Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Carlos Heitor Cony

Por lgarcia em 10/10/2001 na edição 142

EUA EM GUERRA

"O funeral da emoção na mídia moderna", copyright Folha de S. Paulo, 5/10/01

"Reclamam quando Nelson Rodrigues é citado, com ou sem motivo. Como todo mundo, sábios, ignorantes e mais ou menos, ele disse e escreveu muita besteira. Mas, quando acertava na mosca, era fulminante, letal, insubstituível. Lembro-me dele no início desta crônica -e como não fazê-lo?

Nelson sempre reclamou da falta dos pontos de exclamação nos títulos e textos dos jornais. No tempo dele, os jornais gastavam espaço e tinta com enormes pontos de exclamação, abolidos pelos copidesques e pelos manuais de redação que se seguiram.

Evidente que o problema não era a exclamação em si, mas o estupor, o pasmo, a perplexidade, a emoção que o sinal ortográfico expressava. Varrendo o sentimento mais autêntico da condição humana (a emoção pura e simples) para o lixo da história e para baixo do tapete do bom gosto, a mídia pasteurizou-se, ficou anódina (não gosto dessa palavra, mas vai lá), sem sal, chata como uma galocha aposentada no fundo de um armário.

Quando Zola escreveu seu famoso libelo a favor do capitão Dreyfus, mandou para a redação do jornal (?L?Aurore?) um texto cujo título não dizia nada: ?Carta ao M. Félix Faure, presidente da República?. O redator-chefe do jornal era Clemenceau, que mais tarde seria presidente do Conselho dos Ministros por duas vezes. Riscou o título original, trocando-o por ?J?accuse!..?, com ponto de exclamação e tudo. Zola reclamou, mas Clemenceau alegou que a carta terminava com numerosos parágrafos em que o romancista começava a frase com ?eu acuso?. O título estava ali, dado pelo próprio Zola.

Esse é o exemplo definitivo do jornal que, além de entrar na história, também faz história. Tenho para mim que foi esse o maior momento do jornalismo mundial em todos os tempos, vivido por dois gigantes.

Pulando do caso Dreyfus para o caso do World Trade Center, que está na ordem do dia, intrometo entre os dois o desastre que destruiu o dirigível Hindenburg, no dia 6 de maio de 1937, quando pousava em Nova Jersey. Era o maior aparelho voador da época, orgulho do regime nazista. Um Titanic dos ares, com fama de ser também indestrutível.

Ao chegar em Lakehurst, a multidão esperava ver a maravilha descer majestosamente e ser ancorada nas torres de amarração. Uma centelha elétrica ou um ato de sabotagem, e o formidável dirigível, na época a maior máquina construída pelo homem, incendiou-se, foi reduzido a um montão de ferro retorcido e fumegante. Túmulo de dezenas de passageiros, formou dramaticamente, com seu cadáver calcinado, um dos logotipos do século 20.

Locutores, fotógrafos e câmaras cinematográficas registraram a tragédia ao vivo. Era a primeira vez que um fato do mundo moderno ficava documentado simultaneamente pelo rádio, pelo jornal e pelo cinema, que, sem a televisão e a internet, então inexistentes, constituíam a totalidade da mídia da época.

Subproduto da tragédia que emocionou o mundo, foi o relato do locutor Herbert Morrison, que cobria a chegada do Hindenburg para a WLS de Chicago. Ele descrevia as operações de pouso, como qualquer outro locutor, mas, quando o dirigível começou a pegar fogo, com passageiros atirando-se para a morte, ele esqueceu o seu ofício, continuou descrevendo o que via, mas chorando, imprecando contra o destino, meu Deus, é inacreditável, como pode? Ele está pegando fogo, é horrível, os passageiros estão morrendo, uma tragédia -a voz esganiçada e cortada pelos soluços.

Foi um momento do jornalismo, faz parte da antologia da profissão. Até hoje o pranto de Morrison é citado quando se resenham os grandes momentos do século que passou.

Corte rápido para 11 de setembro de 2001. As duas torres do WTC são destruídas por um atentado terrorista. Plasticamente, a tragédia é bem maior do que a do Hindenburg. Politicamente, nem se fala. Maior o número de vítimas, maior a cobertura da mídia, já em escala mundial.

Não se ouviu nenhum grito de horror por parte dos jornalistas que cobriam a tragédia. Muito espanto, especulação demais, palpites desencontrados, mas nenhuma emoção especial. Se algum dos profissionais chorasse diante dos microfones abertos, fatalmente seria demitido ao final do dia por ter poluído a informação de interesse público com uma intromissão pessoal.

O jornalista de hoje tem de ser isento, não deve expor-se. Seus sentimentos pessoais não interessam a ninguém. Que ele seja esterilizado como um tubo de laboratório, neutro como um túmulo, inerme como a barata esmagada pelo chinelo dos fatos.

Daí que sempre gostei da velha piada atribuída ao locutor português que estava cobrindo, hipoteticamente, a explosão da bomba atômica em Hiroshima. Dentro do possível, ele foi narrando os fatos com a isenção profissional recomendada pelo ofício. Descreveu a bomba saindo do Enola Gay, caindo silenciosamente sobre a cidade adormecida. De repente, ao surgir o cogumelo de fogo que nascia do chão assassinado, ele usou todos os palavrões conhecidos e desconhecidos da língua em que Camões pediu esmola."

"Sites tiram do ar informações estratégicas", copyright O Globo, 5/10/01

"Várias agências civis e militares do governo americano, assim como entidades do setor privado dos Estados Unidos, começaram a suprimir informações de seus sites na internet para, literalmente, ?não entregar o mapa da mina aos bandidos?.

Esse processo de auto-censura no que diz respeito à luta contra o terrorismo vem ganhando terreno nos EUA, sobretudo em organismos que exibiam endereços e mapas de instalações militares, de fábricas de produtos químicos, imagens aéreas de prédios de agências de espionagem, e gráficos delineando oleodutos e tubulações de gás.

Informações sobre oleodutos foram bloqueadas

A preocupação dos americanos, que em alguns casos beira a paranóia, é a de que grupos terroristas poderiam utilizar tais informações para o planejamento de novos atentados.

A Agência Nacional de Imagens e Mapeamento, por exemplo, suspendeu por tempo indeterminado tanto a exibição online de determinados produtos, como também sua venda. Na lista estão mapas de bases e outras instalações militares e imagens de alta resolução, aéreas, de centenas de edifícios.

A Federação Americana de Cientistas, que até o dia 11 de setembro tinha em seu site fotos e diagramas de escritórios de agências de inteligência, também as baniu da internet. O Escritório de Segurança de Oleodutos bloqueou o acesso a quem não represente uma agência federal ou uma indústria. E a Agência de Proteção Ambiental retirou de seu portal tanto as informações sobre as fábricas de produtos químicos, quanto os planos de emergência, que poderiam ser utilizados por qualquer pessoa em caso de perigo.

Todas essas informações, no entanto, ainda podem ser encontradas em bibliotecas públicas e nas das universidades americanas:

– Apesar disso vale a pena manter esse blecaute de informação via internet. Isso pelo menos vai dar mais trabalho a quem queira cometer desatinos – disse Steven Aftergood, analista de pesquisas da Federação Americana de Cientistas.

Colégio Naval critica a auto-censura

Algumas entidades já reagiram à auto-censura. O próprio Colégio de Guerra Naval, por exemplo, definiu a medida como ?uma iniciativa fútil?.

– Se continuarmos desse jeito, acabaremos fechando a internet. Afinal, ela está repleta de informações corriqueiras que podem ser utilizadas para qualquer fim – disse William Martel, professor de segurança nacional naquele instituto militar.

A imprensa americana também vem evitando a publicação de qualquer tipo de informação que possa pôr em risco a segurança nacional."

 

"Imprensa dos EUA está na mira do Pentágono", copyright Valor Econômico, 5/10/01

"Ao longo de 30 anos como correspondente internacional de órgãos de comunicação como ?Newsweek?, ?Wall Street Journal? e CNN, Anthony Collings diz não ter conhecido um país com menos restrições à imprensa do que os Estados Unidos. No entanto, o jornalista, que acaba de lançar, ?Words of Fire – Independent Journalists who Challenge Dictators, Drug Lords and other Enemies of a Free Press? (New York University Press, US$ 28,97), adverte que a guerra contra o terrorismo certamente vai comprometer a conquistada liberdade de imprensa do país.

?Não há dúvidas de que, durante a guerra, haverá restrições extremas para a imprensa em várias áreas. No aspecto militar, as informações sobre as operações serão censuradas. Em áreas econômicas, dados serão reservadas e o acesso difícil?, disse Collings ao Valor. Ele avalia que, mesmo assim, a cobertura do conflito é positiva até o momento e que a democracia prevalecerá. ?Não haverá censura sobre as discussões sobre segurança e sobre a decisões do governo. O debate está aberto?, prossegue.

Apesar ter abondonado as redações e os campos de batalha, Collings tem se dedicado à profissão de professor de ética do jornalismo da Universidade de Michigan. Para ele, a afirmação de que as restrições à imprensa estejam garantidas nas exceções da Constituição é controversa e aponta que essa limitação de expressão surgiu após a Guerra do Vietnã.?O Pentágono culpou os jornalistas pela derrota?, observa o professor.

Em virtude de sua atuação em guerras e conflitos, Collings já recebeu vários prêmios, como o Emmy (Oscar da TV americana) e o National Headliner Award, pela cobertura da Guerra do Irã. Sua experiência e a de seus colegas em guerras, guerrilhas e conflitos é justamente o tema de seu novo livro. A obra é uma extensa reportagem sobre jornalistas que enfrentam a censura dos países de origem – ou dos territórios dos conflitos- em nome da profissão. ?O que nos motiva é chegar à história e dar a notícia?, diz. Leia a seguir trechos da entrevista que concedeu ao Valor.

Valor: O sr. escreveu que em tempos de guerra há restrições com relação à liberdade de imprensa. Qual é a avaliação da atual cobertura?

Anthony Collings: Com poucas exceções, o conjunto é positivo. Tenho assistido muito a telejornais e eles estão fazendo um bom trabalho ao nos dizer o que ocorre no Afeganistão, no Paquistão e nos países vizinhos. As televisões também analisam quais são os possíveis efeitos das decisões políticas por parte dos Estados Unidos em outros países, e quão perigoso pode ser uma retaliação.

Valor: Mas o Departamento de Estado chegou a vetar a exibição de entrevista com o ?mullah? Mohammed Omar, do movimento Taleban. O sr. não acredita que esse tipo de censura pode comprometer a visão complexa do conflito?

Collings: Foi uma ação que durou poucos dias, porque a entrevista foi levada ao ar depois. Esse é um dado realmente importante, como é relevante o governo ter voltado atrás devido à crítica recebida pela sociedade pelo veto. Considero que houve uma compreensão de que, para se ter credibilidade no mundo, não é possível censurar informações essenciais só porque elas são de alguém que eles não gostam.

Valor: Mas essa restrição não fere a Primeira Emenda da Constituição americana, que trata da liberdade de expressão?

Para jornalista, haverá censura extrema na cobertura de assuntos militares, mas abertura para a discussão de temas políticos e sociais

Collings: Essa é uma questão muito interessante. A Primeira Emenda diz que o cidadão é livre para dizer o que quiser. Há poucas exceções e uma delas é a necessidade de manter em segredo o trabalho militar americano. Em tempos de guerra, há ainda mais restrições por causa da segurança. Já houve um caso judicial, depois da Guerra no Golfo, em que um jornalista alegou que as limitações impostas pelo Pentágono eram uma violação à Primeira Emenda. A Suprema Corte, nesse caso, nunca decidiu a questão. Tudo o que disseram é que os jornalistas tinham o direito de ir à justiça contra esses atos.

Valor: O sr. acredita que essa guerra terá o mesmo nível de controle de conflitos como na Guerra do Golfo e na invasão do Panamá?

Collings: Acho que teremos menos liberdade por uma série de razões históricas. Na Segunda Guerra Mundial havia censura, mas os jornalistas americanos tinham a possibilidade de viajar pelos campos de batalha. No Vietnã, não havia censura e os jornalistas podiam ir a qualquer lugar e escrever o que quisessem – a não ser por pressões sobre alguns donos de jornal. Mesmo assim, o governo basicamente não fez nada para cercear a liberdade de imprensa. Mas depois dessa guerra, o Pentágono culpou os jornalistas pela derrota e decidiu impor censura para os conflitos futuros. Quando houve a invasão em Granada, não foi permitida a cobertura de jornalistas, o que provocou muitos protestos. Foi nesse período que o Pentágono criou um pool com poucos jornalistas credenciados para essas situações. Na incursão no Panamá, o esquema não funcionou porque o pool foi mantido longe das ações. Mas na Guerra do Golfo, eles adotaram o mesmo sistema e tudo o que os jornalistas escreviam tinha de ser lido primeiro por censor militar. Isso significa menos liberdade para a imprensa. Acho que nesse conflito, a restrição será ainda maior.

Valor: O sr. disse que, após a derrota americana na guerra do Vietnã, houve uma redução na liberdade de imprensa americana. Esse conflito pode ser um novo paradigma para a liberdade de imprensa?

Collings: Durante a guerra, o tempo que ela dure, haverá censura extrema na imprensa em várias áreas. No aspecto militar, as operações serão censuradas. Em outras áreas, como econômicas, elas também serão secretas e o acesso de jornalistas será difícil. Acho que isso faz sentido porque terroristas não devem saber o que sabemos. Por outro lado, não haverá censura para discussões a respeito de segurança e do que o governo deveria fazer para o país. Isso é uma democracia.

Valor: O escritor Gore Vidal disse que aporvação de 85% dos americanos a uma retaliação só ocorre porque a TV americana e a CIA mostraram 24 horas por dia a imagem do ataque ao World Trade Center. Qual o impacto das imagens para a posição política dos americanos?

Collings: Eu não concordo com Gore Vidal de que a CIA esteja envolvida na cobertura. O fato mais importante para os EUA é que eles foram atacados em seu próprio território. As imagens televisivas são chocantes, mas não são elas que levam os americanos a se tornar tão unidos e determinados na luta contra o terrorismo. Gore Vidal pode falar o que quiser

Valor: Que tipo de erros o sr. acha que as emissoras de TV cometeram?

Collings: Na rede de TV ABC, por exemplo, foi veiculada a notícia de que teria havido mais um ataque de aviões – que não houve – e que o governo americano não havia negado tal informação. Isso é mau jornalismo. O fato de o governo não negar não significa que aquilo seja verdade. A notícia precisa de ser checada. Com isso, queriam passar a idéia de que tinham uma informação exclusiva. Outro erro foi por parte da CNN, logo no primeiro dia. O correspondente da emissora, em Cabul, exibiu a emissão de mísseis na cidade e que aquilo já poderia ser uma ataque americano contra o Afeganistão. Não era. Era parte da guerra civil daquele país. Ele jamais poderia dizer isso, pois não tinha evidências. O correto seria ser honesto, mesmo sem impacto, e relatar o que viu sem inferir. O erro é especular.

Valor: Qual é a sua avaliação sobre o conteúdo e a forma da cobertura do conflito nos diferentes meios de comunicação?

Collings: Acho que essa é uma história televisiva. No dia do ataque, recebi um telefonema falando sobre o atentado e fui direto para a internet. Não pude usar, pois estava congestionada. Andei até outra sala e todo mundo do prédio estava lá porque a internet não funcionava. Ou seja, a rede mundial de computadores é muito importante quando não há muitas pessoas usando. Mídia imprensa é fundamental nesses casos porque tem elementos muito diferentes e aprofunda os temas. É possível sentar-se, ler o jornal, pensar a respeito e reler. Na TV, tudo é rápido. As mesmas pessoas que escrevem para os jornais, podem falar as mesmas coisas na TV, mas não tem o mesmo impacto."

    
    
                     
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