Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > Os maias

Celso Fonseca

Por lgarcia em 14/02/2001 na edição 108

QUALIDADE NA TV


Os maias

"Só falta audiência", copyright IstoÉ, edição 1637

"Eça de Queirós (1845-1900), o genial escritor português, certamente adoraria saber que o romance Os Maias, de 1888 – considerado sua maior obra-prima -, ativou polêmicas mais de um século após sua publicação. Adaptado por Maria Adelaide Amaral para a Rede Globo no formato de minissérie, Os Maias, na verdade uma mistura de situações de outras duas obras do autor, A relíquia e A capital, tornou-se um daqueles programas raros na televisão brasileira. Tem diálogos em bom português, o elenco e a maioria das atuações são de primeira, as locações verdadeiramente remetem ao passado e as imagens refletem com consistência o ambiente de nobreza e decadência. Mesmo assim, a minissérie milionária tem ancorado na vergonhosa média de 15 pontos, de acordo com a medição do Ibope, metade da expectativa da emissora. O que faz pensar que espetáculos de qualidade na tevê tupiniquim estão condenados a uma audiência elitizada.

Primeira co-produção internacional de vulto da Rede Globo, que fez parceria com a rede portuguesa SIC, da qual é acionista, Os Maias é uma superprodução de mais de R$ 10 milhões. Cada capítulo custa R$ 200 mil, o dobro do gasto na novela das oito. Não havendo retorno, há prejuízo. Portanto, corre-se o risco de não mais se ver boas atrações ocupando o horário tardio na tela da Globo. De acordo com o diretor Luiz Fernando Carvalho e a autora Maria Adelaide Amaral, a minissérie sofre rejeição apenas das classes baixas, desacostumadas a uma linguagem mais apurada. ‘É uma obra de maior complexidade e necessita de um espectador reflexivo’, alerta Carvalho. ‘A preguiça cultural está instalada no País’, completa ele. Maria Adelaide concorda com o diretor, mas aposta numa reação. ‘O público ainda engolirá esse biscoito fino, mas vai precisar de tempo para se habituar. É um outro código televisivo, outra linguagem, com um ritmo mais lento’, diz ela.

Por enquanto, a animação em torno da atração global
concentra-se entre as editoras. Ivan Pinheiro Machado, da L&PM,
conta que em 20 dias vendeu 12 mil exemplares de Os Maias. ‘Fizemos
uma joint-venture espontânea com o dr. Roberto Marinho’,
brinca ele. Todos os outros livros de Eça do catálogo
da L&PM também estão praticamente esgotados.
Fenômeno parecido se verifica nas editoras Ediouro e Nova
Alexandria. Cada uma afirma ter vendido 20 mil exemplares de
Os Maias, números significativos para o mercado literário
brasileiro, no qual um sucesso editorial ronda a casa dos dez
mil exemplares. Não deixa de ser um feito e tanto, mesmo
que a minissérie não retome o caminho da ansiada
audiência."

 

"Por que `Os Maias’ não chega lá?", copyright Valor Econômico, 6/02/01

"Um dos componentes das obras de ficção que mais diretamente impactam o público (leitor, espectador, ouvinte, telespectador, etc.) é a narrativa.

O dicionário diz simplistamente que narrativa é a maneira de narrar, e diz também que é o conto, a história. A definição não satisfaz. Não chega a ser os dois últimos e não é apenas a maneira de contar a história. Como se pudéssemos dizer que uma viagem é o trajeto. A narrativa é o desenrolar; não apenas a maneira de desenrolar o novelo (ou novela), ela é o próprio desenrolar: é o movimento!

Vejamos, então, Os Maias, sob a perspectiva do movimento (da história que nos contam). Muitas vezes, o movimento é rápido, há uma elipse, como a passagem dos anos da infância de Carlos da Maia para a juventude: ele, menino, pula no lago, nada para lá, nada para cá, e quando assoma na beira da água já é homem. Um ótimo e econômico recurso visual de passagem do tempo. Outro exemplo de desenrolar rápido: o modo como Maria Monforte e o príncipe Tancredo se olharam, se agarraram e se entregaram. Essa rapidez tinha uma função estética: traduziu em linguagem visual a paixão fulminante dos dois. Em outros momentos, no entanto, a rapidez não funciona, gera dificuldade de compreensão para a massa.

Por outro lado, muitas vezes o movimento é vagaroso, até arrastado, como se o diretor se deleitasse com as cenas gravadas e tivesse pena de cortá-las ou resumi-las. Um exemplo (ainda retirado de momentos da primeira fase da minissérie) é a visita de Vilaça ao bordel de Paris onde Maria Monforte passou a viver. A câmera passeia pelo ambiente com os olhos do personagem, lentamente, descrevendo-o; depois, segue Vilaça pelos salões; Maria chega-se a ele, oferecendo-se; ele diz: ‘Não me reconheces?’; ela olha-o demoradamente, não sabemos se o reconheceu ou não, e pede que a acompanhe; a câmera segue-os; entram no quarto; sempre em travelling, a câmera acompanha Maria e descreve lentamente o quarto; ela fuma, em baforadas contínuas, depois reclina-se, faz caras, pergunta a Vilaça o que quer ali; sempre seguindo-a, lenta, a câmera mostra o oratório com a foto de uma menina e velas; Vilaça pergunta onde está a menina; ‘Morreu em Londres’, diz ela, e a seqüência termina. Aqui, o movimento lento não contribui esteticamente para a cena; se fosse cortada pela metade, não perderia significado. Já o lento e primoroso passeio pela casa dos Maia, no primeiro capítulo, cumpriu esteticamente sua função de transmitir evocação, nostalgia e perda.

A minissérie segue assim, com momentos de narração resumida e com outros de alongada autocontemplação. Às vezes dá certo, às vezes não dá. Resulta, então, uma narrativa que vacila quanto ao seu próprio movimento, que não parece ter sido pensado como um elemento de todo o conjunto. Mas isso seria exigir demais da televisão e de uma produção enorme como esta, tão vasta em termos de números de cenas, diálogos, cenários, roupas. Um diretor necessitaria de muito distanciamento e tempo para conseguir um resultado homogêneo. Impensável, em televisão comercial. O material produzido continua sendo de ótima qualidade – interpretação, cenários, fotografia, vestuário, música – apesar da edição irregular.

Algumas cenas fazem suspeitar que o diretor Luiz Fernando de Carvalho tem especial admiração por dois grandes filmes também adaptados de obras literárias. A chegada de Maria Eduarda ao hotel remete à primeira cena de Silvana Mangano no hotel em Morte em Veneza. Outros momentos sugerem uma afeição do realizador a O Leopardo. São filmes que contam histórias de decadência, feitos pelo mesmo diretor, Luchino Visconti. O último é um dos maiores da história do cinema.

O erotismo de Eça de Queiroz, que desagradava a Machado de Assis, já
está presente. Teodorico e Patrocínia, com interpretações
primorosas de Mateus Nachtergaele e Myriam Muniz, vão
conquistando espaço. Maria Eduarda e Carlos vão
aproximando-se. Os elementos melodramáticos já
se insinuam: a filha de Maria Monforte, mãe de Carlos,
morreu mesmo? Se os realizadores ajustassem melhor a narrativa
e a Globo não jogasse seu precioso produto para cá
e para lá nos horários do fim da noite, Os Maias
teria o público que merece."

 

"Minissérie", copyright Folha de S. Paulo, 11/02/01

"Assisti ao primeiro capítulo de ‘Os Maias’ e qual não foi minha surpresa quando, aguardando pelo segundo, deparei com o descaso para com o público: veio futebol! E assim foi acontecendo, dia após dia: ‘Planeta & Casseta’, futebol novamente etc. Gostaria pelo menos de gravar a série, mas como programar o vídeo se nunca é possível saber a que horas ela vai ser apresentada? É incompreensível ver uma produção cara, e até sofisticada, sendo relegada a segundo plano por uma emissora que gosta de estar sempre na vanguarda. (Anna Luiza Camargo Bauer, São Paulo, SP)

"Fiquei admirada ao ler que o povo brasileiro está ‘emburrecido’ e despreparado para assistir a uma produção requintada que, mesmo assim, não atinge o Ibope desejado. Por que não supor que o povo brasileiro é trabalhador e se preocupa em cumprir seus horários? Não é preciso ser membro da ABL para valorizar e admirar uma produção tão imponente e rica. Qualquer brasileiro estaria disposto a assisti-la desde que não precisasse aguardar duas horas vendo um jogo de futebol insosso para só depois assistir a apenas alguns minutos da minissérie (condensada por culpa do mesmo futebol) e ainda ter de acordar cedo no dia seguinte. Sugiro uma reavaliação da emissora em relação ao horário e, para os críticos, uma reavaliação em relação às considerações emitidas sobre o povo brasileiro. (Maria Teresa Pires Véspoli, São Paulo, SP)"

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