Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA GAÚCHA

Cavalos de Tróia

Por lgarcia em 19/06/2002 na edição 177

MÍDIA GAÚCHA

Gilmar Antonio Crestani (*)

Presente de grego, quem não sabe o significado? Sua origem está lá no Canto VIII da Odisséia. Depois de 19 anos de luta por causa do rapto de Helena, os gregos simulam uma retirada para suas naus enquanto Ulisses/Odisseu, o dos mil ardis, e um punhado de soldados escondem-se no interior de um enorme cavalo de madeira, deixado às portas de Ílion (por isso Ilíada). E, depois que os troianos arrastam o "presente" para dentro da cidadela, o cavalo da Grécia vira cavalo de Tróia. A festa pelo término da longa contenda leva, precipitadamente, os troianos à festa e à embriaguez. É neste momento que os soldados gregos que estavam no bojo do cavalo saem e abrem as portas aos companheiros que já os aguardavam no lado de fora da cidadela.

Virgílio, na Eneida, de certa forma desaprova o ardil utilizado pelos gregos, e Dante confina Ulisses, autor do estratagema, no oitavo círculo do inferno!

Helena, aquela que fazia um homem gemer sem sentir dor, como diz a canção, o cavalo, Ulisses, Enéias, Aquiles, o do tendão, talvez nem tenham existido. Mas Tróia, sim. E mais de uma. Se ocorreu ou não uma Guerra de Tróia é questão ainda controversa. Jean Giraudoux, dramaturgo francês, ao contrário do historiador helenista, também francês, Jean-Pierre Vernant, negava que tivesse ocorrido.

Heinrich Schliemann (1822-1890) tomou a Odisséia como um manual geográfico e foi em busca dos lugares nela descritos. Suas peripécias renderam o livro Ítaca, o Peloponeso e Tróia, em que conta suas escavações no monte Hissarlik, na Turquia, onde teria desenterrado o Tesouro de Príamo. Hoje a arqueologia e a historiografia admitem que existiram pelo menos 11 Tróias, sendo que a descoberta por Schliemann teria sido erigida entre 2.500 e 2.200 anos a.C.. Isto é, pelos menos um milênio antes da Guerra de Tróia. Quanto ao Tesouro de Príamo, foi mais um factóide do alemão que casou com uma grega chamada Sophia com a qual teve os filhos Andrômaca e Agamêmnon, personagens importantes na Guerra de Tróia.

A história das descobertas arqueológicas deste banqueiro alemão sobrevive sob o signo da controvérsia. Guardadas as devidas proporções, suas descobertas estão para a história tanto quanto os dossiês estão para o jornalismo: afetam, mas pouco acrescentam de concreto. E se, numa das camadas arqueológicas de Tróia encontramos tesouros, antes de associá-lo a determinada personagem é mister que se apure com mais rigor. As relações de causa e efeito não são tão lineares como querem fazer crer determinados interesses que parte da mídia repercute. Há quem interprete a Guerra de Tróia como a disputa por um ponto econômico importante, em cuja região se instalaram muitas colônias gregas.

A história nos prova que nem sempre o que se mostra guarda relação com a sua essência. E a versão mais recente pode ser apenas mais uma, longe de ser definitiva, mas construída para atender conveniências. Por isso, há que se distinguir ficção de jornalismo. Pode-se conjeturar, viajar pelas entrelinhas das declarações políticas, mas coisa bem diferente é servir de instrumento, de moto próprio ou não, a interesses nem tão inconfessáveis assim.

Se fazer relação de causa e efeito pode ser perigoso, não fazer, quando há, também depõe contra a liberdade de informação. Liberdade de informação, como consumidor, entendo que não seja apenas a faculdade de se dizer com maneias, mas também o direito que a sociedade tem de saber como determinado fato aconteceu ou por que deixou de acontecer.

Falácias de coronel

O que se diz é tão importante quanto o que se omite. É por isso também que as relações entre a mídia e seus patrocinadores, por falta de transparência, causam espécie. No momento em que se avizinham as eleições e os grupos políticos balançam como gelatina, preocupa ver a imprensa balançar junto com o candidato de suas preferências.

Há cavalos e cavalos. É importante saber diferenciá-los na hora de escolher um cavalo de batalha. Há cavalos famosos, como Bucéfalo, de Alexandre o Grande, que, em sua honra fundou, na Índia, a cidade de Bucéfala. Outro não menos importante foi Incitatus, nomeado cônsul por Calígula no ano 40 d.C., em virtude de o Senado romano ter lhe negado permissão para casar com sua própria irmã. Como se vê, as relações entre os poderes Executivo e Legislativo também têm história.

Os políticos, como Ricardo III, estão sempre dispostos a entregar seu reino por um cavalo, traduzido em espaço na mídia. Pinçar declarações pode, segundo a intenção velada ou não, ser presente de grego para uns e a salvação do reino para outros. Cavalo também dá xeque-mate! Na Argentina, por exemplo, um Cavallo está no xadrez… As musas tinham Pégaso, o cavalo alado.

Nestes tempos informatizados, Cavalo de Tróia é um tipo de programa que, uma vez instalado, proporciona a quem o enviou uma maneira de alguém entrar no nosso computador sem ser percebido. Em inglês, língua dos bárbaros do norte, Trojan Horse. No jornalismo também há tanto o "cavalo de tróia" como o "cavalo de batalha".

Algo que parece contraditório, mas atende à mesma lógica. A RBS faz coro à oposição política no estado para apontar que o maior pecado da atual administração estadual foi a opção da Ford pela Bahia, em virtude de não terem sido confirmados os subsídios oferecidos na gestão anterior. Este episódio, o dos subsídios, continua sendo o cavalo de batalha de todos os que não concordam com a gestão atual, particularmente a RBS. Agora comparem com o que faz o também gaúcho Pratini de Moraes. O ministro da Agricultura, como um Napoleão, tem lutado contra todos os países do Primeiro Mundo que oferecem subsídios, levando consigo seu exército legal e verbal. Primeiro foi à França, depois aos EUA (ZH de 11/5), agora o jornal Correio do Povo (9/6) informa: "Pratini discute ações contra subsídios em Roma." Não é engraçado cobrar que o governo do estado conceda subsídio e ao mesmo tempo encilhar o cavalo branco do ministro Brancaleone?! Seria o convênio entre os coronéis eletrônicos com a Farsul, a UDR gaúcha, que oblitera o raciocínio?

Estes mesmos coronéis eletrônicos publicam, em editorial, que "é uma falácia afirmar de forma genérica que o programa de privatizações empreendido pelo governo federal foi danoso para o país. O estado fabricava parafusos, operava com empresas distribuidoras de alimentos e comandava até mesmo companhias de pesca, entre outras deformações de suas reais atribuições. E o pior é que muitas dessas estatais eram inoperantes, davam prejuízos e consumiam recursos dos contribuintes", mas estes mesmos vão se socorrer do BNDES para salvar uma empresa de televisão a cabo "inoperante", que "dava prejuízo".

Confiram o conteúdo

A explicação para a piada infantil a respeito de qual era a cor do cavalo branco de Napoleão é a de que ele tem todas as cores, pois ele as reflete. No sábado 8/6, a colunista de O Globo e O Sul, Tereza Cruvinel confirmou uma informação transgênica que ela mesma plantara em coluna anterior, embora relativamente a uma pesquisa do Ibope: "Boatos sobre crescimento de José Serra nas pesquisas acalmaram o mercado ontem. Ele cresce ?mesmo? no Datafolha que deve ser divulgado amanhã." O oráculo proferido pela pitonisa, ao vocalizar o termo "mesmo", não carece de escavações para revelar seu real sentido.

Sintomaticamente, a manchete principal do jornal Zero Hora do mesmo sábado retira mais uma camada e mostra mais um indício que confirma o oráculo: "Intervenção do BC e ?especulações? eleitorais acalmam o mercado", e no corpo da matéria, o alpiste que faltava para o bico do tucano: "A tendência inverteu a partir de ?rumores sobre pesquisas eleitorais? indicando que o candidato tucano José Serra teria melhorado sua posição, além de uma queda do petista Luiz Inácio Lula da Silva. Datafolha e Ibope devem divulgar amanhã novo levantamento de intenção de voto para a Presidência." Dias antes de a pesquisa ser divulgada já há prognósticos, os quais, claro, se confirmam. Não faz muito um candidato a presidente declarou, e os jornais publicaram, que seu partido estava patrocinando uma pesquisa que confirmaria sua ascensão.

Dito e feito, fez-se a pesquisa e se confirmaram os prognósticos. Neste tranco, enquanto o exército imperial cuida para que o general inverno não derrube Napoleão e seu cavalo branco na lama, a artilharia joga considerando canela da garganta ao tendão de Aquiles: "Apesar das platéias diferentes, a fala e a roupa de Lula ? terno grafite, camisa amarela e gravata cinza ? eram as mesmas." (ZH de 23/5) Informação é isso aí!

O páreo eleitoral ainda não deu a largada oficial, mas alguns segmentos da imprensa já apostam no cavalo do comissário, aquele que, por ser do comissário, não pode perder. As camadas de informação ora salientam ora escondem, mas sempre dentro de uma mesma lógica. Ao se remover a camada superficial da informação descobrimos que Helena já adorna os índices e o Tesouro de Príamo atende os seus recrutas renitentes. Os cavalos de Tróia estão soltos na imprensa. Antes de levá-los para casa convém que o leitor confira bem o conteúdo.

(*) Funcionário público federal

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