Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > VOZ DAS URNAS

Carta do achamento das eleições

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

VOZ DAS URNAS

Deonísio da Silva (*)

Senhor,

Posto que outros escrevam a Vossa Alteza Real e também a seus asseclas, que adoram receber relatórios de todos os tipos, nos quais dão apenas uma olhada assim por cima, ainda assim deixarei de dar minha versão dos achamentos das mais recentes eleições. Meu propósito é antes de tudo não ofender a língua-mãe, nem espalhar coices nas palavras e nem nos leitores como se muar fosse, nem ousar “fazer colocações”, já que pode o galináceo melhor que todos obrar isso.

Tome, Vossa Alteza, porém, minha cautela por necessária independência que todos os que escrevem devem ter, ainda que nossa herança barroca faça com que sejamos eternos clientes dos poderes metropolitanos de além-mar. Mostrando mais uma vez que nos entende mal, a imprensa do mundo deu Lula como obviamente vitorioso e ignorou todos os outros concorrentes. Agora, só não estão mal os ingleses que, muito contidos, como sempre, resolveram aguardar o final do primeiro turno.

Dito isso, não vou alindar nem afear o que em nosso país se achou. Mas a vida anda muito cara. E todos estão ganhando pouco, afetados pelo dólar que cai no mundo inteiro, menos aqui, onde a cada dia mais se eleva. Todos os artigos são caros. O salário mínimo é para muitos de nós o máximo.

Não é à toa que a palavra vem de sal. É salgado o meu salário, Alteza, e o patrão diz que é salgado para ele também, que deve pagar um monte de impostos para sustentar uma cambada que Vossa Alteza conhece muito bem, pois, cá para nós, vive negociando com a corja. No entanto, por piores que sejam os eleitos, serão sempre melhores do que os ditadores. No fundo de nossas almas, quando reclamamos de governadores, deputados e senadores, reclamamos de nós mesmos, pois eles, eleitos por nós, são a nossa cara. Ai-ai-ai, Alteza, só faltava essa: não gostar da minha própria cara, que outros chamam rosto, gesto, face, alguns usando até mesmo no plural: “há quanto tempo você não dava as caras por aqui!”.

Recado claro

Uma das notas mais tristes, Alteza, são as crianças abandonadas. Não encontramos em nosso país, como disse um escritor já falecido, nenhum bezerro, cabrito, porco ou frango abandonado. Todos esses têm quem deles cuide. Já as crianças talvez, por excesso delas nas famílias pobres, vagam pelas ruas do país. A diferença é que o Brasil pode resolver o problema, mas não quer.

Ao contrário do que previu Malthus, sobra comida no mundo. Mas continua injustamente distribuída. Aqui também há os que têm tudo e aqueles que não têm nada. Sugiro a Vossa Alteza mudança radical em seu proceder: pare de apoiar os ricos, que não precisam para nada de Vossa Alteza, e olhe para os pobres. Pelo menos, olhe para eles. Olhe bem para um pobre, Alteza. De perto. E não apenas para aqueles que encheram as urnas de votos. Eles, em nome de outros que não podem votar, como seus filhos menores, por exemplo, deram um claro recado a Vossa Alteza.

O resto não é silêncio. Todos sabem que o resto é comentário.

(*) Escritor e professor da UFSCar; seus livros mais recentes são Os guerreiros do campo e A Vida Íntima das Palavras

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