Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ZERO HORA

Central de recados da RBS

Por Gilmar Antonio Crestani em 20/06/2001 na edição 126

ZERO HORA

A Página 10 do jornal Zero Hora, assinada pelo jornalista José Barrionuevo, tão criticada quanto lida, já rendeu teses e ações judiciais. Algumas já transitadas em julgado, condenando-o. Nenhuma dedicada aos "bons serviços" prestados à informação.

Batizada de "central de recados", só não é criticada pelos peemedebistas ? com justa razão, diga-se de passagem.

Como "muro das lamentações", o colunista se eximia de palpitar, apenas publicava. A troca de jornal, da Caldas Júnior para a RBS, teve como pivô o atual chefe da Casa Civil, Flávio Koutzi, que o denunciou por irregularidade no exercício de assessoria na Assembléia Legislativa gaúcha. De moderado, passou a franco atirador a partir da campanha eleitoral de 1994.

Desde então vem repercutindo as notas disparadas pelas assessorias de imprensa dos deputados peemedebistas, mas já não mais passivamente. Destruído o templo peemedebista, não apenas pela entronização do capo Jader Barbalho em nível federal, mas também pela incorporação à famiglia da máquina partidária do gaúcho Eliseu Padilha, viu-se obrigado a fazer as vezes de bancada, partindo para a pancada.

O que para um exímio humorista poderia figurar apenas como ironia, nas mãos inábeis viram puro sarcasmo. Enquanto a ironia brota de um certo desconforto que causa ao interlocutor, por algo exterior a ele, o sarcasmo é a escada dos mal-humorados. Não é apenas diferença de humor, mas de maldade.

Não é segredo para os gaúchos que a RBS bateu continência ao lado do então candidato à reeleição Antônio Britto, batizado pelos adversários de "cavalo do comissário". Aquele que, por ser do comissário, "tem de ganhar" por qualquer meio. Dentre tantas intrigas, uma dizia que Olívio Dutra era "cachaceiro". Gostava de bebida de álcool. Outra falava do "perigo vermelho", numa espécie de macarthismo pampeano: "Se o Olívio ganhar terás de dividir teu terreno com o pessoal do MST". Essa mesma piada já havia sido feita em Porto Alegre, em 1988. Sem sucesso. O mote atual dos adversários do atual governo é bater, para, só então, pedir trégua, menos ideologização da política.

Quem quiser conhecer o Cláudio Humberto da RBS basta ler a coluna virtual <http://zh.clicrbs.com.br/coluna/joseb/pagina1.htm>. Pode-se ler aí o estilo bateu-levou que caracterizou o ex-porta-voz do Collor. As mesmas pequenas notas, no estilo USA Today, recheadas de bílis.

Inesperadamente, e contra todas as previsões e expectativas da elite econômica gaúcha, Antonio Britto foi derrotado. Até hoje a derrota não foi assimilada. Não por acaso, o colunista da RBS semeia frases do tipo: "Olívio nem ficou vermelho!" Ou, para chamá-lo de distraído, em assunto que apenas o colunista reputa importante: "Olívio bebeu essa". Às vezes, por pura aleivosia: "O que faz um marxista numa procissão religiosa?" Sendo que vermelho e comunista são usados como sinônimos.

Esse parece ser o recurso e o método que tornam propícia a reunião de interesses da empresa e de seus jornalistas. As mesmas afinidades atraem um elenco de colaboradores da estirpe de um Olavo de Carvalho e de um José Barrionuevo, na RBS, da mesma forma que no Estado de S.Paulo era possível a existência de um Pimenta Neves. A atração fatal não é mera coincidência. E a leitura se faz também pela eloqüência de escusados silêncios. A conjunção de interesses torna possível esse acumpliciamento na infâmia, de que a RBS é hospedeira, useira e vezeira. Um cartesianismo obtuso. As facilidades fizeram brotar o estilo, e a escola prospera desde a véspera da última eleição para o estado, quando o magistrado do Palácio do Planalto ditou a jurisprudência:


"O Rio Grande hoje tem um projeto, um projeto de crescimento, de desenvolvimento, liderado pelo governador Antonio Britto. Esse projeto tem que ir adiante e eu como presidente da República vou continuar apoiando o projeto de Antonio Britto. No Rio Grande, quanto mais afinidade houver entre o governador e o presidente da República, melhor para o Brasil, melhor para o Rio Grande. Eu serei sempre partidário daquilo que for bom para o Rio Grande, mas farei com maior facilidade se o governador for Antonio Britto."


A mais recente é deste domingo (17/6/2001): "Agora já temos o jogo do bicho informatizado (www.lotericaweb.com.br), sem sair de casa, sob o olhar complacente das autoridades. Afinal, se houver propina, vai para a área social. O fim justificaria os meios". Como Goebbels, repete uma mentira mil vezes para fazer dela uma verdade.

Já apontei em outra oportunidade, neste Observatório [ver remissão abaixo]. Um delegado declarou que "teria ouvido dizer" que o dinheiro do "jogo do bicho" seria utilizado em obras assistenciais pela primeira-dama Judite Dutra. O veneno, mesmo em pequenas doses, acaba, no mínimo, manchando reputações. E quem as desfará? O secretário de Justiça José Paulo Bisol, outro desafeto da RBS e do estafeta da Página 10, ganhou R$ 1.191.088 pelos danos causados à sua imagem pela RBS, mais as despesas advocatícias de R$ 178.663,20. Mas nem todo esse valor fará com que as pessoas que leram as matérias caluniosas da RBS tenham conhecimento de sua tardia condenação. Quem as informaria? A RBS? Afinal, a RBS não tratou de desfazer a imagem que havia vendido a respeito do ex-candidato a vice na chapa encabeçada por Lula, em 1994. Seus leitores sequer tomaram conhecimento.

Da mesma forma, para usar um caso de maior repercussão na mídia, alguém consegue admitir que a condenação do Estado no episódio da Escola Base, em São Paulo, trará de volta o sono e a dignidade do casal acusado? Quando os partidos de oposição utilizam tais expedientes, estão usando de um papel legítimo dentro de um regime democrático. Afinal, oposição é para isso mesmo, azucrinar com o governo de turno. Regra que vale para as três esferas: municipal, estadual e federal. Que a RBS, por moto próprio ou por seus cabeças-de-bagre, se invista de oposição política ao governo do estado são outros quinhentos.

Usar de antolhos, direcionando os holofotes apenas para num sentido, não faz sentido. Não é só ridículo o comentarista Rogério Mendelski, no rádio e na TV, cobrar greve do CPERS, e exultar de alegria quando este sindicato devolve as propostas do governo do estado num saco de lixo. É, no mínimo, hipócrita. Os funcionários públicos federais estão há seis anos sem qualquer aumento. Nenhum comentário. Quando os funcionários da Empresa Trensurb, subordinada ao ministro dos Transportes, o gaúcho Eliseu Padilha (PMDB), entram em greve, sai ainda de camisola para vociferar no programa vespertino contra os grevistas. Afinal, milhares ficam sem transporte, justifica. Sem transporte para ir trabalhar é falta grave. Sem professores para estudar, tudo bem. E assim caminha o cartesianismo beócio da RBS.

Na dia 15/6, a "central de recados", fazendo jus à alcunha, despacha: "O programa Fala PMDB estará hoje em Encantado e amanhã em Carazinho". Para arrematar a página daquele dia, outra pérola da Pandora da RBS dizia: "O empresário olhava insistentemente para o relógio, tinha vôo marcado, e Olívio continuava fazendo o que mais gosta, charlando e charlando". O engraçado nesse episódio é que o repórter escalado pela RBS para acompanhar a viagem do governador Túlio Millmann não corroborava o expediente do recadista. Aliás, o Correio do Povo, que costumeiramente não se alonga nas matérias, vem cobrindo a viagem do governador à Europa com muito mais informação. À RBS, em contrapartida, faltam palavras.

Devem ter se acometido da mesma síndrome do saudoso professor Celso Pedro Luft, que no dia do lançamento de seu dicionário declarou: "Não tenho palavras!"

Escondido
na escuridão
?
Gilmar Antonio Crestani

    
    
                     

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