Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > SALVE JORGE

Carlos Heitor Cony

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

SALVE JORGE

"Amado de todos os santos", copyright Folha de S.Paulo, 8/8/01

"Ele foi o único habitante deste planeta que conseguiu acreditar com a mesma sinceridade em Marx e na Menininha do Gantois. Muitos não admitem essa intimidade de Jorge com o marxismo, ao qual aderiu mais com o coração do que com a cabeça. E sua literatura também foi assim. Nada de papo-cabeça. Papo coração.

Suando baianidade, melado pelo ouro do cacau, ele foi uma mistura de pai-de-santo e pajé, um pajé que sabia contar histórias bonitas para a imensa taba global onde a noite, se alguém era capaz de duvidar, ele repetia com astúcia: ?Meninos, eu vi!?.

Se o poeta é o fingidor, o romancista é o mentiroso. No caso da poesia, quanto mais finge, mais o poeta é sincero.

No romance, quanto mais se mente, mais se é verdadeiro. E nada mais verdadeiro do que o universo de saveiros e moleques, de mulatas cadeirudas e operários perseguidos, de xangôs e iemanjás, de cabarés e velórios, de doutores de borla e capelo e capitães-de-longo-curso, de quituteiras e babalaôs que povoaram suas noites enfeitiçadas, seus terreiros de suor e milagres -que a carne sofre inteira e precisa sentir prazer por inteiro, pois ninguém é de ferro.


Compreensão

Este podia ter sido o seu lema pessoal. Significa tudo: principalmente a compreensão pelos delitos da carne e do espírito, a generosidade diante das molecagens da vida e dos homens, a curiosidade em sempre desvendar mais uma variação do imenso tema da miséria humana.
Jorge Amado conseguiu o absurdo de ser cético e de ser crente. Só na Bahia podia nascer um sujeito assim. Por isso mesmo ele tinha um gosto de azeite e de sono espreguiçado, de cafuné e de mulata tombada nos fundos da cozinha.

Espiou o mundo com o olho treinado nas fechaduras da vida: compreendeu tudo. Os milhões de leitores que ele teve em todo o mundo não sabem o que perderam: a pessoa humana que só deu a conhecer uma parte de si mesma. Uma parte que constitui um dos maiores todos da literatura moderna.

E este Jorge começou a se mostrar de mansinho, escrevendo ?Lenita?, uma novela em parceria com Dias Gomes e Edson Carneiro. Tinha 15 anos. O trabalho em equipe geralmente não figura na lista de suas obras, mas não deixou de ser uma ameaça. Ele queria escrever.

O seu aprendizado não seria feito nos laboratórios da gramática ou nos alambiques da linguística. Como a cozinheira se faz no fogão, prevendo e provendo as panelas e as frigideiras, Jorge se fez na vida, vivendo e escrevendo. Lenita teria sucessoras: Gabriela, Dona Flor, Tereza Batista, Tieta do Agreste.

Com apenas dois dedos e máquinas de escrever circunstanciais, foi criando a sua obra torrencial, humana, quente de vida e de pecado, numa prosa que parecia desleixada aos críticos do ?ancien régime? literário, mas que o povo ia absorvendo, gostando e consagrando.

Sua obra é inteira, coerente, vívida, caudalosa, formalmente irregular e densamente regular. De um escritor cuja força humana e literária criou ?Jubiabá?, ?Mar Morto?, ?A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água?. Não se deve exigir a mediocridade das fórmulas acadêmicas.

Suas mulheres de ancas cobiçadas, seus turcos fesceninos, seus marinheiros mentirosos, seus santos e suas senhoras são sempre os mesmos, em qualquer língua ou sob qualquer sintaxe.

Pois o moço baiano foi a Maceió, nos idos de 1932, conhecer um sujeito que havia escrito ?Caetés?. Na mesma cidade vivia um outro rapaz que estreara com uma obra-prima: ?Menino de Engenho?. Foi assim que a vida e os deuses reuniram os três grandes do nosso romance regional, a Santíssima Trindade da literatura nordestina, acrescida por uma Nossa Senhora chamada Rachel de Queiroz.

Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado, ao que parece, nunca assinaram um manifesto artístico. Devem ter assinado manifestos pedindo liberdade para os perseguidos da ditadura. Mas nunca se reuniram expressamente para discutir ou fazer literatura.

Em sua casa no Rio Vermelho, misturando preguiça e trabalho, vivia rodeado pelos personagens que criara, duendes e salafrários, povo e polícia, sentindo o cheiro do leite que rompeu dos seios de Iemanjá e encheu a baía de Todos os Santos com a magia que ele, cantando, espalhou por toda parte."

 

"Jorge Amado, um nacionalista nada ortodoxo", copyright O Estado de S. Paulo, 9/8/01

"Jorge Amado, além do glorioso escritor que foi, soube ser também um grande resistente, que nunca se vendeu a nada e a ninguém. Jorge Amado resistiu ao estalinismo, depois de ter passado por ele, homenageado com todas as honras pelo próprio Stalin. Resistiu, bravamente, às patrulhas ideológicas de esquerda e direita. Resistiu aos clichês próprios do escritor proletário, que insistiam em representar o brasileiro como um povo triste e anulado pela opressão capitalista. Resistiu, galhardamente, ao êxito mundial, sem jamais perder a simplicidade, a autenticidade e a descontração do caráter, ao contrário dos que insistem em que ele se tornou um ?escravo do êxito?. Resistiu à crítica acadêmica que fez restrições formais e ideológicas à sua obra. Resistiu ao unilateralismo do pensamento único, de modo a conciliar a lógica do materialismo com a magia do candomblé.

Resistiu, até mesmo, à tentação do Nobel, reclamando-o, antes, para Carlos Drummond de Andrade e Georges Simenon (?o Nobel é uma chatice, porque todo mundo me cobra ele como se fosse uma obrigação?).

Mas onde sua resistência brilha com mais força é na recusa que sempre sustentou aos clichês do nacionalismo e do nativismo. Jorge Amado, para quem a libido do povo brasileiro não tinha segredos, estava longe de ser um nacionalista de tanga e tacape. O perfil de Jorge Amado, nos seus gostos e preferências pessoais, nunca foi o de um nacionalista ortodoxo. Ao completar 80 anos, respondeu a uma pesquisa que se constituiu em pedra de escândalo para os que vivem proclamando que só é bom o que é nosso. Indagado sobre sua estação do ano preferida, respondeu: ?Outono, na Europa.? Bebida? ?Um bom vinho francês.? Perfume? ?Tabac.? Pintores preferidos? ?Diego Rivera, Chagall, Picasso? (nenhum brasileiro).

&EacuteEacute; verdade que Amado também gostava das ?coisas brasileiras?. Estilo musical?

?Samba.? Música? ?Saudade de Itapuã, de Dorival Caymmi.? Escritor? ?Manuel Antonio de Almeida.? Café da manhã? ?Bolo de puba, bolo de aipim e canjica?, etc.

Superando essa aparente contradição, o que não se pode negar é o entranhado amor do grande romancista pelas coisas e pessoas de sua terra – a Bahia. Com toda aquela simpatia pelas seduções estrangeiras, o outono europeu, o vinho e a comida franceses, os pintores citados, ele nunca perdeu a carranca baiana (pronunciada com a idade), a fala, a malícia e a indolência dos baianos (que não o impedia de escrever oito horas por dia). Seu coração era uma casa-da-mãe-joana, onde se acomodavam todas as contradições, e onde o prosaico andava abraçado ao lírico, o lógico ao mágico, e o tropical ao europeu. O nacionalismo de exclusão, que rejeita o que vem de fora só porque vem de fora, é um nacionalismo falso e obsoleto. Os gostos e as preferências internacionais de Jorge Amado nos ensinam que só é válido e fecundo o nacionalismo de inclusão, ou de assimilação, que transforma o que chega de fora em carne de nossa carne e sangue de nosso sangue, a exemplo do futebol, um esporte de origem britânica e de elite, assimilado e transformado entre nós no jogo nacional e popular por excelência. Não existe o ?nacional? a priori. Nacional é o estrangeiro assimilado e integrado por um povo, conforme sustento em meu livro recente, Idéia do Brasil – A Arquitetura Imperfeita.

Um alimento básico, introduzido de fora, pelos imigrantes, hoje fazendo parte de nosso cotidiano, é o pão de trigo. Jorge Amado, esse nacionalista tão pouco ortodoxo, radicado, sem cerimônia, em Salvador e em Paris, gabava o pão francês como ?uma das coisas mais perfeitas do mundo? (artigo de Napoleão Sabóia, Estado, 7/8/2001).

A entrevista mais consistente e substanciosa com Jorge Amado foi, sem dúvida, colhida por Lourenço Dantas Mota, em 1981. Eis um trecho expressivo:

?Eu me situo dentro de um mundo afro-brasileiro. Apenas ele é afro-brasileiro, não africano. Digo isso porque no momento está muito na moda ser africano? (A História Vivida, III, edição O Estado de S. Paulo).

Belo recado aos brasileiros que querem ser ?africanos?, ou ?índios?, ou ?brancos puros?, que se orgulham de descender de italianos, alemães, ingleses ou franceses. Que querem ser tudo menos brasileiros, menos mestiços, sentimento que está na raiz de nossa vergonha de ser brasileiros.

Como se ser brasileiro não inaugurasse nova maneira, fecunda e criadora, de ser homem, homem com todas as contradições próprias da condição humana.

Jorge Amado, com sua sinceridade radical, com sua fidelidade à linguagem dos sentidos e das emoções, com aquela integridade superior que desafiava todas as contradições, com sua capacidade de dizer sempre sim à vida, apresenta uma nova proposta antropológica e gnoseológica, de fundo nominalista e barroco, na qual os opostos se somam e se conciliam entre si, fundidos no fluxo generoso da vida humana, vida que se quer cada vez mais viva e mais criadora."

 

?Todo artista do século XX veio de Jorge?, copyright O Globo, 9/8/01

"Acho que todo artista do século XX veio de Jorge Amado. Trabalhar com ele foi como voltar para onde eu vim, no sentido de que trabalhei com minha origem.

Jorge foi mais que um grande escritor, foi um grande pensador e sonhador. Todo mundo falava do realismo da obra dele mas esquece que aquilo é também um projeto de Brasil. Torço muito para que um dia o país resolva plagiar a obra de Jorge Amado.

O que mais me emociona da obra dele é que ele e sua obra são militantes da felicidade e da alegria, o que fez dele o escritor mais amado do Brasil e dos mais importantes da literatura do século XX em todo o mundo. É uma das fontes da literatura moderna.

Eu o conheci ainda nos anos 60 por meio de dois amigos em comum: o Glauber Rocha e o João Ubaldo Ribeiro. A minha admiração pelo escritor, cuja obra li toda ainda criança, juntou-se ao amor pelo homem. Desde que o conheci, mantive contato permanente. Uma vez o encontrei em Paris, sempre o visitava quando ia à Bahia e ele me encontrava quando ia ao Rio.

Foi difícil fazer ?Tieta? em 1995 porque a obra dele é caudalosa. O livro tem 700 páginas, tem uma sucessão de personagens complexos. Imagina minha angústia em transformar em cem páginas de roteiro. Corri grande risco tentando meter tudo em duas horas."

    
    
              

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