Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Carol Knoploch

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

BIG BROTHER BRASIL

"Big brothers da vida real", copyright O Estado de S. Paulo, 3/02/02

"Bisbilhotam pelo olho mágico da porta ao ouvir burburinhos no corredor. Vigiam o vizinho pela janela, com ou sem binóculo. Não desviam a atenção de cenas picantes, ousadas, inesperadas, envolvendo pessoas na rua, estacionamento, trabalho… em qualquer lugar. A mania de observar tem variáveis. Começa num simples detalhe a ser notado e pode chegar à patologia. ?Todo mundo, sem exceção, é um pouco voyeur?, garante o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg.

Não é preciso ter parafernália de voyeur para comportar-se como tal. Basta ser curioso. E esse fato tem sido o principal aliado dos reality shows, sucesso na televisão do mundo inteiro que, há alguns meses, chegou ao Brasil. Primeiro com a Casa dos Artistas, que tinha um buraco da fechadura como símbolo – recorde de audiência na história do SBT. E agora, com o Big Brother, da Rede Globo.

O programa teve início avassalador. De acordo com o Ibope, na estréia, alcançou 49 pontos de média de audiência (cada ponto representa 44 mil domicílios na Grande São Paulo). No dia seguinte, registrou 53 pontos de média e, na quinta-feira, 51 pontos na primeira parte (das 21h34 às 21h40) e 32 pontos de média após o jogo de futebol do Brasil contra a Bolívia (das 23h54 até 0h06). A atração traz slogans como ?para quem gosta de olhar?, ?entre e olhe à vontade? e ?nada vai escapar dos seus olhos?.

O voyeurismo é tema clássico do cinema – o próprio espectador é um pouco voyeur. Inspirou filmes como Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, e Invasão de Privacidade, de Phillip Noyce. O psicólogo Goldberg acha convidativas a sala escura, sem ruídos, e a tela grande. Ajudam o público a se desligar dos problemas diários enquanto observa a vida alheia, mesmo de um personagem. ?Isso é tão voyeur quanto acompanhar as fofocas de um ídolo na revista Caras ou ter um binóculo para ver a vizinha trocar de roupa.?

Jefferson Santos, de 30 anos, comprou a primeira luneta aos 12, com a mesada e a venda de um relógio de joguinho. ?Passei para uma luneta de seis fases, com tripé, e hoje uso uma filmadora que aproxima 700 vezes a imagem. Mas não filmo! Só olho?, garante o administrador.

Comenta que ?desde que se conhece por gente? espiava, pelo buraco da fechadura, as empregadas tomando banho. ?Nem entendia por que gostava. Só a partir dos 12 anos passei a ter malícia.? Até os 23 anos, ficava mais de três horas por dia com o olho grudado na luneta à procura de momentos interessantes. Acha que mais de 90% dos voyeurs querem ver cenas de sexo.

Do oitavo andar de um prédio no Jardim Marajoara, onde morou por 12 anos, conheceu uma voyeur – um dia as lentes se cruzaram – e acompanhou a vida de um vizinho. ?Ele tinha várias namoradas, mas depois que se casou e teve um filho, deixou de procurar a mulher.? Para saber as histórias de um prédio que era impossível observar (o dele mesmo) contava com a ajuda da amiga ?curiosa?.

Ingenuidade – O voyeur não se interessa apenas por cenas de sexo. Uma menina de 14 anos que, envergonhada, pediu para não ser identificada, passa as tardes de olho nos vizinhos. Sabe que o ?cara do sétimo andar? deixa o cachorro preso na varanda quando sai. E que a vizinha da frente, uma menininha, sempre coloca uma cadeira de plástico em frente da TV, quando começa O Clone. ?Ela dança igual as meninas da novela. Outro dia, fui conferir, liguei a televisão e ela estava imitando, com as mãos, as meninas muçulmanas.? A mãe fica preocupada. ?Ela não gosta de sair de casa, mas pediu um binóculo.?

Surpresas – Flávio Franco, de 30 anos, é voyeur assumido. Gosta de ver, de longe, a reação das namoradas, ao serem surpreendidas com presentes. Já ?invadiu? um apartamento em frente ao de uma delas, com uma luneta, para conferir como receberia uma serenata encomendada. ?Ela chorou de emoção.?

Dono de uma drogaria na zona leste, gosta de bisbilhotar a vida dos clientes. ?Sei quem trai, quem tem amantes, quem não ?funciona? mais…? O ponto, o mesmo há 12 anos, e a profissão ajudam a descobrir a intimidade dos freqüentadores. Acha engraçado quando as pessoas tentam enganá-lo. ?Quem compra Viagra diz que é para um amigo.?

Para Goldberg, algumas profissões são movidas pela ?curiosidade de voyeur?, mas não a do dono de farmácia – cita o investigador de polícia, detetive, jornalista, fotógrafo, profissionais de hotelaria (que sabem, por exemplo, que o hóspede do 513 pediu frango com batata) e o próprio psicólogo. ?Mas esse Flávio é mesmo um voyeur. Gosta de ver e saber da vida dos outros.?

Goldberg explica que o costume de olhar o outro torna-se patologia quando o indivíduo perde a identidade e passa a viver a história de quem observa.

?Doente é aquela pessoa que deixa de almoçar para ver o outro almoçando, ou põe em risco o trabalho para não perder um lance da vida do vizinho.?

Exibida – Se há os que gostam de olhar é porque também não faltam os que apreciam se mostrar. A modelo Patrícia Limonge, de 26 anos, ficou conhecida em abril do ano passado, no jogo do Palmeiras contra o argentino Sport Boys, pela Libertadores da América. Rebolou, só de calcinha, na janela do apartamento, para delírio dos ocupantes das arquibancadas do Parque Antártica. As amigas ajudaram no show, apagando e acendendo as luzes. ?Comemorei o gol?, comenta. Hoje faz o quadro Teste de Fidelidade no Você na Tevê, da RedeTV!.

Patrícia, que antes disso estava desempregada, diz gostar de aparecer ?por causa da profissão?. ?Faz bem para o ego, mas é importante estar em evidência para ter trabalho.?

O modelo e ator Taiguara Nazareth, de 25 anos, saiu da Casa dos Artistas com a esperança de obter notoriedade e emprego. Mas até agora só conseguiu ?bicos?, como a presença em bailes. Para voltar à telinha traçou nova estratégia. Vai desfilar em todas as 14 escolas de samba de São Paulo – ?quem sabe assim, né?? – e pretende gravar um CD de black music. ?Vou bancar do bolso e quem sabe fecho com uma gravadora.?

De fato, o exibicionismo tem público cativo, como o do salão de beleza, onde Caras, Quem e Chiques & Famosos são leitura obrigatória. ?Caras é uma revista muito procurada. Está sempre nas mãos das clientes – até a capa cai, de tanto que é folheada?, comenta Maria Livramento de Oliveira, de 62 anos, da equipe do Vita Cabeleireiros. ?A cliente quer saber sobre a vida dos artistas?, acrescenta a manicure Marlene Silva Fonseca, de 26 anos. ?É fofoca! E a gente também lê para ter assunto com as clientes?, ressalta a também manicure Cristina Carneiro dos Reis, de 33 anos. ?As campeãs em aparição são Xuxa e Sasha?, conclui Cleusa de Souza Cardoso, de 40 anos."

"O ?brother? esquartejador", copyright Folha de S. Paulo, 3/02/02

"Será que é possível entrar num açougue, olhar aquelas vitrines respingadas de sangue, com nacos de filé, costelas inteiras, maminhas, coxões, e ver ali uma exposição de intimidades? Olha a picanha aberta, escancarada, rasgada. E o cupim, você viu? A carne explícita, despida, despojada, sem couro, sem pele, sem osso quase nenhum. Será que o esquartejamento não é um striptease sem freios? Existe a pornografia bovinofágica?

A idade a que chegou a televisão se situa mais ou menos aí, entre o cancã, o frigorífico e a churrascaria. É uma idade carnívora e, ao mesmo tempo, industrial. Carnívora porque se alimenta e alimenta seus comensais de lascas, fibras e secreções do corpo humano. Industrial porque já não vive da caça ou da generosidade da natureza, mas dispõe de criadouros com milhões de cabeças, sempre saltitantes e prontos para o abate. Dispõe de uma pornopecuária em expansão: loiras musculosas que lotam 10 mil porões de cargueiros, bailarinos esganiçados em carrocerias de caminhão, quilômetros quadrados de peitos peludos e compactos, madeira de lei, ossobuco sexual. Todos com sorrisos de caveira, extasiados de se dilacerar sob os holofotes cortantes. Pulmões ao microscópio, joelhos na panela, mucosas se esfregando contra as lentes das 40 câmeras. A multidão é pura saliva.

E então? É possível olhar esse açougue e enxergar aí alguma intimidade?

Somos todos antropófagos simbólicos, somos canibais inconscientes. A exibição de ?Casa dos Artistas? no voluntarioso SBT, meses atrás, foi café pequeno. A entrada da Rede Globo no negócio da carnificina libidinosa fará de Alexandre Frota um coroinha de segundo ano primário. Ao menos, promete fazer. ?Big Brother Brasil? entra no ar como coisa de profissional. Todo mundo ali era desconhecido, mas, não tenha dúvida, todo mundo ali é profissional. É gente que sabe o discurso do escancaramento de cor. Sabe os gestos de cor. São andróides do desejo público, programados para falar como segredos íntimos o que não passa de fetiche da massa. Eles não estão ali para dizer o que sentem. Eles nada sentem além da compulsão pela fama. Estão ali para servir. E para fazer de conta que sentem o que os olhos da turba, sobre cada um deles, pressentem. Não há ?vida interior? a ser devassada nesse tipo de programa. Há somente o interior do organismo, as vísceras cruas e as palavras idem.

O ?reality show? é a fusão do pior da ?realidade? com o pior do ?show?. Do pior do jornalismo com o pior do entretenimento. Em ?Big Brother?, esse hibridismo se consuma no casal de apresentadores, Pedro Bial (jornalista) e Marisa Orth (Magda). Ele, acanhado, não tem notícia para dar. Ela, esvaziada, tenta rir do previsível. Constrangem-se, mas logo perderão o pejo e, de resto, o sucesso vai falar mais alto que as hesitações. Se ?Casa dos Artistas? virou mania, ?Big Brother Brasil?, a tacada mais ambiciosa das Organizações Globo, será uma histeria. Já é, por sinal, produto de uma histeria dupla: a do povo esfomeado, que quer mastigar o corpo alheio, e a da Globo, que quer ir mais longe que o SBT, não importa em que direção.

Vai ser divertido? Até que vai. Vai ser divertido ver o Brasil inteiro pensando que a Globo copiou o SBT, quando foi o contrário: o SBT que copiou o ?Big Brother? que a Globo já tinha comprado. Vai ser divertido ver a guerrilha que o SBT vai inventar agora. Vai ser divertido constatar outra vez que a carne é forte nesse ramo de negócio. Enfim, ainda que seja triste comprovar que, no Brasil de hoje, a competição comercial não melhora -mas piora- a qualidade estética da TV, vai ser divertido concluir que os bovinos pendurados nos açougues, assim como os andróides do desejo, quase não tinham ambições. Só queriam que, um dia, alguém os chamasse pelo nome."

"Ministério libera ?Big Brother?, mas veta novela infantil", copyright Folha de S. Paulo, 1/02/02

"Um dia depois de assinar despacho classificando o ?picante? ?Big Brother Brasil?, da Globo, como programa livre, o coordenador-geral de classificação do Ministério da Justiça, Mozart Rodrigues da Silva, negou, em 25 de janeiro, a mesma indicação etária para ?Maria Belém?, novelinha infantil mexicana que o SBT deve colocar no ar em 25 de fevereiro.

A lacrimosa novela, que irá substituir ?Carinha de Anjo?, foi classificada como imprópria para menores de 12 anos, inadequada para veiculação antes das 20h, por conter ?violência moderada?. O SBT, que pretende exibi-la por volta das 19h30, vai recorrer.

Executivos da emissora acreditam que o Ministério da Justiça usa dois pesos e duas medidas ao classificar programas da Globo e do SBT. ?Casa dos Artistas?, que é semelhante a ?Big Brother Brasil?, foi classificada em novembro como inadequada para exibição antes das 21h (14 anos).

Mozart da Silva nega favorecimento à Globo. ?Com certeza, não há tratamento diferenciado. Trabalhamos com total independência?, afirma.

No caso dos dois ?reality shows?, Silva diz que o do SBT foi classificado após sua estréia. ?Classificamos pelo que já tínhamos visto no ar?, diz. Já o da Globo foi classificado por sinopse que, segundo Silva, falava apenas de competições, não de conflitos e envolvimentos afetivos e sexuais. Foi tratado com um ?game show?, não como ?reality show?.

Silva diz que o conteúdo exibido pela Globo na estréia de ?Big Brother? foi adequado para o horário, 22h. E que a emissora se comprometeu a não exibir nada ?constrangedor? antes das 21h.

Sobre ?Maria Belém?, diz que ?cada caso é um caso? e que a classificação poderá ser revista. Do gênero ?realismo fantástico mexicano?, a novelinha trata de uma menina de seis anos que perde os pais adotivos e passa a viver de ilusões até encontrar um tesouro num arco-íris.

Com uma constrangedora cena em que um competidor fez xixi em um balde dentro de um carro, ?Big Brother? de anteontem deu espetaculares 53 pontos de média."

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