Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Carta aberta dos jornalistas do Correio Braziliense

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

CORREIO SOB CENSURA

É, sim, a mais profunda indignação que nos move a escrever essa carta. É, mais ainda, a certeza de que há quase nove anos o Correio Braziliense tem feito jornalismo da melhor qualidade, reverenciado pela criatividade e ousadia, tantas vezes premiado, em praticamente todas as editorias, de turismo a política, de esportes a economia. Até quando erramos feio fomos premiados. Porque assumimos o erro em manchete de primeira página, gesto inédito no jornalismo brasileiro.

Nesses tantos anos de jornalismo de verdade, os repórteres do Correio rodaram centenas de milhares de quilômetros dentro do Distrito Federal. Conhecemos os dramas, as dificuldades e as conquistas dos brasilienses de todas as classes sociais. Perscrutamos, dia a dia, a vida da cidade criada por Juscelino, Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Repórteres, a maioria muito jovens, recém-saídos da universidade, saem às ruas de peito aberto, de segunda a segunda, para ver, ouvir, perguntar, perguntar de novo e relatar os movimentos, as angústias e as vitórias desta cidade igualmente tão jovem. Jornalismo é isso. Ver, ouvir e contar para quem não pôde ver nem ouvir em tempo real o movimento da cidade, do país, do mundo.

Podia ser simples assim, não fossem os muitos interesses obtusos de quem quer cegar e calar o jornalismo genuíno. Faz tempo que nós, jornalistas do Correio, sofremos diariamente insinuações, ameaças, agressões no exercício diário da reportagem. Nada não. Não somos os primeiros, não somos os únicos, e jornalismo se faz assim mesmo ? na contramão de quem quer ficar impune. Nada disso nos faz diferentes nem heróis. Corremos o mesmo risco que todos os brasilienses, o de perdermos, definitivamente, o privilégio de morar numa cidade planejada, moderna, de altos índices de qualidade de vida. De podermos respirar o ar puro da pluralidade democrática, da convivência civilizada entre pensamentos divergentes, da disputa sadia de idéias e projetos.

A despeito de todos os defeitos que o Correio Braziliense possa ter ? porque erramos, sim; talvez tenhamos errado na dose, errado no tom, errado no jeito ?, a despeito de todas as nossas falhas, este jornal transmite as ondas da cidade; aonde Brasília vai, nós vamos atrás. Tem sido assim há mais de 27 mil edições, das mais alvissareiras, como quando um time de Brasília, o Brasiliense, disputou pela primeira vez a decisão de um torneio nacional (Copa do Brasil) ou quando saímos às ruas aos milhares para pedir a paz no trânsito e fomos pioneiros no respeito à faixa de pedestre. Às mais dramáticas, como quando jovens de classe média puseram fogo num índio ou mataram João Cláudio Cardoso Leal a pancadas.

Às vésperas de um dia decisivo para a plenitude democrática deste país, temos medo da derrota. Corremos o risco de perder o gravador, a caneta, a máquina fotográfica, os olhos e os ouvidos da Brasília que a gente tanto gosta e que elegemos como a nossa cidade. Isso porque anunciam-se mudanças na presidência e na direção do jornal. Estamos fraturando, neste momento, a secular idéia de que jornalista não se une a patrão. Fazemos essa ruptura sem nenhum temor. Porque ao longo dessas quase três mil edições, o Correio Braziliense deu provas de que faz jornalismo independente, de que denuncia, investiga, escancara, recua quando necessário, enaltece, festeja, critica, lança mão de todas as ferramentas da democracia.

E disso bem sabem os leitores deste jornal. Que se recorra aos mais de três mil e-mails e centenas de telefonemas recebidos desde que a redação foi invadida por um oficial de Justiça para censurar a edição de quinta-feira passada. Nesse mesmo dia, o presidente dos Associados e do Correio Braziliense, Paulo Cabral de Araújo, e o diretor de Redação, Ricardo Noblat, anunciaram o afastamento de seus cargos a partir de 1? de novembro. O que significa pôr em risco a continuidade desse projeto. É tudo o que não queremos, é tudo o que Brasília não quer, e dizemos isso sem o risco do exagero ou do ufanismo. Dizemos isso sustentados no vigor das palavras dos milhares de leitores que escreveram ou ligaram para a redação nos dois últimos dias.

Não é mérito nosso. É nossa função. Ganhamos para isso, nos formamos para isso, aprendemos no dia a dia que é assim que se faz jornal. Essa cidade tão moça ainda não forjou publicações independentes e soberanas, capazes de sobreviver à margem dos interesses abjetos deste ou daquele grupelho político. Por isso, o Correio Braziliense ganha um lugar tão fundamental para a oxigenação das idéias, dos debates, do pensamento de Brasília.

Uma cidade muda se não quiser se tornar muda.

E nós, brasilienses por nascimento e por afeição, sabemos que não é fácil entender essa cidade tão peculiar. O projeto editorial inaugurado em fevereiro de 1994, que jogou os releases no lixo e aposentou o discurso burocrático e oficioso, corre perigo.

A linha editorial deste jornal conseguiu um feito raro na história de dignidade da imprensa na capital, conseguiu autonomia. Manteve-se íntegra mesmo quando irritava o poderoso de plantão. Anulou a prosmicuidade das amizades aduladoras, muitas vezes mescladas com dinheiros ou cargos. Era a famigerada imprensa chapa-branca. O atual jornalismo praticado pelo Correio Braziliense se livrou de tudo isso ? e não foi fácil, era um hábito incrustado nas máquinas de escrever.

Em nome dos quase três mil leitores que mantiveram contato com a redação nos dois últimos dias, e dos silenciosos porém igualmente angustiados com a hipótese de perdermos a força de nossa voz, nós, jornalistas do Correio Braziliense, lançamos esse manifesto aberto a toda Brasília. Não podemos lançar no abismo essa imprescindível conquista de cidadania. Queremos assegurar que o projeto editorial tão premiado e aplaudido continue. Brasília, 26 de outubro de 2002

A carta acima está assinada por 151 jornalistas, fotógrafos, estagiários, artistas gráficos, diagramadores e auxiliares administrativos da redação do Correio Braziliense:

Adriano Ceolin

Adriano Lafetá

Alberto Ramos

Alessandra Flach

Alexandre Botão

Ana Beatriz Magno

Ana Clara

Ana Lúcia Moura

Ana Maria Dubeux Costa

Ana Sá

André Garcia

Andrea Cordeiro

Angela Velasco

Antonio Amaro Junior

Antonio Vital

Armando Mendes

Bernardo Scartezini

Carlos Alexandre Silva de Souza

Carlos Marcelo

Carmem Souza

César Henrique Arrais

Chica Magalhães

Cida Barbosa

Claudio Versiani

Claudio de Deus

Conceição Freitas

Cristiana Felippe

Cristina Ávila

Cristhian Lira

Cristine Gentil

Dad Squarisi

Dalila Góes

Dalton Paranaguá

Dante Accioly

Denise Rothenburg

Dimas Ximenes

Erica Montenegro

Eneila Reis

Eumano Silva

Everton Venâncio

Felipe Campbell

Fabiano Messias

Fabio Sales

Fabíola Góis

Fabricio Rocha

Felipe de Almeida Bastos

Fernanda Lambach

Fernanda Nardelli

Flávia Diniz

Flávia Duarte

Gabriel Góes

Gilberto Alves

Gilson Araújo

Giovana Perfeito

Guaíra Índia Flor

Graciela Urquiza Mendes

Helio Franco

Itamar Figueiredo

João Bosco

João Rafael Torres

João Luiz Marcondes

João Carlos Rodrigues

João Martins Neto

Jorge Luiz Cardoso

José Augusto Neto

José Carlos Vieira

José Cruz

José Negreiros

Juliana Moreira Lima

Juliana Cézar Nunes

Kacio Pacheco

Kido Guerra

Klecius Henrique

Kleber Sales

Lauro Rutkowski

Leni Reis

Leonardo Cavalcanti

Leonardo Meirelles

Lilian Tahan

Lorenna Rodrigues

Lucas Pádua Barbosa

Luciana Jatobá Lobo

Ludmila Luz

Luiz Alberto Weber

Luis Tajes

Marcelo Ramos

Marcello Xavier

Marco Freitas

Marcos Pinheiro

Marcos Guber

Maria Clarice Dias

Maria Ferri

Maria Vitória

Mariana Santos

Mariana Moreira

Marina Oliveira

Maurenilson da Silva

Matheus Leitão

Musa Ferreira Vila Nova

Nahima Maciel

Nina Guimarães

Noéli Nobre

Oswaldo Buarim Junior

Paloma Olivetto

Paulo Paniago

Paulo de Araujo

Paola Lima

Patricia Mesquita

Paulo Rossi

Pedro Ribeiro

Pedro Paulo Rezende

Placido Fernandes

Priscilla Borges

Renato Ferraz

Renato Ferreira de Oliveira

Ricardo Borba

Ricardo Cunha Lima

Ricardo Leopoldo

Ricardo Ramos

Roberta Teles

Roberto Fonseca

Roberto Naves

Rodrigo Hilário

Ronia Alves

Rosane Torres

Rovênia Amorim

Rudolfo Lago

Samanta Sallum

Sandro Silveira

Sergio Amaral

Sérgio Maggio

Sérgio de Sá

Sibele Negromonte

Sheila Raposo

Sheila Messerschmidt

Severino José da Paz

Suely Carvalho

Thaís Cieglinski

Talita de Araújo

Thiago Vitale Jayme

Tiago Faria

Tiago Taborda

TT Catalão

Ullisses Campbell

Valda Rocha do Carmo

Valdson Messias

Valeria Blanc

Valéria Velasco

Valéria Feitoza

Verene Wolke

Vicente Nunes

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