Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > NOVOS ROSTOS

Carta sobre a felicidade

Por lgarcia em 15/01/2003 na edição 207

NOVOS ROSTOS

Deonísio da Silva (*)

Alguns olhares são inesquecíveis e dizem mais do que as palavras. Ou dizem de modo diferente. Há uma profusão de fotos de gente nova, novos políticos aparecendo nacionalmente pela primeira vez, velhas figuras voltando, com botox ou sem botox. A imprensa vai esculpindo o novo rosto do Brasil para mais quatro anos. Ler e olhar tornou-se, mais do que antes, obrigatório.

Começa pelo presidente. De cara, decidiu tratar da fome e dos pirralhos. Pirralho veio de “perro” (cachorro), que é como a maioria de nossas crianças é tratada, e por isso o Lula já disse que o “C” do Ministério da Educação, que não é mais da Cultura, será de Criança. Isto é, os filhos dos ricos, como cachorros de ricos. E os filhos dos pobres, como cachorros pobres. Mas não podem ser tratados como cachorros, pobres ou ricos.

Os ingleses dizem que desprezamos certas formalidades indispensáveis às celebrações. Certa vez estava num fórum e prestava atenção ao olhar de um juiz, que escutava atentamente uma testemunha. Gosto muito daquele ambiente e já escrevi um pequeno romance cujas tramas extraí de processos judiciais, que é A Mulher Silenciosa, sobre uma mulher injustamente condenada.

O juiz parecia concordar com tudo o que a testemunha dizia contra a pessoa que ali estava à frente de todos. Mas de repente, ex abrupto, o juiz franziu os sobrolhos e tudo mudou. Ele viu o ressentimento, a calúnia, a mágoa e seu séquito de péssimas companhias deslizando para fora da boca daquele homem, voltou a olhar para o acusado, que até então ele tratara até ríspida e severamente, e mudou de opinião. Passou a iluminar o que havia nos autos com as labaredas que o Senhor lhe proporcionara à simples e rápida meditação sobre uma das falas e os gestos que a emolduravam. E eu mais uma vez me dei conta de que os caminhos do Senhor são inescrutáveis!

A melhor parte

O título da coluna, tirei-o de um livro de Epicuro (séc. IV a.C.). É um livro pequenino, cada página tem 72 cm2, o livro tem cerca de 51 páginas, e levei muito tempo para ler. Fui lendo em grego e em português, cada parágrafo. A edição é da Editora da Unesp, dirigida por José Castilho Marques Neto, que tão bons conselhos me deu quando dirigi a EdUFSCar. É uma carta que Epicuro escreve a seu amigo Meneceu. Nela, entre outros ensinamentos, ele diz que o prazer a qualquer custo deve ser evitado, já que pode resultar em dor, e uma dor nem sempre deve ser evitada, já que pode resultar em prazer.

Enfim, às vezes somos vagos e difusos como certos filósofos. Sei que, no meu caso, nem tão pertinentes. Mas que estão aparecendo na imprensa várias fotos que valem por muitas palavras, estão. Poderia destacar várias. Escolhi a de Dilma Rousseff, ministra das Minas e Energia, a ex-guerrilheira Stella. Há três fotos dela na Veja desta semana (n? 1.785, de 15/1/03, págs. 36 e 37). Duas, anônimas, são dos arquivos da repressão. A terceira tem autoria: é de Marco Antonio Teixeira, da Agência O Globo. Por favor, vão lá e leiam as fotos, sobretudo a última. São imagens que falam!

Uma nova Carta sobre a Felicidade poderia ser ilustrada com aquela foto. Na edição imaginária, incluiria, também como ilustração, uma frase extraída de meu romance Avante, Soldados: Para Trás: “A mulher é a melhor parte da natureza humana”.

PS ? Manifesto minha mais irrestrita solidariedade a Alberto Dines. O senador Antonio Carlos Magalhães, que renunciou para não ser cassado, voltou ao Senado pelo voto. Coisas da Bahia. E nem bem voltou, atacou um dos homens mais dignos da Galáxia Gutenberg, o jornalista Alberto Dines. Ele tem todo o direito de discordar, não tem o de ofender. Como sabe ferir, esse ? domo direi? ? patriarca de nossa política! Sabemos como começam tais alcunhas racistas, como continuam e como se encerram. Sabemos também que nessas horas é inadiável deixar bem claro, a que preço for, de que lado se está. Lembremos a frase de V. S. Naipaul, Prêmio Nobel de Literatura: “O escritor que não provoca hostilidade, está morto”. Na verdade, vista de outro ângulo, a diatribe de ACM contra AD compõe sólida referência para as duas personagens [leia sobre o assunto na rubrica Jornal de Debates, nesta edição].

(*) Escritor e professor da UFSCar, escreve semanalmente neste espaço; seus livros mais recentes são A Vida Íntima das Palavras e o romance Os Guerreiros do Campo

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