Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & REFORMAS

Carlos Vogt

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

ARTE & CIÊNCIA

“A espiral da cultura científica?, copyright Folha de S.Paulo, 24/7/03

“Embora existam distinções teóricas e metodológicas fundamentais entre arte e ciência, há entre elas algo poderosamente comum. Trata-se da finalidade da criação e da geração de conhecimento por meio da formulação de conceitos abstratos e, ao mesmo tempo, por paradoxal que pareça, tangíveis e concretos. Na ciência essas características resultam da demonstração lógica e da experiência e, na arte, da metáfora e da vivência.

Por isso, a expressão cultura científica parece mais adequada que várias outras já utilizadas em tentativas de explicar o amplo e cada vez mais difundido fenômeno da divulgação científica e da inserção dos temas da ciência e da tecnologia no dia-a-dia de nossa sociedade.

Melhor do que alfabetização científica (?scientific literacy?), popularização/ vulgarização da ciência (?vulgarisation?, ?haute vulgarisation de la science?) ou percepção/compreensão pública da ciência (?public understanding?/ ?awareness of science?), a expressão cultura científica tem a vantagem de englobar tudo isso e ainda conter a idéia de que o processo que envolve o desenvolvimento científico é um processo cultural, seja ele considerado do ponto de vista de sua produção, de sua difusão entre pares ou na dinâmica social do ensino e da educação, seja de sua divulgação na sociedade, para o estabelecimento das relações críticas necessárias entre o cidadão e os valores culturais de seu tempo e de sua história.

Mudanças nos paradigmas científicos trouxeram consequências importantes para a cultura dos que fazem ciência, dos que ensinam a fazer ciência e dos que buscam saber como e para quê fazê-la. Essas mudanças marcam, no plano geral dos valores que caracterizam as sociedades, a dinâmica do processo cultural da ciência e da tecnologia, conhecido como cultura científica e tecnológica. Como medir, avaliar e interpretar esse processo? Há um volume significativo de indicadores, questionários sobre percepção pública da ciência, estatísticas sobre os números de visitantes de museus voltados à ciência, estudos sobre sua ocorrência na mídia e, sobretudo, uma enorme vontade de definição desse processo, que a expressão cultura científica procura recortar.

A dinâmica da chamada cultura científica poderia ser mais bem compreendida se fosse visualizada como uma espiral, a espiral da cultura científica. A idéia proposta aqui é representá-la em duas dimensões, evoluindo sobre dois eixos, um horizontal, que representaria a evolução do conhecimento no tempo, e um vertical, que apontaria, numa dimensão espacial, o acúmulo do conhecimento de forma paradigmática. Nessa espiral seria possível estabelecer não apenas as categorias que a constituem, mas também os atores principais de cada um dos quadrantes que seu movimento vai graficamente desenhando e, conceitualmente, definindo.

A partir da produção e da circulação do conhecimento científico entre cientistas, a espiral evolui para o segundo quadrante, o do ensino da ciência e da formação de cientistas; continua, então, para o terceiro quadrante, em que se amplia no ensino para a ciência; e completa o ciclo, no quarto quadrante, para identificar aí a divulgação científica.

Em cada quadrante estão os elementos que contribuem para que melhor se entenda a dinâmica do processo da cultura científica. No primeiro, os próprios cientistas são emissores e destinatários da ciência; no segundo, cientistas e professores dirigem-se a estudantes; no terceiro, cientistas, professores, diretores de museus e animadores culturais da ciência destinam conteúdos científicos a estudantes e a um amplo público jovem; no quarto quadrante, jornalistas e cientistas seriam os emissores -e, aqui, os destinatários seriam constituídos pela sociedade em geral e, mais especificamente, pela sociedade organizada em suas diferentes instituições, principalmente as da sociedade civil, o que tornaria o cidadão o destinatário principal dessa interlocução da cultura científica.

Ao mesmo tempo, outros atores aparecem nos quadrantes. Universidades, centros de pesquisa, órgãos governamentais, agências de fomento, congressos e revistas científicas estão no primeiro; no segundo, acumulando funções, outra vez as universidades, o sistema de ensino fundamental e médio e o sistema de pós-graduação; no terceiro, os museus e as feiras de ciência; e, no quarto, as revistas de divulgação científica, as páginas dos jornais voltadas ao tema, os programas de TV etc.

Importa observar que, nessa forma de representação, a espiral da cultura científica, ao cumprir o ciclo de sua evolução, retornando ao eixo de partida, não regressa, contudo, ao mesmo ponto de início, mas a um ponto alargado de conhecimento e de participação da cidadania no processo dinâmico da ciência e de suas relações com a sociedade, abrindo um novo ciclo de enriquecimento e de participação ativa dos atores, desde que não haja descontinuidade no processo de sua evolução.

Como resultado do movimento que a espiral da cultura representa, nascem instituições voltadas para as questões de ciência e tecnologia com fortes componentes de participação da cidadania, como é o caso, no Brasil, da CTNBio e de suas atribuições regulativas no que diz respeito à biodiversidade. O que, enfim, a espiral da cultura científica pretende representar é a dinâmica constitutiva das relações inerentes e necessárias entre ciência e cultura. [Carlos Vogt, 60, poeta e linguista, é vice-presidente da SBPC e presidente da Fapesp. Foi reitor da Unicamp (1990-94).]”

MÍDIA & REFORMAS

“Previdência: o avanço do recuo”, Cartas Ácidas, copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br), 20/7/03

“O movimento de negociação, como tudo na pauta conservadora da maioria da mídia, precisa ser enquadrado num rótulo folhetinesco. E criou-se o rótulo, como em capítulo de novela ou seriado: ?o recuo?.

Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel, serrana e bela.

Mas não servia ao pai, servia a ela,

E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia

Passava, contentando-se com vê-la;

Porém o pai, usando de cautela,

Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos

Lhe fora negada assim sua pastora,

Como se não a tivera merecida,

Começa a servir outros sete anos,

Dizendo – Mais servira, se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida!

Ressalvadas a distância e a beleza, esta glosa de Camões sobre o caso bíblico do pastor Jacó, enganado em suas esperanças, serve para descrever a situação do funcionário público em serviço, diante não desta, mas das reformas da previdência em curso, e que não pararão por aqui, ao que parece.

À luz de um determinado tipo de contrato, determinam-se regras e expectativas. Mas ao fim e ao cabo, diz uma a outra das partes contratantes: ?sinto muito, o seu horizonte, que estava aqui a tantos metros, agora foi para lá, a bem mais metros de distância. E tem mais, a culpa é sua, seu privilegiado, devorador de impostos?. Diz? Não é bem assim.

No presente caso, o governo, para justificar sua posição, comprou inicialmente uma retórica utilizada há anos pela mídia conservadora, à luz da agenda neoliberal. Qual seja, a de que suprimir, sem qualquer outra compensação, direitos de trabalhadores, diante da miséria geral, é fazer ?justiça social?. Não dá na verdade para dizer que o governo tenha comprado essa retórica. Talvez o que se possa dizer de modo mais consistente é que ele foi engolido por ela, e agora se debate nas suas entranhas. Esperemos que consiga sair.

Na semana que passou pode-se considerar que de fato o processo de reforma da previdência entrou em negociação. Como não poderia deixar de ser, essa negociação é complexa, envolvendo partes, interesses, partidos políticos, governadores, o modelamento futuro do aparelho de estado, e a prestação de contas em relação às obrigações do passado e do presente. Imaginar que tal negociação seria algo simples é demonstração de ingenuidade, que ela é descartável seria confissão de irresponsabilidade política. Mas o fato – e seja bem-vindo – é que ela começou, seja aos tropeços, aos arrancos, aos escorregões, às idas e vindas, mas enfim começou.

Mas como tudo na pauta conservadora da maioria da nossa mídia, esse movimento de negociação precisa ser enquadrado num rótulo folhetinesco. E criou-se o rótulo, como em capítulo de novela ou série de filmes: ?o recuo?. Negociar, para essa pauta, é recuar, a não ser, é claro, que fosse negociar com as fontes creditadas como tendo autorização para propor e ditar políticas para o espaço público: FMI, Banco Mundial, e outras agências de legitimação de propostas.

Tão vazia é a idéia deste ?recuo?, enquanto tradução de um percurso de negociação, que durante a semana ficou difícil determinar para onde o governo teria ?recuado?: se para frente, se para trás, se para o lado, se à direita, à esquerda. O que está havendo é um processo de ajuste, ainda que mínimo, da proposta a realidades da vida política e social da nação. Caracterizar como ?recuo? significa que o acordo a que se chegar será visto, pela pauta e pela retórica conservadoras, apenas como um estágio na direção do objetivo desejado, que é a desregulamentação da estabilidade de acordos de trabalho, associada, no caso, ao escancaramento (porque aberto já está) do setor previdenciário ao interesse privado.

Significativamente declarações de lideranças do PFL Estadão desta sexta-feira (18/07) sinalizam claramente nessa direção. O ?recuo? descaracterizou a reforma; ela agora é uma ?mini-reforma?, desossada da original; logo será necessário fazer outra (como já fora feita uma em 98). É claro que tal tipo de declaração tem por horizonte a futura eleição em 2006. Ou seja, esta reforma tornou-se um mero prefácio de outra, que virá. Ainda que de modo cauteloso, o Secretário da Previdência Social, em entrevista ao Bom Dia Brasil nesta sexta-feira, fixou a diretriz de que ?em dez anos? talvez seja necessário estabelecer outra reforma. Dez anos, ou dois, do ponto de vista conceitual, tanto faz: o que se está balizando é que os contratos sociais são mutantes, não de acordo com as necessidades sociais, mas de acordo com as necessidades de Estado, que, na pauta neoliberal, são de primordialmente de caixa e de se manter a disponibilidade para lastrear a ciranda financeira e os ganhos de capital. A mesma racionalidade que considera normal por em suspensão expectativas de direito que envolvem vidas inteiras e projetos individuais e familiares, além de condicionar o desenho do Estado às necessidades contábeis momentâneas, se insurge insultada quando o assunto é rever aumentos de tarifas de serviços públicos, porque isso ?põe em dúvida a credibilidade dos contratos?.

É claro que está na ótica do governo um certo redesenho das obrigações sociais do estado junto com um realinhamento do mundo das organizações do trabalho. Ao ajuste previdenciário se soma o crescimento dos fundos de pensão abertos aos sindicatos, o que possibilitaria, na reforma trabalhista, o fim da contribuição compulsória firmada na CLT. Mas isto pode tratar-se simplesmente de um modelo de extração social-democrata europeu aplicado num momento de dominação imperial e financeira exacerbada. Assim como o governo se viu na verdade e logo de início ?enquadrado? pela retórica neoliberal neste episódio da reforma previdenciária, seu modelo acalentado pode tornar-se também apenas a ponta de lança de um avanço da privatização completa do setor, uma vez que as mesmas forças conservadoras que negaceiam seu apoio em votos e em declarações na mídia, tomarão este passo como apenas um estágio na direção de seus objetivos maiores. E quanto à CLT, se o caminho for o mesmo, a sua desregulamentação será apenas o prelúdio da desregulamentação completa das relações de trabalho.

Como o processo de negociação se abriu, o governo pode ainda recuperar a iniciativa no campo das definições conceituais e políticas, sobretudo se conseguir livrar-se da carga dessa expressão: ?recuo?. E conseguir convencer-se e convencer os demais agentes que o que agora acontece é o que se exige numa democracia: negociação, ainda que tardia, como assinalava uma certa bandeira dois séculos e pico atrás.

Comecei com Camões, termino com ele, no poema em que descreve sua angústia perante tempos em que coisas inusitadas acontecem:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

do bem, se algum houve, as saudades.

Tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.

(Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior)”

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