Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > A VEZ DO POVO

Carta à mídia e aos marqueteiros

Por lgarcia em 16/10/2002 na edição 194

A VEZ DO POVO

Afonso Caramano (*)

“A voz do povo é a voz de Deus”, diz o surrado provérbio, e se o povo fala é porque nesse mato tem coelho; além do mais, não se deve esquecer que onde há fumaça há fogo. Ufa… O povo se expressa mesmo por clichês, diluindo o próprio pensamento em chavões.

Mas não faltam intérpretes do pensamento do povo, afinal há que se dar voz a essa entidade tão carente de expressão própria ? se não houver quem o conduza (o povo, claro) pode, à maneira das manadas, estourar, aí salve-se quem puder. Por isso é conveniente que se atribua alguma capacidade intelectual a ele ? ilusão em que se apóia sua popular sabedoria.

Eleições como estas de 2002 são excelente termômetro para medir a profundidade dessa sabedoria ou da verdadeira capacidade popular ? interpretando-se uma vez mais as escolhas do populacho. Depois do primeiro turno, novamente é a vez de os opinionistas (corporificados pela mídia) entrarem em cena, e dos marqueteiros (representantes políticos) com as pesquisas sobre preferência, gosto, aceitação etc.. Basta não desprezar as margens de erro dessas pesquisas e se terá o rumo traçado para o segundo turno.

De novo inicia-se o bombardeio dos formadores de opinião para manobrar ou pelo menos apontar o caminho mais seguro, estável, de transição sem mudança brusca ou ruptura, a fim de assegurar tranqüilidade ao mercado e novas perspectivas ao povo, novamente o povo ? fim de todas as propostas e meio para a legitimação democrática ? e de seus representantes no poder.

Constata-se, porém, que o povo não é assim tão burro como pensam certos segmentos de nossa sociedade, desprezando as aspirações e verdadeiras carências dele. Por outro lado, conclui-se que a educação ? a velha e boa educação ? básica, primária, fundamental continua fazendo uma falta tremenda (daí talvez tantas promessas, nunca concretizadas, de efetivamente melhorá-la). “Em terra de cego quem tem um olho é rei” ? quem não tem que fique de orelhas em pé e ouvidos atentos para não se deixar enganar com tantas baboseiras ditas pelos políticos e veiculadas pela mídia.

Estamos vivos

Ao contrário do que pensam, o clamor do povo não se revela somente no exercício obrigatoriamente democrático do escrutínio a cada quatro anos, mas diariamente, embora os políticos se lembrem de ouvi-lo apenas nesta época de eleições.

O povo fala de maneiras diversas ? daí talvez tantas interpretações ao gosto do intérprete e das conveniências. Não faltam análises e opiniões acerca dos anseios e necessidades populares, e no calor do debate esquecem-se de consultar o povo.

Mas, afinal, quem é o povo? Ora, o povo, o populacho somos nós ? que quase nunca temos voz e necessitamos que nos emprestem uma para que possamos comunicar a nossa falta, nossos medos, nossos desejos…

Mas nem sempre querem nos ouvir ? ouvem somente o que querem e nos dizem o que queremos com tanta veemência que achamos que queremos o mesmo. Isso nos confunde às vezes. Não que sejamos um bando de ignorantes ? cometemos muitos erros, é certo, e às vezes somos bastante injustos, mas na maioria das vezes conseguimos perceber as coisas com clareza e discernimento, outras apenas podemos intuir as segundas intenções ? e sabe-se: quando o povo desconfia é porque aí tem truta.

Por isso não exijam mais do que podemos dar ? já nos tiram tantas coisas, nos espremem, nos incitam, nos convocam a cooperar para isso, para aquilo ou contra aquilo outro, nos assediam, nos cobram taxas, tarifas, contribuições, nos esfolam, nos humilham, nos bajulam… É um esforço enorme para nós, talvez mais do que possamos suportar. No entanto suportamos e rimos e brincamos carnaval e torcemos pelo time de nosso coração e choramos juntos nas tragédias e gritamos e amamos ? porque estamos vivos e somos povo e nos reconhecemos povo brasileiro com toda a mistura de raças, cores, amores, religiões, paixões… e vida.

Parte de uma nação

 Não esqueçam que mesmo a cordialidade tem limites ? e que esta palavra encerra sentimentos do coração, portanto, como todo sentimento tem caráter de volubilidade, e podemos amar e odiar quase que ao mesmo tempo. Não menosprezem nossos sentimentos, nossas carestias, não subestimem nossa inteligência, não prometam mais do que possam cumprir ou tenham intenção de fazer. Não venham com discursos aterrorizantes, maniqueístas, reducionistas. Também nos cansamos de tudo isso. Não pensem que, porque suportamos várias versões de big brothers, casa disso ou daquilo e programas fúteis, não enjoaremos e acordaremos.

O jogo para o segundo turno já começou ? as cartas começam a despontar, o que não valia antes agora pode ser validado, tudo para não perder a oportunidade ou deixar escapar o que foi conquistado com muito custo, muita verba (desviada?), muitas promessas, muitos discursos vazios e empolados. Tem até um pouco de graça, sabe? Quando nos sentamos em frente à TV (nossa idolatrada TV) e assistimos aos programas políticos ou aos telejornais, chegamos a acreditar que tudo pode dar certo ? e acreditamos mesmo.

Queremos apenas emprego, comida farta, moradia honesta, transporte seguro, liberdade, justiça e igualdade de oportunidades. Podemos nos contentar com menos do que isso. Mas não se esqueçam de nos olhar nos olhos, não apenas quando aparecemos com cara de fome numa propaganda política qualquer. Não deixem de nos encarar e reconhecer que somos, acima de quaisquer interesses privados e patrimonialistas, parte de um país, de uma nação.

(*) Funcionário público municipal, Jaú, SP

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