia o rabo era no setor econômico. Os técnicos do governo prometiam mundos e os técnicos da oposição prometiam fundos -ou, mais exatamente, o fundo do poço. Todos chutavam, manobravam números, faziam gráficos complicados provando que o preço da soja subiria e a crise no Oriente Médio afetaria dramaticamente as exportações.

Para tirar a média da média de tudo isso, competia ao editor dar o título geral da matéria e, aí, sim, o problema era meu. A linha editorial das revistas era a do otimismo -e eu sempre fui pessimista. Na queda-de-braço entre o otimismo da empresa e o pessimismo pessoal, buscava então um título realista, que, aliás, sempre se realizava: ?O próximo ano repetirá erros e acertos do ano que passou?.”

 

PALAVRAS CRUZADAS

“As palavras que cruzam o tempo”, copyright Jornal do Brasil, 03/01/04

“Em dezembro de 1913, Arthur Wynne sentou-se em sua mesa de trabalho no jornal New York World e desenhou para o suplemento dominical um novo jogo. Inicialmente chamado de word-croos puzzle, a novidade virou febre nos EUA e em 1925 chegou ao Brasil nas edições do jornal carioca A Noite. Wayne nunca patenteou a invenção e seu nome caiu no esquecimento. Com 90 anos de existência recém-completados, as palavras-cruzadas movimentam um mercado de R$ 35 milhões só no Brasil. Além de integrarem o material didático de milhares de escolas no país, são receitadas como prevenção ao Mal de Alzheimer e vão ajudar na alfabetização de presidiários.

A geriatra Fátima Christo, ex-presidente da Assossiação Brasileira de Alzheimer, diz que as palavras-cruzadas são um dos melhores exercícios para estimular o cérebro.

? O cérebro, como qualquer outro órgão, precisa ser estimulado para não atrofiar. A ausência de estímulo pode causar até quadros de demência, como o Mal de Alzheimer. Eu recomendo as palavras-cruzadas aos meus pacientes como prevenção e no tratamento dos casos menos avançados.

Odélcia Castro, de 86 anos, faz palavras-cruzadas todos os dias e atesta seus benefícios.

? Elas me fazem exercitar a memória e resgatar diversos conhecimentos esquecidos, além de me forçarem a aprender coisas novas, pois quando não sei uma resposta vou pesquisar ? conta ela, que, para resolver o jogo, consulta enciclopédias, Atlas e dicionários e confere respostas com a irmã Odília, de 88 anos, também adepta do passatempo.

Diferentemente do que se pensa, a maioria dos consumidores de palavras-cruzadas não é idoso. A Ediouro, que publica a Coquetel ? a maior linha de revistas de palavras-cruzadas do país ? concluiu por meio de pesquisas que 74% dos seus consumidores fidelizados têm entre 16 e 45 anos. A editora chegou a criar um projeto social para as revistas: a Coquetel é distribuída gratuitamente para 11 mil escolas e são usadas como ferramenta na alfabetização. Hegel Braga, diretor de marketing da Ediouro, conta que a empresa vai expandir a distribuição para presídios:

– O nosso serviço de atendimento ao consumidor recebe muitas cartas de presidiários pedindo o envio de revistas de palavras-cruzadas, pois elas são usadas nos programas de alfabetização dos presos. Procuramos então as secretarias estaduais de administração penitenciária do Rio e de São Paulo para estabelecermos o envio gratuito das revistas dentro das normas de segurança dos presídios.

As palavras-cruzadas são quase centenárias, mas acompanharam o passar dos anos e agora existem em versão online. O cruzadista do Jornal do Brasil Roberto S. Ferreira, um dos mais requisitados do país, foi pioneiro no Brasil, transpondo as primeiras versões do passatempo para a web em 1998. Apesar de muitos leitores acharem difícil resolver as palavras-cruzadas de jornal, Roberto conta que os aficcionados cobram uma maior incidência de palavras desconhecidas para que tenham que pesquisar mais.”

 

NOVO MINISTRO
Laura Mattos

"Há três estações
em nome de Eunício Oliveira (PMDB)", , copyright Folha de S.Paulo,
6/1/04

"Principal cotado para assumir o Ministério das Comunicações na reforma do governo, o deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE) é ligado a um ramo da pasta: há pelo menos três emissoras de rádio registradas em seu nome, duas no Ceará e uma em Goiás.

Existem ainda uma quarta, de propriedade de um sobrinho, e uma quinta, da qual o parlamentar é dono, segundo sua própria assessoria, apesar de seu nome não constar do quadro societário registrado no ministério.

Entre outras funções, a pasta das Comunicações, junto ao Congresso, é responsável por liberar e renovar concessões de rádio e definir as políticas para o setor.

Não há, no entanto, impedimento legal à sua nomeação para o ministério.

A Tempo FM, de Juazeiro do Norte (CE), está nas mãos de Oliveira desde 90. Nessa empresa, tem como sócia sua mulher, Mônica Paes de Andrade Lopes de Oliveira -filha do embaixador do Brasil em Portugal, Antônio Paes de Andrade. Ela também é sócia do marido na Serrinha FM, de Corumbá de Goiás (GO).

Apesar de não estar registrada no nome do deputado, a Sertões AM, de Mombaça (CE), também é de sua propriedade.

Única rádio da cidade, a emissora é também transmitida a outros dez municípios da região.

A Sertões está em nome de quatro pessoas, as quais o diretor artístico, Carlos Audi, entrevistado pela Folha, disse não conhecer.

Ainda no Ceará, há também uma AM em Crateús, a Príncipe Imperial AM, ligada à sua família. Alguns funcionários das rádios de Oliveira ouvidos pela Folha, que não se identificaram, afirmaram que essa estação, captada em 22 cidades, é do deputado.

O diretor comercial, Francisco Vieira, disse que um dos donos é Ricardo Augusto, sobrinho do político. Nem seu nome nem o de Oliveira constam da relação de sócios registrada no ministério, que traz outros quatro nomes.

?Na realidade, o contrato social está no nome desses senhores porque ainda existem algumas pendências de pagamento. Por isso, essa passagem de documento está em aberto?, disse Vieira.

Há cerca de um ano, Oliveira vendeu uma de suas rádios, a Asa Branca AM, transmitida a Boa Viagem (CE) e a outros 60 municípios. Apesar disso, a estação continua registrada em seu nome no Ministério das Comunicações.

Atuação

A possível vaga de ministro não seria a primeira atuação política de Oliveira ligada a suas atividades empresariais. Segundo o site da Câmara dos Deputados, ele também participou, como suplente, da comissão especial da PEC (proposta de emenda constitucional) que liberou a entrada de capital estrangeiro em empresas de mídia. Foi ainda membro da comissão de comunicação da Câmara, em seu mandato anterior."

 ***

"Rádio não é
seu principal negócio, afirma assessor", copyright Folha de S.Paulo,
6/1/04

"Donizete Arruda, assessor de Eunício Oliveira, confirmou que o deputado federal é dono de três rádios: a de Mombaça e a de Juazeiro do Norte, no Ceará, e a de Corumbá de Goiás, em Goiás.

Disse que ele não tem ligação com a de seu sobrinho Ricardo Augusto, em Crateús (CE). ?Ele [Augusto] tem seu próprio dinheiro.?

Segundo Arruda, a AM de Boa Viagem foi vendida há mais de um ano, apesar de o nome constar ainda da lista do Ministério das Comunicações, e atribui o fato a trâmites burocráticos do órgão.

O assessor afirmou que, apesar de possuir as rádios, Oliveira ?não atua na área de comunicações?. Os principais negócios do parlamentar, de acordo com Arruda, são ?transporte de seguros? (dinheiro) e ?agropecuária?.

?A rádio de Mombaça, por exemplo, é uma questão sentimental, por causa do Paes de Andrade?, diz, citando o fato de o sogro de Oliveira ter nascido no local.

Arruda afirma ainda que as emissoras não são um bom negócio.

?Quer uma AM do interior do Ceará de presente??, questionou à
Folha, em tom de brincadeira."

 

Kamila Fernandes

"Sogro impulsionou carreira", copyright
Folha de S.Paulo, 6/1/04

"Deputado federal reeleito, Eunício Oliveira (PMDB-CE), 51, começou na política pelas mãos de seu sogro, o ex-presidente da Câmara (1989-1991) Paes de Andrade, 76, embaixador em Portugal.

Fundador do MDB em 1966 e do PMDB em 1980, Paes de Andrade se projetou nacionalmente em fevereiro de 1989, quando ocupava interinamente a Presidência da República, e levou uma comitiva presidencial para visitar sua cidade natal, Mombaça (CE).

Em 1998, Paes de Andrade disputou o Senado pelo Ceará (sem êxito) e lançou Oliveira para a Câmara, que foi eleito. Em 2002, os dois se candidataram a deputado federal, mas só Oliveira saiu vitorioso. Além da influência do sogro, o pai do deputado também foi vereador de Lavras da Mangabeira (CE) pelo MDB, ao qual Oliveira se filiou em 1972. O deputado tem uma empresa de segurança privada e transporte de valores.

Atual presidente do PMDB no Ceará, Oliveira ocupa desde o ano passado a liderança do partido na Câmara. Nessa posição, ele surgiu como um dos principais interlocutores do Planalto nas negociações para a inserção do PMDB na base governista. A aproximação com o PT ficou evidente nas eleições de 2002, em especial no segundo turno, quando o deputado levou parte do PMDB a apoiar as candidaturas petistas à Presidência e ao governo cearense. A atitude foi tomada a contragosto de outra liderança do PMDB local, o prefeito de Fortaleza, Juraci Magalhães, que declarou apoio às candidaturas do PSDB.

A ligação com o PT se mantém nos cenários nacional
e estadual, onde Oliveira é cotado para disputar o governo do Ceará
em 2006. Nesse caso, ele quer garantir o apoio da esquerda e, para tanto, poderia
até mesmo abrir mão de uma candidatura própria do partido
à Prefeitura de Fortaleza para apoiar a do deputado Inácio Arruda
(PC do B), nome hoje apoiado pelo PT."

 

MÍDIA & PESQUISAS
Clóvis Rossi

"É coisa do além",
copyright Folha de S.Paulo,
6/1/04

"Você certamente passou o ano ouvindo falar em crise ou sentindo-a na pele. Desemprego, violência, queda de renda, juro alto, lojas vazias, tiros perdidos, o diabo.

Aí, vem a pesquisa sobre a popularidade do presidente da República e ele ganha nota 6,3. Não é brilhante, mas, para os padrões conformistas da pátria, está de bom tamanho.

Depois, vem a pesquisa sobre a popularidade dos governadores e todos os dez avaliados pelo Datafolha estão muito bem.

A menor nota é de Rosinha Garotinho (5,9), também medíocre, mas, pelo volume de problemas que o Rio de Janeiro enfrenta e que a Rede Globo mostra, não poderia ser melhor.

Aí, você, que adora desconfiar do jornalismo tupiniquim (ou de qualquer jornalismo), faz uma cara de maroto e diz para o colega do lado: ?Não te falei que não dá para acreditar em jornal. Esses caras só sabem falar em desgraças, inventam desemprego, violência, só para vender jornal. Se tivesse crise, você acha que os governadores e o presidente estariam tão bem avaliados??.

Só tem um probleminha nesse seu raciocínio: até a imprensa se sai bem nas pesquisas -conforme a mais recente delas, que a coloca entre as instituições de maior poder e de maior prestígio na praça.

A grande maioria do público, portanto, também não deve achar que é invenção dos jornais a crise (ou as dificuldades ou que nome você queira dar à, digamos, ?herança maldita?). Logo, as dificuldades existem, mas não são culpa nem do presidente nem dos governadores.

Talvez dos prefeitos, talvez dos congressistas. Ou, então, vai ver que Deus desistiu de ser brasileiro (corria o risco de desmoralização) e rogou uma praga.

Ninguém tem culpa de nada, é coisa do além."

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