Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > DOMINGO ILEGAL

Censura ao que há e ao que virá

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

DOMINGO ILEGAL

Nelson Hoineff (*)

Não há dúvida que, tecnicamente, a punição de um programa de TV pode incluir sua suspensão. Mas é evidente também que impedir a transmissão da qual nem se conhece o conteúdo configura censura. O que mostra que há um forte erro de conceituação nisso tudo: quem fraudou o público não foi o Domingo Legal, foi uma de suas “reportagens”.

Com todos os holofotes sobre Gugu Liberato, é natural que surja muita mariposa querendo se iluminar. É aí que mora o perigo. A imensa repercussão que o caso ganhou não vai ser suficiente para fazer com que as questões essenciais sejam resolvidas. Só para ficar num exemplo: existem vários outros programas que propõem “pegadinhas” claramente forjadas. Essa é uma forma de ludibriar a audiência? É.

A subtelevisão continua oferecendo espetáculos policialescos travestidos em jornalismo nos quais a matéria-prima é a manipulação das informações e das emoções do telespectador. Isso também é incorreto? É.

Tais programas causam imensos prejuízos aos personagens ? muitas vezes inocentes ? da sanha de reportagens sensacionalistas, além de danos sistemáticos à imagem do telejornalismo e da própria televisão. Todos esses programas deveriam ser retirados do ar pela Justiça? Não.

Gugu e outros afirmaram no auge da crise que está na hora de repensarem os seus papéis. Farão isso? Também não. O tipo de emoção contida nessa promessa é idêntico ao que permeia os seus discursos nos programas que fazem. Apóiam-se na efemeridade da própria televisão. É como se tudo fosse feito para durar 30 segundos.

Burra e banal

O grande benefício que se poderia extrair dessa crise dificilmente acontecerá: ele consiste no entendimento, por quem está por trás de tudo, que a televisão pode oferecer outras opções ao telespectador sem o menor prejuízo para o seu faturamento. Opções de programas melhores, mais sinceros e verdadeiros, capazes de oferecer a essa grande massa de ingênuos que paga as suas contas alternativas melhores de televisão ? e deixá-las escolher.

Não se trata de substituir Gugu por Schopenhauer, mas de se deixar fluir programas inteligentes e bem-feitos, e ainda assim populares. Digo “deixar fluir”, mais até do que “criar”, até porque essas opções estão no espaço, à espera de serem aceitas e simplesmente oferecidas ao crivo popular.

É o próprio público, e não a Justiça, que vai decidir o que é bom para ele, o que merece ser visto e o que merece ser desprezado. Para que isso aconteça, é necessário apenas que ao público seja dado esse direito.

Toda a emoção causada pelo caso Gugu poderia ser catalisada para que esse difícil passo fosse tomado, com coragem e determinação. Aí, então, de um episódio circunstancialmente ruim, se poderia extrair um benefício muito mais perene.

Dar ao público outras opções de entretenimento e deixá-lo julgar, isso é tudo. Tirar o Domingo Legal do ar por uma semana e preencher o espaço com reprises de atrações análogas não colabora nada para melhorar o cenário que permite fraudes primárias como a que aconteceu no domingo, 7/9.

A TV continuará sendo burra e banal enquanto permanecer temerosa de apostar na qualidade e na criação. Acomodada a um cenário onde cada parte está cumprindo o seu papel. A Justiça censurando o que já existe; a televisão censurando o que poderia existir.

(*) Jornalista, escritor e diretor de TV

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