Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ACM

Celia Moreira

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

ACM

"Memórias das Trevas revela trajetória de Antônio Carlos Magalhães", copyright PanoramaBrasil, 22/01/01

"A Geração Editorial começa o ano apresentando aos leitores um livro-bomba. Memórias das Trevas – Uma Devassa na Vida de Antônio Carlos Magalhães, do jornalista e escritor baiano João Carlos Teixeira Gomes, narra a biografia do atual presidente do Senado.

A trajetória pessoal e política de ACM descrita em Memórias das Trevas inclui um sem número de perseguições, agressões, violências nas mais diversas formas, retaliações, truculência, covardia, autoritarismo, desmandos e toda a sorte de atitudes cometidas por um político beneficiário da ditadura militar, num reinado de mais de 40 anos de poder.

João Carlos Teixeira Gomes, 64 anos, é jornalista, professor universitário e um dos mais eminentes intelectuais de sua terra. É colega de Antônio Carlos na Academia de Letras da Bahia.

O livro é uma extensa e detalhada reportagem, que começa narrando o longo calvário de perseguições que o próprio autor – e o Jornal da Bahia, por ele dirigido de 1969 até 1971 – sofreu pelo então governador nomeado pela ditadura Antônio Carlos Magalhães, que chegou a tentar condená-lo com base na Lei de Segurança Nacional. ‘Joca’ Teixeira Gomes derrotou ACM na própria Justiça Militar por 4 a 1.

Com o rigor de repórter e a luta pela ética e liberdade de expressão do intelectual, o autor constrói, em Memórias das Trevas, uma reflexão sobre o fenômeno da tirania. Um tratado sobre a defesa da liberdade de expressão que tem como cenário a vida política do país de 64 até nossos dias. Um livro que o sociólogo Gilberto Vasconcellos apontou como o mais completo depoimento jornalístico já escrito no Brasil. ‘Um livro estupendo e vingador à maneira de Os Sertões, de Euclides da Cunha.’

A Geração Editorial aceitou o desafio de publicar uma obra singular, recusada por uma dezena de outras editoras, que, apesar de reconhecerem o seu mérito e alta qualidade, tiveram receio de levá-la aos leitores. (Memórias das Trevas, João Carlos Teixeira Gomes, Geração Editorial, 768 pg, 2001 – R$ 40,00)"

"ACM minimiza importância de livro sobre sua vida", copyright PanoramaBrasil, 24/01/01

"O presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) minimizou o livro do jornalista e escritor baiano, Carlos Teixeira Gomes, Memória das Trevas – A devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães. ‘Confesso que esperava algo substancial. Não há nenhuma acusação contra a minha moral’, disse ACM.

ACM atribuiu a publicação do livro ao PMDB. ‘Foram os ladrões da SUDAM, do DNER e das DOCAS. O próprio escritor não nega essa afirmação’. Ele observou que num levantamento de custo de publicidade do livro nos jornais foram gastos quase R$ 1 milhão.

O livro foi editado pela Geração Editorial. ‘Com certeza a editora não tem dinheiro para bancar o valor dessa natureza em publicidade’, afirmou.

Memórias das Trevas narra as retaliações feitas por ACM contra seus opositores, principalmente depois da ditadura militar . Descreve com ênfase o temperamento explosivo do senador, que Magalhães nega dizendo que não é truculento e que nunca foi arruaceiro como afirma o escritor. ‘Vocês me conhecem. Trato a todos com respeito quando assim me tratam’.

A publicação tenta fazer um histórico da ligação do presidente do Senado com os empreiteiros, onde há denúncias que ele recebeu propina para beneficiar determinadas empresas.

Magalhães ironizou o livro e disse que não tomará nenhuma atitude para barrar sua venda. ‘Recomendo a leitura para que fique demonstrado como se pode gastar tantas páginas sem dizer nada.E as verdades sobre essas mentira vou dizer em plenário’, afirmou. O livro tem 765 páginas.

O senador também é alvo de outro livro. O consagrado escritor Fernando Moraes está escrevendo a biografia autorizada de Antônio Carlos Magalhães. O senador disse que a verdade sobre sua vida estará demonstrada nesse texto que ainda está sendo pesquisado. ‘Essa é demorada por que o escritor é sério’, comentou."

"Jornalista baiano conta seus embates com ACM", copyright Pensata Valor Econômico, 23/01/01

"A cena é inesquecível para quem a assistiu: João Carlos Teixeira Gomes, jornalista, 36 anos, estava sentado no banco dos réus, na verdade uma dura e estreita cadeira de madeira, diante do Conselho Permanente de Justiça para a Aeronáutica, instalado numa sala acanhada de dependências do Exército, o Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva, o CPOR, bem pertinho da bela igreja de São Joaquim e da imensa feira livre de São Joaquim, na cidade baixa, em Salvador, Bahia. O advogado carioca Heleno Fragoso, com o dever jurídico mais que bem cumprido, permanecia em seu posto da defesa, à direita. À esquerda, estavam os promotores militares, Antonio Brandão Andrade e Kleber Coelho, rostos inolvidáveis para os baianos, que tiveram o infortúnio de passar, como réus ou amigos e familiares de réus, pela auditoria militar naqueles violentos anos 70 da última ditadura brasileira. À frente, os quatro juízes militares e o auditor civil, Mário Gomes.

Uma angústia compacta, um medo pesadamente silencioso dominavam a assistência no momento em que o auditor civil lançou a questão decisiva aos juízes militares, quase seis horas depois de iniciada a sessão: aquele tribunal era competente para julgar o jornalista? Um a um, os oficiais da Aeronáutica foram declarando com firmeza a incompetência da Justiça Militar para deliberar sobre o suposto crime do jornalista ali apresentado. E antes mesmo que o auditor civil, perplexo, surpreendido e visivelmente contrariado declarasse seu voto solitário favorável ao julgamento do jornalista dentro da Lei de Segurança Nacional, já uma alegria incontrolável e barulhenta irrompera na sala do julgamento naquele 25 de setembro de 1972. João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, sentado ainda na cadeira de réu, depois de uma formidável tensão, finalmente chorava, enquanto era cercado pela família, amigos e colegas que queriam abraçá-lo.

A cena está descrita de forma apaixonada nas páginas 201 e 202 de ‘Memórias das Trevas’, livro do jornalista baiano, escritor e professor aposentado de Literatura João Carlos Teixeira Gomes. O ‘crime’ que motivara essa cena foi a publicação de uma reportagem sobre favorecimento fiscal da empresa Magnesita S/A pelo governo estadual, na edição de 16-17 de julho de 1972 do ‘Jornal da Bahia’, do qual Joca era o redator-chefe. A manchete na primeira página naquela edição dizia: ‘Governador favorece firma da qual ele próprio é acionista’. O título da matéria na página três completava: ‘A falsa austeridade do governador – Magnesita: o cúmulo do favoritismo’. Seguia-se um texto recheado por números, transcrição de atos fazendários e reprodução de documentos, para provar o tratamento especial concedido pelo governo baiano à empresa da qual o governador Antonio Carlos Magalhães possuía um certo número de ações.

A reação rápida do governador foi formular uma denúncia pedindo o enquadramento do redator chefe do jornal no artigo 36 da Lei de Segurança Nacional, que tratava de ofensas à honra ou à dignidade das autoridades constituídas, e previa penas bastante pesadas se tais ofensas tivessem sido veiculadas por meios de comunicação de massa.

Na verdade, o episódio na Justiça Militar era apenas o ‘round’ mais espetacular de uma luta quase sem tréguas que, de 1969 a 1976, foi travada entre Antonio Carlos Magalhães e o crítico ‘Jornal da Bahia’, e que produziu entre outros efeitos uma progressiva asfixia financeira do jornal, fundado em 1958 por João Falcão, um banqueiro e empresário, ex-militante do Partido Comunista, e por um grupo de intelectuais baianos, entre os quais o nome mais festejado viria a ser o de Gláuber Rocha. Essa longa luta está narrada em todos os detalhes, em seus traços mais edificantes e nos mais sórdidos, com exaustiva documentação, no livro de Joca, que por razões que no texto também se explicitam era tomado pelo governador como seu adversário maior.

De qualquer sorte, ‘Memórias das Trevas’, apesar do subtítulo ‘Uma Devassa na Vida de Antonio Carlos Magalhães’, não se limita à narração da tentativa de liquidação de um jornal baiano nos anos da ditadura, nem é apenas um misto de biografia e libelo contra o senador baiano. ACM é, sem dúvida, o grande antagonista, mas o protagonista dessas memórias é o próprio jornalista João Carlos Teixeira Gomes, que não encerra suas críticas na década de 70, mas leva-as até o presente, investindo, por exemplo, contra as mais recentes opções políticas do presidente Fernando Henrique Cardoso, e particularmente contra a política econômica e social do atual governo federal. Faz isso, como intelectual culto que é, apoiado em autores clássicos, consagrados e em críticos mais novos do processo de globalização. Mas o faz também com uma carga de paixão pessoal que decorre, como disse em entrevista ao Valor, do fato de ser ‘um glauberiano e um rousseauniano, o que envolve um espírito simultaneamente lúcido e romântico’, além de ter no poeta barroco Gregório de Matos uma terceira inspiração espiritual.

Não foi fácil para Joca, que também se define como ‘um homem de centro-esquerda, com idéias muito firmes sobre justiça social’, encontrar editor para seu livro. Foram quase duas dezenas de editoras que se recusaram a publicá-lo, sob alegações variadas, desde o problema do tamanho, até o fato de ele versar sobre um caso muito localizado de um jornal provinciano e de interesse restrito. Ele não acredita em tais razões, prefere apostar que houve medo. Apenas."

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