Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

PRIMEIRAS EDIçõES > DOMINGO ILEGAL

Censura, esfinge voraz?

Por lgarcia em 07/10/2003 na edição 245

DOMINGO ILEGAL

José Antonio Palhano (*)

Muito bem. Temos sido, nas duas últimas edições deste Observatório, determinados e ferozes combatentes da censura. Ou seja lá o que surja por aí capaz de lembrá-la ou evocá-la ? tudo por conta da suspensão, pela Justiça, de um programa dominical do SBT. Balanço geral, fomos quase uma unanimidade em interpretar o dito episódio como condenável, explícita e extemporânea manifestação de censura, vade retro e pé-de-pato, mangalô, três vezes.

Verdadeira performance de fúria cívica, por mais eloqüente e categórica que tenha se manifestado foi, porém, inesperada e miseravelmente pega no contrapé. Ou no contraponto. Nossos leitores, também em massacrante maioria, manifestaram-se de maneira a não só admitir a ocorrência da censura, como também a clamar pela própria aos brados, com toda a contundência e sentido de urgência que puderam. A coisa se mostrou, aos nossos surpresos e perplexos olhares, digna de uma apologia.

Reconheçamos logo, então, que não somos tão unânimes assim. Ou, se de tal acepção emana suspeitas de burrice, que não estamos com essa bola toda quando se trata de censura. Das duas uma: ou fracassamos abismalmente em identificá-la e defini-la, condenando-a ao eterno e pavoroso mármore do inferno; ou, bem mais grave ? supremo castigo para a nossa geração pré-golpe 64 ?, a bicha aí está, rediviva, faceira e plenamente assimilada pelas galeras mais novas (que estariam a nos achar uns exagerados, próximos da histeria coletiva).

Filhotes de ditadores

Levando-se em conta as enormes possibilidades de que estes mesmos leitores sejam, de fato, majoritariamente jovens, convém buscar exemplos outros dessa ruptura de idéias e valores que permeia faixas etárias distintas, ao menos a fim de espantar tentações maniqueístas. Bem a propósito, vale revisitar a coluna de Merval Pereira do Globo de 2/10, intitulada "Desilusão política". Destrinchando uma pesquisa CNI/Ibope relativa ao governo Lula, o autor prioriza resultados e tendências justo entre os jovens. E interpreta como "tese explosiva" as conclusões da cientista política Maria Celina D?Araújo (CPDOC/FGV), para quem o governo Lula, da maneira como se processa, "tem um lado que representa um retrocesso democrático e ético". E, segue Merval, ela atribui a essa constatação a desilusão dos jovens, que já vinha registrando em seu dia-a-dia antes mesmo da divulgação da tal pesquisa. Em resumo, Maria Celina afirma que "Isso é um retrocesso, pelo fato de ser Lula fazendo isso. Lula era a esperança, principalmente para os mais jovens, a garotada que está votando a primeira vez, a segunda vez".

Pronto. Eis aí a palavrinha: desilusão. Dispensadas avaliações e subjetividades acerca do governo Lula, o buraco é bem mais embaixo. Antes que um leitor mais afoito interprete que se está aqui a tentar definir a censura, e conseqüentemente a tomar partido a seu respeito a partir de critérios típicos de auditórios (mais braços levantados ou palmas batidas que a facção rival) ou de torcidas de futebol (qual delas enche e colore mais o Maracanã em domingo de clássico), impõe-se reconhecer que a malfadada, a efetivamente se crer que tenha voltado, já não assusta mais todo mundo. Ou, no mínimo, investida dos graus fantasmagóricos de contundência com que tentamos nos manifestar aqui nos últimos dias. Bem diferente, além de não assustar é escancaradamente saudada e festejada.

Como seria de uma imbecilidade sem tamanho diagnosticar a irrupção de uma ninhada pestilenta de filhotes de ditadores ou de fascistas fanáticos Brasil afora, ganha força, nem que seja por exclusão, a idéia da desilusão. "O pau está quebrando todo domingo na TV e vocês ficam aí a filosofar sobre censura, ô meu!", parece ser o recado dos nossos bravos missivistas. "Vão à luta, tem que tirar o cara de lá nem que seja na porrada!"

Escravos da retórica

Reflitamos, pois. Sem ceder um milímetro em nossas convicções sobre a liberdade de pensamento e manifestação de opinião, cabe-nos diferenciar expressões semelhantes tais como "sensibilizado" e "hipersensível". Pelo simples motivo de que devemos satisfações e explicações mais acuradas a tanta gente que aqui bateu para nos questionar. Assim posto, a longa e duríssima experiência curtida nos anos de chumbo nos fez sensibilizados contra qualquer ataque à democracia a aos seus valores. Já hipersensível requer uma abordagem, digamos, hipocrática. Trata-se de um defeito clínico, de natureza alérgica, pelo qual nosso organismo, na nobre e sempiterna missão de nos proteger de ataques externos, carrega na mão e produz anticorpos muito além da conta. Com a vênia dos mestres e da academia, é por aí. Ocorre, por exemplo, nas crises de urticária. Uma reles picada de mosquito (benigna, não virulenta) desencadeia uma reação terrível ? e lá vamos nós, empolados e fustigados por torturantes pruridos, rumo ao pronto-socorro mais próximo.

Mesmo que discordemos, é assim que o grosso da galera que se manifestou no Caderno do Leitor do OI nos vê. Hipersensibilizados frente a questões como a desse Gugu e seus desdobramentos jurídicos. E lastimavelmente impotentes para propor soluções no curto prazo. Que se dê vez, portanto, à polícia. Ou ao juiz. E ficamos com a brocha na mão.

Cumpre dizer que tudo se configura bem mais alarmante que um prosaico esvaziamento do nosso discurso e das nossas bandeiras, tipo a reação caridosa e meio debochada com que nossos filhos adolescentes nos brindam frente à nossa linguagem, nossas músicas e nosso jeitão. Esse negócio de aprovar e pedir censura, na verdade, sinaliza diretamente para a hemorrágica e irreparável perda de referenciais em curso. Atingimos um tal grau de promiscuidade social e de especulação financeira que, lançando mão de um exemplo mais visível, pouco ou nada nos sensibilizamos perante a próspera indústria nacional da exploração sexual infantil. Tem nos bastado condenar a favelização sob uma ótica estética, urbanística e policialesca. Fazemos e assistimos a filmes engajados e pronto. Mas a promiscuidade que de lá desce e cá embaixo se espalha feito epidemia, ganhando o mercado consumidor, não nos diz respeito. Escravos da retórica, até já batizamos o monstrengo de turismo sexual, o que de certa forma o legitima. Tudo, afinal, pede apenas identidade (e rótulos).

Quem somos nós, afinal, para definir a censura, indagam as cartas. Melhor a gente decifrá-la logo, ou os mais novos (e não os generais de antanho) nos devorarão sem dó.

(*) Jornalista e médico

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