Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Cenas de um filme antigo

Por lgarcia em 14/08/2002 na edição 185

DEBATE DOS PRESIDENCIÁVEIS

Leandro Fortes (*)

A grua da TV Bandeirantes se deslocava de um lado para o outro, como um mastro à deriva, compondo uma meia-circunferência imaginária entre o ponto de partida, no céu aberto do inverno paulista e o de contato, o portão principal da emissora, no Morumbi. Assim, observados por este primeiro e estratégico olho da mídia, cada um dos quatro principais candidatos à presidência da República se apresentou ao país na noite de 4 de agosto, o domingo do debate.

O riso largo e protocolar exibido por cada um deles na entrada escondia o lógico pavor das circunstâncias. E estas logo se apresentaram na figura de uma medusa de braços, câmeras, luzes, blocos, canetas, gravadores, laptops e vozes. Éramos nós, os jornalistas, e nossos acessórios. Uma massa humana comprimida mais pelo vício do ritual do que, propriamente, pela esperança real de conseguir alguma declaração com um mínimo de racionalidade e consistência.

Anthony Garotinho (PSB), José Serra (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cada qual à sua maneira, fizeram entradas tradicionais, com sorrisos e frases feitas, antes de se livrarem da comissão de frente de repórteres. Ciro Gomes, do PPS, no entanto, preferiu reforçar um estigma que diz refutar: sua semelhança, cada vez mais patente, com o ex-presidente Fernando Collor de Mello. Resultado: repórteres foram pisoteados, acotovelados, puxados pela roupa e, finalmente, jogados sobre um sólido conjunto de mesas e cadeiras de ferro próximo à entrada do estúdio da Band. Filme velho com atores de segunda.

Ciro Gomes tem uma aliança formal com o PTRB, partido de Fernando Collor, em Alagoas. Seu principal coordenador de campanha, o deputado José Carlos Martinez (PTB-PR), teve que ser ejetado do time da Frente Trabalhista (PPS, PTB e PDT) por não se explicar razoavelmente sobre um empréstimo tomado junto ao falecido Paulo César Farias, ex-tesoureiro de campanha de Collor ? e, entre 1990 e 1992, coletor-mor da quadrilha instalada no Planalto. Em franca escalada nas pesquisas, Ciro passou a ser objeto de desejo das mesmas forças políticas que, em 1989, deram a Collor a musculatura necessária para a vitória em troca da boa e velha proximidade com os cofres públicos.

A moldura do bigodinho sobre a intenção do sorriso de dentes separados de Antônio Carlos Magalhães é um velho sinal de guerra da tribo dos pefelês. A recente recepção montada por ACM, para Ciro, no aeroporto de Salvador, aliada a outros movimentos do PFL e de seus satélites, reforçam as semelhanças com o processo que gerou Collor. Ainda assim, foi na noite do debate que Ciro ficou mais parecido com o ex-presidente.

Uns idiotas

Graças a uma ação conjunta de seguranças e assessores da Frente Trabalhista, a semelhança em questão mostrou-se na impressionante crueza dos catiripapos. Assim que começou a crescer nas pesquisas, e a contar com as tropas de jagunços e capangas de muitos dos coronéis que o apoiaram, Fernando Collor passou a tratar a imprensa aos sopapos. O endosso da truculência lhe garantia a distância necessária das perguntas incômodas. O preço da aproximação era, quase sempre, uma mãozada no rosto.

Na noite do debate em São Paulo, o candidato do PPS desceu do carro de cara fechada, empertigado. Os seguranças contratados enfiavam os braços entre os rostos dos repórteres como se procurassem caranguejos na lama. A concentração de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas na porta do estúdio começou a ficar perigosa, mas nem assim a caravana de Ciro deu trégua à caminhada. Um repórter da TV Bandeirantes ? logo, um anfitrião ? foi, primeiro, travado com um pisão no pé. Em seguida, um derradeiro empurrão que o levou, e a quatro outros profissionais (entre eles duas mulheres), às bordas das tais mesas de ferro e, em último estágio, ao chão.

Foi nessa hora que, irritado com o assédio a seu candidato, o publicitário Einhart Jácomo da Paz surgiu no meio da massa para vociferar. Einhart tem sido descrito em matérias dominicais como um marqueteiro discreto, uma espécie de anti-Nizan Guanaes, anti-Duda Mendonça, contraponto ao estilo espalhafatoso imputado a seus concorrentes baianos contratados pelas campanhas de Serra e Lula. Ou estamos todos errados, ou o senhor Einhart teve seu momento de Mr. Hide naquela noite. Ora fazendo as vezes de segurança, ora apelando para o descontrole puro e simples, eternizou-se neste primeiro debate do milênio ao cruzar os limites da boa educação ? para não dizer do bom senso ? e partir, aos berros, para os jornalistas com o dedo em riste:

? Vocês são uns idiotas, uns idiotas!

Já seria um insulto e tanto, não fosse o tempero da situação. Boa parte dos idiotas ainda estava se levantando do chão quando o marqueteiro cuidou de classificá-los como tal. Fez isso dentro de uma emissora de TV. Pode-se imaginar o que fará dentro de um palácio.

(*) Jornalista, coordenador de Política/Brasil da sucursal de Brasília do Jornal do Brasil, autor do livro Cayman: O Dossiê do Medo

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