Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Carlos Reis

Por lgarcia em 26/02/2003 na edição 213

PORTUGAL

“Um Tiro Talvez Certeiro”, copyright Público (www.publico.pt), 23/02/03

“Há um pequeno passo n?Os Maias? que sempre me suscitou uma questão e lançou um desafio. O passo é esse em que Pedro da Maia, depois de ter ferido Tancredo, futuro amante de Maria Monforte, desabafa: ?Isto só a mim, Senhor! E então o Alencar, que ia mesmo ao pé dele… Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz íntimo, de confiança! Até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o de cerimónia…?

A questão é a seguinte: como seria a história d?Os Maias? se o ferido tivesse sido o Alencar? O desafio é talvez mais ousado: reescrever ?Os Maias? a partir dessa situação nova, em que uma bala perdida feriria o poeta de ?Elvira? e não o sedutor napolitano. De certa forma, a telenovela Lusitana Paixão, produzida e realizada para a RTP, a partir de um guião de Francisco Moita Flores, suscita aquela questão e lança o tal desafio. Porque, de facto, ambos se colocam, sempre que se submete um romance (e, neste caso, um grande romance) a uma diferente linguagem artística, seja a do teatro, a do cinema ou a da televisão. Só para me ficar pela obra queirosiana, lembrarei diferentes soluções já tentadas: a de Lopes Ribeiro que em 1959 filmou um ?Primo Basílio? arrastadamente fiel ao romance; a de Ferrão Katzenstein que, há cerca de vinte anos, realizou quatro episódios televisivos de adaptação d? ?Os Maias?, numa linguagem insuportavelmente pastosa e ateatrada; a de Maria Adelaide Amaral, que reescreveu o romance para uma série da Globo, traduzida num registo de grande sofisticação artística, mas com discutíveis desvios à acção do romance (ainda não pudemos ver estes ?Maias? por cá, por razões desconhecidas – ou talvez demasiado conhecidas…).

No caso de Moita Flores – que é talvez o nosso melhor escritor de argumentos para ficção televisiva – a opção assumida nesta Lusitana Paixão, constitui um risco calculado, que comento em função do compacto que pude ver. Moita Flores traz a acção para a actualidade, retoca nomes e características de personagens, introduz outras que no romance não existem e procura fazer um trabalho de ?actualização? que merece ser apreciado: em vez da analogia (das acções, das personagens, etc.), procura a ?homologia?, ou seja, a correspondência funcional de situações e de atitudes, num cenário e numa época em que os grandes temas d?Os Maias? ainda fazem sentido, como acontece com as obras artísticas realmente transcendentes. Junte-se a isto um ritmo narrativo vivo, um ?casting? interessante e uma direcção de actores dinâmica e teremos razões para pensar que talvez os tiros desviados venham a fazer ricochete, para acertarem nos alvos que interessam: os clássicos revistos com a actualidade que eles podem ter..”

“Nova NTV ainda não é certa”, copyright Público (www.publico.pt), 23/02/03

“A criação de um novo canal no cabo dedicado à região do Porto está bem encaminhada, mas ainda não está garantida. Quem o diz é Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto e principal dinamizador da ideia, o qual ontem, em declarações ao PÚBLICO, negou que a estação vá ser apresentada já esta semana. Depois do falhanço do ?canal com pronúncia do Norte? (que vai ser transformado na RTP Regiões), os potenciais investidores no novo projecto parecem, assim, apostados em caminhar devagar e com passos seguros, de modo a não dar origem a um novo ?flop?. ?Não se pode falhar outra vez?, disse Rui Moreira.

O principal rosto do renascimento da ideia de fazer uma televisão para o Norte esclareceu que, ao contrário daquilo que anteontem fora garantido por um responsável da produtora Filbox, a nova estação não tem assegurado nenhum tipo de financiamento bancário. O que está em curso é um estudo económico que, segundo Rui Moreira, abre ?boas perspectivas?. Todavia, o projecto passa por encontrar capital privado disponível para subscrever os 7,5 milhões de euros do capital inicial da empresa – reservando uma pequena participação para a ACP e para a Universidade do Porto -, assegurando à partida um pacote publicitário que garanta o funcionamento do canal durante os dois primeiros anos.

Antes de avançar com o projecto, Rui Moreira diz que pretende reunir com o ministro da Presidência, Morais Sarmento, no sentido de obter garantias de neutralidade por parte do governo. E embora coloque de parte o interesse na compra da actual NTV, o empresário confirma que o novo canal do Norte está interessado em adquirir o nome e o arquivo de imagem da actual estação portuense. ?Só com garantia de total credibilidade podemos apresentar o projecto a investidores e conseguir publicidade?, disse Rui Moreira ao PÚBLICO, confirmando que alguns dos potenciais interessados já sondados se mostraram muito interessados.

O presidente da ACP acrescentou ainda que os números já estudados apontam para custos anuais na ordem dos seis milhões de euros, ressalvando ainda que só admite promover este projecto se estiver salvaguardada uma informação independente.”

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“Sociedade Civil Tem Vários Meios de Participar na Televisão”, copyright Público (www.publico.pt), 21/02/03

“Mandar críticas e sugestões, criar associações, recorrer à regulação e analisar na escola são formas de participação social na TV, defendeu investigador no debate ?Falar Televisão?

As formas de participação da ?sociedade civil? na televisão não se limitam à produção de programas nem à eventual gestão, por meio de um ?representante?, de um canal de TV.

O investigador de ?media? da Universidade do Minho Manuel Pinto aponta outras maneiras de os cidadãos tomarem parte no processo, sem ter de se acabar numa ?guetização de certas vozes num certo canal? – disse, aludindo ao projecto de transformar a RTP2 num canal para a ?sociedade civil?, no debate ?Televisão, Estado e Sociedade Civil?, o 10? do ciclo Falar Televisão, organizado em Lisboa pelo Centro de Investigação Media e Jornalismo, sob coordenação de José Carlos Abrantes.

Para Manuel Pinto, ?a qualidade de um serviço público afirma-se não apenas pelos conteúdos que difunde, mas igualmente pelos processos de participação sócio-cultural que promove e valoriza?. Entre esses modos de participação estão a comunicação de opiniões, críticas e sugestões aos operadores; a constituição de associações de espectadores; as instâncias de regulação; o desenvolvimento da educação para os ?media? nas escolas.

O problema é que essa participação tem sido limitada à partida. Por exemplo, quanto ao debate recente sobre serviço público de TV ?foram os actores habituais que tomaram a palavra?. Talvez por isso, ?o debate teve dificuldade em sair da bipolaridade entre Estado e mercado?, de certo modo ignorando a dimensão sociedade. O que daqui resulta é que não se arranca para a construção de um serviço que não é só público, ou com público, ou feito a pensar nele, mas concebido a partir do público e com ele.

Por outro lado, Manuel Pinto exortou – tal como José Jorge Barreiros, investigador do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, outro dos oradores – os operadores, em particular o operador público, a criarem um ?serviço eficiente de auscultação das críticas, por exemplo um provedor do telespectador, e um convite permanente à manifestação de ideias?. O professor do Minho considera mesmo que essa auscultação atenta deveria ter já acontecido ?na fase de definição de opções? para o serviço público.

José Jorge Barreiros, por seu turno, acredita que, ?mais do que nunca, é necessário algo diferente do que oferecem as TV comerciais, mas o serviço público tem de ser reinventado?. ?É preciso saber o que mudou socialmente e em que dimensões queremos intervir?, advertiu o investigador, para quem ?pensar o serviço público é pensá-lo para uma realidade concreta?. E propõe um modelo de serviço público de TV ?claro nos objectivos mas flexível?. ?É preciso incorporar institucionalmente a capacidade de adaptação ao contexto?, acrescentou.”

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