Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > BAIXARIA NA TV

Código de defesa do telespectador

Por lgarcia em 26/02/2003 na edição 213

BAIXARIA NA TV

Silas Corrêa Leite (*)

De uns tempos a esta parte, a televisão, que deveria ser um meio eficaz de educação e entretenimento, de algum nível básico pelo menos, virou um verdadeiro ninho de gatos pardos, entre a baixaria consentida e a falta do mínimo de respeito primário com o telespectador incauto, procurando refrescar a cuca, ser informado, não se imbecilizar no totem da nova senzala. Está mais do que na hora de nós, cidadãos-contribuintes que formam opinião, bolarmos aí um Cóoacute;digo de Defesa do Telespectador (CDT). Vou fazer apontamentos para o rascunho de um.

Sim, porque o Fantástico, que era uma revista mais ou menos aproveitável, caiu numa mesmice ao estilo bocó do Bial et trupe, e nada de novo no front, sequer se faz algo palatável em função mesmo de alguma boa cópia, parafraseando o mestre Chacrinha. Cadê os bons clipes de MPB? As flores do jardim de nossa casa. Ave, Bethânia.

Do futebol nem vou falar. Só isso é assunto para outra croniqueta de protesto, tais as sandices de tantos gênios narradores e críticos de ocasião que inventam fórmulas maravilhosas, enquanto o esporte bretão cai de qualidade e nível. Esvaziando arquibancadas e reinventando violências organizadas de guetos e becos com gangues raivosas movidas a drogas e imprudências do associacionismo extra-lar.

Falo também da programação falha, inócua, burrinha da silva, incorreta e nada pontual, dos filmes ridículos repetidos à exaustão e, se alguém acha que o que se vê durante a noite é ruim, espere para ficar rendido em casa uma semana de quarentena, e vai ver que a programação marota da tarde é uma xaropada sem igual. Uma vergonha.

Os programecos infantis fazem a cabeça do baby para o consumismo fácil, pela burrice por atacado, mais aqueles desenhos aterradores e alguns orientais heróis chinfrins ? é duro de acreditar que tem gente que vê isso tudo e sai ileso, e, pior, os pais não fazem nada. Não é à toa que o Chaves de 10 anos atrás, ruim por ruim, ainda é melhor do Angélicas e outras barbaridades com rótulos de novidades sarangas.

E as pegadinhas? Uma estupidez. Um crime até. Constrangimento, tratamento degradante ? crime previsto da Constituição (e inafiançável) ? inclusive o constrangido telespectador pego pela palavra marota, no contrapé da complicada situação vexatória, sem o zip-zaping da mão ligeira evitando o pior pro lar doce lar. E ninguém faz nada?

João Kleber é uma vergonha. Inventa verdades de ocasião, faz uma dramaturgia de araque, mostra a carta falsa do causo insólito (bisonho, bizarro), e tudo mais. Nem falo da TV Band, porque ela deixou de ser a segunda para ser a pior. Com raras exceções.

Big Brother? Ver para crer: como tem gente besta e bobamente curiosa que gosta de zapear o nada olhando pro ninguém, ou o ninguém dizendo asneiras pro nada e assim vai a toleima. Todos verdadeiros "asnonautas". Perdão pelo neologismo.

Programas de humor? Sai de baixo mesmo! A praça que é rala, a zorra (que é um zero total) reinventa piadas velhas e sempre as mesmas discriminações contra lacraias, afeminados, meios sexos e outro estereótipos. Cadê os direitos humanos dos sobreviventes?

Mallandro já é demais

Aqui e ali, claro, salva-se alguma coisa não-tucana da TV Cultura como o Alô alô, Provocações, Ensaio, Musikaos, Cartão Verde, só para citar alguns.

Ah, pior, os filmes de sábado da Globo são um lixo ao cubo. Estupros, mulheres apanhando de marido, mesmices, nada de novo, e nada para um salutar entrosamento com a família como um bom filme leve, inteligente, gracioso, cheio de humor. É tudo lixo. Os programadores (existem?) não se tocam? Ou ganham mais nas tevês a cabo?

Sábados? Perdidos. Tem horário que fuço do canal 1 até o 80 e tanto, e não tem nadica de nada. De bois e cuques, de bobices a programas de auditório que as câmeras rebolam mais que as erógenas zonas genitais atiradas na cara do telespectador desavisado ou imprudente.

Domingos? Entre o Gugu e o Faustão? Dose dupla de breguice, pieguices e tramóias bobas que não nos dão nada, não servem nada de bom, não dão opções. E ainda falta criatividade, jornalismo investigativo e outros quitutes mais.

E os diretores de plantão ainda torcem para uma ocasional morte de famoso, uma tragédia espetacular, um crime hediondo, uma fuga magistral de prisão corrupta, um desastre fora de série, e assim vão tapando o horário com bobagens improvisadas. Abobrinhas e marotices. Pamonhas e propagandas enganosas. Remédios-mentiras.

Melhor ir andar de carrinho de rolimã com o filhote do vizinho na ladeira do lado. Pegar rabeira de jipe rueiro. Ou ler gibis velhos do Walt Disney. Quem sabe dar uma zapeada no truco do bar. Ou podar a roseira. Talvez, lavar o carro com o júnior… Ou levar o Rex pra marcar território nas urinanças. Melhor ouvir Vandré, Cartola, Taiguara, Edit Piaf.

Nunca ficar ali, entre o tédio e a mesmice. Até o Globo Repórter está uma lástima. Que pena. Das novelas vou falar num outro artigo. Mas pioraram. Mexicanizaram nossa cultura televisiva mais pop. Ficou um sentido maior ainda, na saudosa falta do genial Dias Gomes. Jornais na tevê? Tudo ladainha do mesmo arco da velha. Um suspeito antilulismo começando a criar coragem-vergonha.

Até quando? Quem é que ganha com isso? Ninguém faz nada? E as autoridades constituídas? Gilberto Gil? Já penso em bolar mesmo, falando sério, um tal Código de Defesa do Telespectador. Censura é outra coisa. Queremos qualidade limpa, criativa, de alto nível. Os canais de tevê não são concedidos pelo governo? Então?

O Fantástico virou um Programa do Ratinho com grife de ocasião. O Ratinho empacou naquele dígito do Ibope entre os manés, os bobos e os filhotes que, na falta do que fazer, sondam algum disparate novo no exame do DNA com pancadaria incentivada na moita, para enganar o estatuto do crível, do ético, do bom senso, do familiar.

Sérgio Mallandro? Bem, aí já é agüentar de mais. Tô fora! Desligo. Vou catar coquinhos.

Clic!

(*) Poeta, jornalista e professor

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