Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Celso Fonseca

Por lgarcia em 19/09/2001 na edição 139

TERROR & HORROR

"Mundos díspares", copyright IstoÉ, 17/09/01

"Até hoje, a autora carioca Glória Perez, 51 anos, guarda a gratidão dos ciganos por tê-los ajudado, em parte, a se safar dos preconceitos ancestrais, mostrando em horário nobre o mundo exótico do povo nômade na novela global Explode coração, de 1995. Desta vez, em O clone, que estréia no dia 1? de outubro, ela irá pisar num terreno ainda mais arenoso. Vai fazer uma incursão no mundo muçulmano, comunidade que vive um momento delicado em razão das suspeitas que recaem sobre grupos extremistas islâmicos de terem cometido o maior atentado terrorista da história, semana passada, nos Estados Unidos. Por enquanto, Glória Perez prefere diminuir a presença da cultura do Islã na nova trama. Acima de tudo, ela quer que o islamismo funcione como recurso dramático da quase intransponível barreira cultural entre Oriente e Ocidente, motivo da separação da heroína Jade (Giovanna Antonelli) de seu grande amor, Lucas (Murilo Benício). ?A novela se chama O clone e, portanto, seus temas polêmicos serão a clonagem humana e depois a dependência química?, antecipa a autora.

O foco nos muçulmanos possibilitará que a câmera viaje por terras de sonhos. A primeira parte, por exemplo, foi gravada no exótico Marrocos. ?É lógico que, para contar a vida daquelas pessoas, falarei de aspectos da sua religião, como numa outra novela aparece um católico rezando?, compara Glória. Ela afirma que há um ano deixou evidente para a direção da Rede Globo que em O clone a cultura islâmica teria uma ?abordagem genérica? e bem distante das controvérsias, sejam políticas, sejam religiosas. Mas é sempre bom lembrar que atos insanos isolados não podem estar diretamente associados a um povo. Caso contrário, corre-se o risco de se desencadear um ódio injusto.

Ao que parece, o enredo de O clone está longe de provocar tamanho sentimento. Como em toda novela global, o que conta é o glamour. Há tempos, Giovanna Antonelli vem se preparando para o papel de Jade. Aprendeu expressões idiomáticas árabes, escureceu os cabelos, fez sessões de bronzeamento artificial e se esmerou nos trejeitos sedutores da dança do ventre. Sabe-se, no entanto, que a mulher muçulmana só pode dançar em ambientes fechados, com as amigas e para o marido. Nada de exibicionismo gratuito. Pelo jeito, quem vai rebolar de verdade é Glória Perez, na sua tentativa de agradar a gregos e muçulmanos."

 

"O dia em que o mundo mudou", copyright Época, 12/09/01

"Ninguém vai esquecer o dia 11 de setembro de 2001. Cada um de nós terá uma história para contar sobre o que fazia, ou onde estava, quando o mundo começou a parar, estarrecido e chocado. O maior ataque sofrido pelos Estados Unidos, mais devastador que o raid aéreo japonês sobre Pearl Harbor, em dezembro de 1941, transformou 11 de setembro em uma data histórica. Por isso Época decidiu lançar uma edição extra, a primeira em seus três anos e quatro meses de existência. A equipe da revista comportou-se à altura de publicações veteranas e experimentadas. Trabalhou em ritmo de jornal.

As torres gêmeas do World Trade Center, ícone de Nova York e símbolo do poder econômico dos Estados Unidos, acabavam de virar pó e o Pentágono ardia, no fim da manhã da terça-feira, quando um time coordenado pelos editores-seniores Fábio Altman, Laura Greenhalgh e Ariovaldo Bonas começou a executar o projeto desta edição. Os editores Izalco Sardenberg, Fabrício Marques e Maurício Cardoso, apoiados por repórteres, envolveram-se no trabalho de apuração e edição dos fatos que geraram cenas fantásticas e aterrorizantes, mais fortes que as de ficções produzidas nos estúdios de Hollywood. Foram muitos os telefonemas em busca de colaboradores e até mesmo de amigos residentes em Nova York. De alguns foi possível colher depoimentos dramáticos. Um deles veio de um jovem americano de origem hispânica, Christian Duran, filho de uma família de New Jersey, vizinha a Manhattan. Com 19 anos, Christian trabalha como entregador em um restaurante em frente às torres. Salvou-se porque acordou tarde na terça-feira. Os relatos carregados de emoção se misturam a sombrias análises sobre o futuro de um mundo onde não há mais lugar inexpugnável.

A edição da semana circulará normalmente a partir do próximo sábado. Os prazos serão os mesmos, mas não o conteúdo. Época número 174 será uma revista com mais páginas, para trazer todos os desdobramentos possíveis dos acontecimentos dessa data inesquecível, o dia do terror sem fronteiras.

Época já havia planejado um número extra no passado. Era para a final da Copa de 1998. Tudo estava pronto para que circulasse depois do jogo contra a França, no domingo 12 de julho de 1998. Zidane não deixou.

Preferíamos ter lançado aquela revista e não esta."

 

"Ultima ameaça", copyright IstoÉ, 17/09/01

"Hollywood sempre viveu e vendeu bem – na maioria das vezes – a paranóia americana da invasão alienígena. Leia-se alienígena qualquer possível intervenção exterior, que viesse aterrorizar ou desestabilizar um modo de vida cheio de ideais pátrios e de arraigados hábitos culturais e sociais. Este temor foi dezenas de vezes retratado nas telas. Seja na forma metafórica de extraterrestres, que sutilmente representavam os países do bloco comunista, seja no jeito explícito do inimigo soviético, como nos melhores filmes de James Bond durante a guerra fria. Vários filmes, no entanto, levaram às últimas consequências a eterna ameaça aos Estados Unidos. Alguns deles ganharam um tratamento satírico, como a comédia de humor negro Dr. Fantástico, assinada por Stanley Kubrick, na qual um general americano enlouquece e ordena um ataque atômico à antiga União Soviética, obrigando o presidente americano a jogar uma bomba em Nova York como forma de retratação. No caso do medo do inimigo oculto acobertado pela ficção científica, um exemplo de peso é o blockbuster Independence day, no qual hordas de E.Ts. enraivecidos destroem em segundos a Casa Branca e o Capitólio. Na linha tensão, Nova York sitiada mostra o sequestro de um líder terrorista e a retaliação de seus comparsas, atacando a bomba edifícios públicos. Episódio bem parecido com a tragédia ocorrida nesta semana em Nova York e Washington. Só que desta vez, infelizmente, os efeitos especiais da tela se transformaram em realidade. A seguir exemplos de filmes sobre atentados que o cinema americano produziu.

Quando Nova York e outras metrópoles e cidadãos americanos estiveram sob tensão

Nova York sitiada (The siege, Estados Unidos, 1998). Direção: Edward Zwick – Inspirado no atentado a bomba contra o World Trade Center, ocorrido em 1993, o filme se revelou profético ao mostrar a ilha de Manhattan sendo evacuada após uma série de atos terroristas – incluindo o prédio do FBI – em represália ao sequestro de um líder palestino, clara alusão a Osama Bin Laden. Como os ataques aconteceram em terra, todos os árabes residentes nos Estados Unidos passaram a ser considerados suspeitos. O Exército, inclusive, criou campos de concentração para prendê-los. O problema é que no final se descobre que os culpados foram os próprios militares americanos.

O suspeito da rua Arlington (Arlington road, Estados Unidos, 1999). Direção: Mark Pellington – Desde a morte de sua mulher, uma agente do FBI que investigava milícias de direita, o professor universitário Michael Faraday (Jeff Bridges), passou a sofrer crises de paranóia. Começa a desconfiar que seus novos vizinhos, o casal Lang (Tim Robbins e Joan Cusack), são terroristas. As suspeitas se confirmam da pior maneira possível.

Clube da luta (Fight club, Estados Unidos, 1999). Direção: David Fincher – Homens fracassados ou anulados pela sociedade se organizam em tropas de choque cuja finalidade é a destruição efetiva do sistema capitalista através de bombas e atentados. Jack (Edward Norton) e Tyler (Brad Pitt) pregam a anarquia e a violência, condenando a apatia da esmagadora maioria da população, que vive consumindo produtos de que não precisa.

A última ameaça (Broken arrow, Estados Unidos, 1995). Direção: John Woo – Dois oficiais das forças armadas americanas se defrontam. Vic Deakins (John Travolta) sequestra dois poderosos mísseis com a intenção de vendê-los a peso de ouro, enquanto Riley Hale (Christian Slater) quer impedi-lo. Para conseguir seu intento, Deakins planeja bombardear cidades americanas.

O pacificador (The peacemaker, Estados Unidos, 1996). Direção: Mimi Leder – Oficial militar (George Clooney) e especialista em armas atômicas (Nicole Kidman) enfrentam uma conspiração árabe cujo ápice é a explosão de um artefato nuclear em Nova York.

Quando o presidente foi obrigado a tomar atitudes drásticas (ou não)

Doutor Fantástico (Dr. Strangelove or how I learned to stop worrying and love the bomb, Estados Unidos, 1964). Direção: Stanley Kubrick. Para impedir uma tragédia internacional, depois que um oficial amalucado ordena que joguem uma bomba na União Soviética, o presidente americano recorre aos feitos do cientista nuclear Dr. Fantástico.

Força aérea um (Air force one, Alemanha/Estados Unidos, 1997). Direção: Wolfgang Petersen – Depois de fazer um discurso muito duro em Moscou, o presidente americano, James Marshall (Harrison Ford), tem seu avião sequestrado por terroristas soviéticos. O que eles não sabem é que Marshall é um atleta e fará de tudo para livrar a mulher e a filha das mãos dos ativistas.

Minutos extremos (Deterrence, França/Estados Unidos, 1999). Direção: Rod Lurie – De um barzinho no meio do Estado do Colorado, onde acabou retido por uma tempestade de neve, o presidente dos Estados Unidos, Walter Emerson (Kevin Pollak), decide bombardear o Iraque, que invadiu o Kuwait e ameaçou o Ocidente com armas atômicas.

A última ameaça (Broken arrow, Estados Unidos, 1995). Direção: John Woo – Dois oficiais das forças armadas americanas se defrontam. Vic Deakins (John Travolta) sequestra dois poderosos mísseis com a intenção de vendê-los a peso de ouro, enquanto Riley Hale (Christian Slater) quer impedi-lo. Para conseguir seu intento, Deakins planeja bombardear cidades americanas.

Independence day (Independence day, Estados Unidos, 1996). Direção: Roland Emmerich. Monumentais naves espaciais invadem a Terra e ameaçam explodir três grandes cidades americanas no Dia da Independência dos Estados Unidos. Num ato de bravata ufanista, o presidente da nação comanda, ele próprio, a empreitada para acabar com os seres extraterrestres.

Marte ataca! (Mars attacks!, Estados Unidos, 1996). Direção: Tim Burton – Alienígenas de olhos esbugalhados dominam a Terra. Militares e políticos se comportam como caipiras diante deles. Nem o presidente americano escapa da fúria irônica dos marcianos, que, ao final, são derrotados por uma insuportável música country."

 

"Repórteres acidentais", copyright Valor Econômico, 17/09/01

"De louco e fotógrafo todos têm um pouco, parodiando o ditado. As agências se abasteceram de inúmeras fotos feitas por amadores (além das dos profissionais). Carmen Taylor, de Arkansas, estava de férias em Manhattan e com a câmera digital emprestada do filho fez a imagem do exato momento em que o segundo avião atinge o Wold Trade Center e da explosão subseqüente. Ela estava no lugar certo na hora certa, embora para milhares de pessoas fosse o lugar errado na hora errada.

As novas tecnologias digitais e a globalização da informação têm ajudado a transformar os espectadores e leitores de jornais em verdadeiros repórteres acidentais que, com suas ?pequenas? máquinas, registram fatos na hora, mostrando-os em verdade para eles mesmos, espectadores e leitores.

O tom das imagens seria uma segunda reflexão sobre as centenas de fotos do ataque aos Estados Unidos. Diante de um fato de tal dimensão, talvez o de maior importância e conseqüências vivido por toda uma geração, a realidade crua dificilmente será superada por qualquer elaboração de linguagem fotográfica.

Diante do sofrimento, da surpresa, do horror, da solidariedade, do espetáculo, não coube senão fotografar e fotografar exaustivamente e de maneira simples. O importante se tornou mostrar a essência do que é a reportagem fotográfica.

O fotografar simples e direto se torna insuperável em termos de imagem. E isso profissionais e os amadores fizeram aos borbotões.

E, por paradoxal que seja, surgiram do horror imagens de beleza ímpar e dramática."

    
                         
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