Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ESPERANÇA

Carol Knoploch

Por lgarcia em 31/07/2002 na edição 183

DIREITO DE IMAGEM

“O pecado de cobiçar as imagens do próximo”, copyright O Estado de S. Paulo, 28/7/02

“No quesito de uso exclusivo de imagem, a Rede Globo não é tão severa como fazem crer seus funcionários. Muitas vezes, são suas estrelas que se valem de pretextos jurídicos, atribuídos à emissora, para não dar entrevistas em programas de canais concorrentes. Em outras situações, é claro, há vetos para evitar derrota na audiência. Atores e jornalistas de vídeo t&ecirecirc;m com a Globo contratos de cessão exclusiva de direito de imagem – ?esse é o nosso patrimônio?, afirma Luís Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicações. Assim, todos seguem regras, que, segundo ele, são maleáveis. ?Usamos o bom senso.?

Para participar de programas em outros canais, é preciso autorização prévia. Não há proibição para falar com os concorrentes, principalmente quando são abordados em eventos, em festas, na rua… Normalmente, o bate-papo não excede 3 minutos. Atores que estão em cartaz no teatro têm facilidade para divulgar seu trabalho em outras emissoras – assim como Sandy e Júnior, a cada novo CD.

Erlanger observa que ?ninguém é bobo? e que vários repórteres alegam que estão fazendo matérias jornalísticas, mas na verdade, querem aproveitar um gancho da novela ou da vida pessoal dos artistas. ?Muitos pedem para que a gente vete a participação em determinados programas porque eles não querem dizer que não têm vontade de ir?, observa o diretor, que assegura não existir boicote em relação a alguns concorrentes.

Diretores do SBT, no entanto, afirmam que os globais que estão no ar (principalmente em novelas), não costumam ser liberados para participarem de suas atrações. Até porque a Globo não quer ser ameaçada no ibope por seus próprios artistas – como ocorreu uma vez em que Jô Soares, ainda no SBT, entrevistou Roberto Carlos, que tem exclusividade com a Globo.

Em um mesmo evento, o São Paulo Fashion Week, a RedeTV! mostrou fato curioso. Nívea Maria conversou com a reportagem do TV Fama, mas Carolina Dieckman disse que é proibida de falar com outro canal. Zeca Camargo, também abordado pela RedeTV!, teve o mesmo discurso. Os três são contratados da Globo, a emissora que tem o maior e mais variado casting da TV brasileira, e, por isso, alvo das mais diferentes polêmicas sobre o assunto.

O empresário de Carolina Dieckman, Márcio Damaceno, afirma que a atriz evita falar com repórteres de TV após ter recebido ?conselho da direção da Globo?.

Explica que na época de Laços de Família, quando Carolina interpretava Camila, ela deu entrevista para um jornalista que se identificou como alguém da TV Cultura. ?Não tinha logotipo no microfone e mesmo assim a Carolina falou numa boa. Quando foi ver, sua entrevista, que durou uns 3 minutos (tempo aceitável pela Globo), transformou-se em 15 minutos no Domingo Legal, de Gugu Liberato (SBT), de tantas vezes que reprisou a cena.? Segundo Márcio, Carolina recebeu notificação por escrito da direção da emissora.

?Nunca fui chamada a atenção?, declarou Nívea Maria, que diz pedir autorização apenas para participar de atrações em canais concorrentes. ?Na rua, quando sou abordada, posso falar com quem eu quiser. É a Nívea Maria que está dando sua opinião e não o personagem, a Edna (O Clone), por exemplo. Nesses casos não acho que preciso de aval da Globo. Seria demais.?

A atriz, no entanto, diz que já viu outros globais fugirem das câmeras concorrentes. ?Não sei o motivo. Acho que ficam com medo de retaliações, afinal, não está sobrando emprego. Mas a Globo não é tão carrasca assim.?

Erlanger explica que jornalistas não podem, em hipótese alguma, conceder entrevista sem autorização – diferente dos artistas. ?É exclusivo da Globo, como um repórter de veículo impresso que não pode escrever em outro jornal sem ser autorizado.? Ainda assim, afirma que muitos são liberados, como é o caso de Fátima Bernardes, que, após a cobertura da Copa do Mundo, tem recebido vários convites para entrevistas – mas só compareceu ao Observatório da Imprensa, na TV Cultura, considerado território neutro.

Peregrinação – Para o repórter e produtor do TV Fama, Marcelo Zanini, a maioria dos atores (incluindo os não globais) tem medo de punições. ?Uns dizem que por contrato não podem falar nada, mas não é bem assim. Conversam quando e com quem lhes convém.? Os diversos ?foras? que já recebeu – a lista é grande – transformam-se em matérias, aliás, as preferidas pela direção do programa. Seu sonho é entrevistar o Silvio Santos, e por isso já fez plantão na porta do cabeleireiro Jassa, ponto onde o dono do SBT bate cartão. ?Gostamos de mostrar o quanto é difícil conversar com os famosos. E o público adora ver essa peregrinação.?

A tática, em eventos e festas, é chegar com a câmera ligada – ?alguns ficam sem graça de falar que não podem dar entrevista, pega mal para o público? – e deixar as perguntas picantes para o fim. ?Normalmente, são as que interessam e que vão ao ar.?”

***

“Veto às avessas”, copyright O Estado de S. Paulo, 28/7/02

“A Globo não confirma, mas comenta-se que os calouros revelados por Raul Gil, na Record, para a indústria fonográfica, são proibidos de aparecer em atrações do canal – o programa da Record incomodava a Globo porque vencia com freqüência o Caldeirão do Huck aos sábados. Raul Gil Jr., diretor do programa do pai, questiona o fato de Robinson Monteiro, calouro de grande expressão da atração, nunca ter participado de atrações do concorrente – Maíra Lemos ficou pouco tempo no ar no Programa Raul Gil e hoje está no Fama Bis.

Enumera as conquistas do cantor gospel para justificar sua desconfiança: conquistou disco de platina dupla (500 mil cópias) em apenas seis meses, chegou a vender 45 mil CDs por dia, logo que foi lançado, em outubro de 2001 – agora chega a 800 mil -, lotou show no Credicard Hall, em março, era o recordista de cartas (90%) e e-mails (12 mil por dia) que chegavam à produção. ?A única aparição de Robinson na Globo foi quando um trecho do seu videoclipe foi exibido no Planeta Xuxa. A Marlene Mattos foi quem ?peitou? a direção da Globo?, declara Raulzinho, que revela que a vencedora do Fama, Vanessa Jackson, era backing vocal de Robinson. ?Ou seja, ele não é qualquer um.?

?Acho que o problema nesse caso não é boicote e sim falta de interesse de levá-lo aos programas da casa?, responde Erlanger, que admite, no entanto, um único veto: aos participantes da Casa dos Artistas 1 (SBT). Supla foi vetado para a nova novela das 7, O Beijo do Vampiro, de Antonio Calmon.

?Combinamos que esses profissionais não colocariam os pés na Globo tão cedo.

Contribuíram com um programa pirateado.?

O diretor lembra também de um único convidado ter recusado convite para aparecer na Globo: Silvio Santos. Em 2000, quando a emissora produziu alguns especiais temáticos sobre os 50 anos da televisão, contou com a presença inédita de Gugu, Raul Gil e Hebe. Mas não conseguiu seduzir o homem do baú, que involuntariamente deu à rede dos Marinhos grande audiência em duas ocasiões posteriores, em 2001: a primeira, como homenageado da escola de samba Tradição no carnaval carioca, transmitido com exclusividade pela Globo, e a segunda, em razão dos seqüestros de sua filha, Patrícia, e, seu.”

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“Emissoras tentam evitar abuso no uso de imagens”, copyright O Estado de S. Paulo, 28/7/02

“O controle em relação aos famosos é possível. O problema é evitar abuso no uso de imagens. A Globo, que tinha exclusividade na transmissão da Copa do Mundo, contratou o serviço de clipagem da Looking para certificar-se de que as outras emissoras não utilizavam indevidamente cenas do Mundial do Japão e Coréia do Sul. De acordo com Luiz Antônio Adinol, da Looking, nenhum canal extrapolou os 2 minutos já editados que a Globo fornecia por partida para todos os concorrentes – a cobertura dos demais canais resumiu-se aos telejornais e programas de debate. ?Todos honraram o compromisso do tempo e mantiveram o logo da Globo no canto na tela.?

Nem sempre isso acontece. Com o sucesso da Casa dos Artistas1, o SBT teve reproduzidas várias cenas de seu reality show em atrações concorrentes, principalmente às da tarde, repletas de fofocas. Segundo a direção, o SBT liberou as imagens e não processou nenhuma emissora pelos excessos.

Agora, a onda para mascarar a ?clonagem? é o uso de imagens congeladas, que não mostram a seqüência da cena que foi ao ar na emissora de origem. A Globo tem processos em andamento, mas não confirma quantos nem quais são. Erlanger cita o retorno da apresentadora Ana Maria Braga, após tratamento de câncer, como um dos casos de plágio. A RedeTV! mostrou, na íntegra, o Mais Você em uma de suas atrações. ?Isso é abuso. É importante reagir contra esse tipo de postura porque atinge não só a empresa, mas os maquiadores do programa clonado, os câmeras, as produtoras…?, avalia. ?Tem emissoras que sobrevivem reproduzindo a Globo. E essa história de que ajudam a alavancar o nosso ibope é ridícula. Basta ver os números para saber quem alavanca quem.?

O Big Brother e a novela O Clone são os exemplos mais recentes de excesso de reproduções indevidas. Até Falando Francamente, do SBT, pegou carona no reality show – Sônia Abrão diz ter liberdade para falar de qualquer outra emissora, já que seu programa é ?jornalístico e sobre televisão?. Nessa última semana, com o mote do final da atração global, vários programas de fofocas exibiram imagens do confinamento e matérias com parentes e amigos dos participantes. A Casa é Sua (RedeTV!) teve edição especial só sobre esse tema.

Acústico MTV – Um dos casos famosos de briga por direito de imagem envolveu a Globo e a MTV. Roberto Carlos e a Sony, gravadora do cantor, procuraram a MTV para gravar um CD acústico. A emissora topou na hora, mesmo sabendo que dificilmente conseguiria veicular a gravação na TV – não houve acordo com a Globo. O DVD, com as imagens inéditas, está à venda. Desde esse episódio, comenta-se que a Globo tem dificultado a liberação de artistas para participarem de programas na MTV.

?A Globo ficou com ciúme porque ele nos procurou?, declara Zico Goes, diretor de programação da MTV. ?Fomos barrados no estúdio deles?, rebate Erlanger, que continua: ?A idéia inicial era que cada emissora captasse suas imagens do mesmo show e que cada uma editasse à sua forma. Os programas não ficariam iguais porque nossas propostas são diferentes.?

Zico diz que agora evita pedir autorização para ter astros da Globo em seu canal. Afirma que eles não têm critério para a liberação de seus funcionários e lamenta nunca ter tido Cid Moreira na MTV.

Até hoje não entendeu a recusa da Globo em ceder Zeca Camargo para participar da festa do Video Music Brasil, em 2000, quando a MTV comemorou 10 anos. Cris Couto e Maria Paula puderam ir. ?Atores globais não fazem tanta diferença assim. Há mundo além deles e procuramos chamar os mais variados tipos de pessoas.?

Foi no mesmo VMB, aliás, que Reynaldo Gianecchini topou beijar Marília Gabriela, em época de fofocas sobre separação do casal. ?O Gianecchini já foi nosso sonho de consumo?, diz Zico.

Agora, o desejo maior é ter Vera Fischer e Bussunda em alguma atração da casa – a turma do Casseta & Planeta Urgente! já participou da programação da MTV, mas Bussunda, não.

É do diretor-geral, André Mantovani, a palavra final para liberar um VJ para participar de programas de outras emissoras. Assim como a maioria dos canais, é necessário autorização da casa. Dificilmente são negadas. Seguem alguns critérios básicos, como por exemplo, não deixar que um VJ vá em programas que passam no mesmo horário de sua atração na MTV. Ou quando vão estrear atração nova – para concentrar a atenção no próprio canal.

?O principal é não deixar o VJ pagar mico em outro lugar.?, disse Zico, que nunca teve problema com seus astros – até porque, com um time de estrela pequeno, não tem pedidos de entrevista com tanta freqüência. ?Eles são responsáveis e têm liberdade. Não precisamos falar o que devem ou não fazer ou dizer.?”

 

ESPERANÇA

“É a última que morre”, copyright Carta Capital, 24/7/02

“Esperança é auto-explicativo. Seja como for, convém não perdê-la. É como ver Nizan Guanaes escolher para a candidatura presidencial à qual ele presta serviço o lema: Fé. É preciso ter. Alguma coisa ainda há de acontecer, na ficção ou na realidade. Alguma coisa.

Auto-explicativo é também Benedito Ruy Barbosa. Ele escreve e reescreve a mesma história. Ainda que salpique um portuga de boa-fé aqui, uma espanhola caliente ali, um caboclinho sestroso acolá, será sempre a saga dos carcamanos expansivos, musicais e insubmissos, gente de pele tostada e alma vincada, repetindo-se na labuta do campo, na precariedade dos banhos, no descontrole da testosterona – homens e mulheres derrubando-se em cio animal sobre o paiol dos amores, o qual, no entanto, em seu kitsch cenográfico, acaba lembrando Jennifer Jones, em calça rancheira, num galpão do Nebraska.

A arte não rejeita a repetição. Cézanne passou a vida pintando as mesmas maçãs. Os personagens de Balzac são tão recorrentes que se imiscuem, de repente, nas histórias uns dos outros. Nelson Rodrigues era, em seu teatro e nas crônicas, um obcecado do clichê. A própria televisão teve em Dias Gomes seu plantonista do folhetim, em enredo tão esperado que nem precisava avisar e Lima Duarte já tomava o rumo do Projac para retomar o chapéu de seu personagem abaianado e esporrento.

É arte, cáspita! Ou pode a vir a ser. O déjà vu dessa terra nostra, paese lontano às vezes benedetto e às vezes maledetto, território de fantasia para quem veio fare l?Ammerica, é como o angu no fogãatilde;o de lenha. Dependendo da receita da nonna e da mão do cuoco, dá numa polenta épica, assim como pode virar maçaroca insossa. Por ora, a Esperança não morreu – ela nem nasceu.

Enquanto os pobres-diabos dos meridionale lavoram na roça, os ossos do Barão chacoalham com a crise do café e perdem a imunidade senhorial à medida que a terra roxa da elite encolhe à pressão dos sitiantes que falam, na versão novelesca, a língua inverídica do Juó Bananére.

Como ninguém se exprime naquele patuá arrevesado, o efeito é desconcertante. É como se Raul Cortez, ou Paulo Goulart, ou Othon Bastos estivessem dublando respectivamente Raul Cortez, Paulo Goulart e Otton Bastos. Maldade com atores que podiam estar fazendo Shakespeare, no original, em Stratford-upon-Avon. Fazer italiano de novela é mil vezes mais arriscado, amico mio.

(Se não fosse pedir muito, depois daquela canseira de embriões, bancos de esperma e DNAs, no contorcionista O Clone, talvez ajudasse a recrutar com urgência o Juca de Oliveira, que sai de um Otello para um Pirandello como quem troca de camisa.)

Já que, antes da tarantela, bailou-se a dança do ventre, é de se supor que a expertise da Globo e do roteirista proponha daqui para a frente uma ou outra surpresa, que vá além do clipe do cafezal no crepúsculo, da trilha por demais ilustrativa, da cenografia de opereta, da correria da criançada, do didatismo pseudopoliglota, das interpretações inspiradas no teatro kabuki (maldade com a Ana Paula Arosio, o peito arfando de felicidade, prenúncio óbvio da catástrofe que virá).

Em meio a tanta pobreza virtuosa, já se delineou, em contornos voluptuosos de seios e ancas por ora contidos nos limites de um luto negro e dos espartilhos pudicos, a revigorante presença do mal. É bem-vindo à trama o furacão personificado por Lúcia Veríssimo – enfim, um sopro de vida com bafo de morte (embora o afã da carne já esteja palpitando nela, em lubricidade contida, de forma a, se impossível for derreter-lhe o coração, pelo menos adocicar sua vileza).

Irônico notar que essa Sra. Francesca hierática e implacável, destinada a ser a viúva emblemática do marido de barba e polainas e também de todo um universo moribundo de brasões e punhos de renda, é quem consegue romper os grilhões da narrativa banal e caricata. Eis, enfim, um personagem que fica de pé, no tête-à-tête áspero dos jantares em família tanto quanto nos longos planos das cavalgadas categóricas pela fazenda.

Lúcia/Francesca é soberba e insensível, como soem ser os genuínos quatrocentões desde quando catalogados no índex oitocentista do historiador Pedro Taques de Toledo. Antes, torciam o nariz para os ?italianinhos fedorentos?, agora, espectrais, no chá no Harmonia, com sotaque que já denuncia a mescla relutante, adorariam despachar para a terra de origem os nordestinos miserentos.

Sorte que essa gente com quatro séculos nas costas, intrinsecamente mesquinha como a viúva negra da novela, não tenha a manha do poder e dance um minueto incompatível com o rap da história. Senão, talvez ainda houvesse pelourinho na Praça da Sé, non è vero?”

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