Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Chagas não cicatrizadas

Por lgarcia em 20/10/2000 na edição 100

"Marta x Maluf", Editorial, copyright Folha de S.Paulo, 15/10/00

"Conforme sua tradição, a Folha não endossa nenhuma das candidaturas que disputam o segundo turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo. Seria desnecessário reafirmar princípio editorial arraigado na prática deste jornal se a conjuntura política paulistana não fosse tão incomum. Convergem para a candidatura do Partido dos Trabalhadores manifestações maciças de apoio dos mais variados setores da sociedade civil.

Existem razões para isso. O malufismo é o fiador dos últimos oito anos de calamitosa administração municipal em São Paulo. Durante o período em que a corrente deu o tom no Legislativo e no Executivo da cidade, desfilaram pelo noticiário obras suspeitas, endividamento irresponsável, precatórios malversados e uma onda sem precedentes de escândalos de corrupção.

Contra Maluf no segundo turno, o ambiente convida à formação de uma frente calcada na idéia da recuperação moral da administração pública na cidade. De um ângulo imediato, poderia até fazer sentido uma adesão da Folha a essa congregação de forças. No calor dos fatos, a maioria dos leitores provavelmente chancelaria uma atitude desse tipo.

Mas é a perspectiva de longo prazo que faz este jornal recusar-se a apoiar qualquer candidato em pleitos que estejam ocorrendo dentro da normalidade democrática. É legítimo direito de outros veículos optar por engajar-se nesta ou naquela candidatura e, ao fazê-lo, estão amparados pela liberdade de expressão consagrada na Carta de 88. Mas a Folha continua a sustentar que o exercício de um jornalismo de fato independente e crítico pressupõe um drástico desatrelamento em relação a grupos, partidos e candidaturas.

Quando se confunde com forças que têm por objetivo controlar o Estado, o jornalismo arrisca-se a se descaracterizar como fonte independente de informação, a fazer de seu potencial crítico um mero instrumento para submeter grupos adversários. Manter-se distanciado do jogo dos partidos é uma garantia a mais de que nenhum deles será poupado de crítica e de investigação quando houver interesse jornalístico.

Mas não seria correto confundir apartidarismo com omissão ou neutralidade. Este jornal pretende assegurar tratamento igual a ambos os finalistas em termos de espaço e visibilidade no noticiário.
Nem por isso se deve esquecer que o malufismo encarna as piores tradições da política paulista: do engajamento com o regime militar no passado ao rol de irregularidades sempre mal-esclarecidas; da opção por obras caras e de impacto ilusório à praxe de adotar métodos de aliciamento clientelista e de promoção personalista do ‘chefe’ -não há nada nessa vertente política que a reconcilie com uma concepção democrática, civilizada e humanista de gestão pública.

Ao mesmo tempo, a perspectiva apartidária permite ver com saudável cautela a alternativa que no momento galvaniza apoios oriundos de quase todo o espectro político. Marta Suplicy ainda é apenas uma promessa a ser testada em circunstâncias que, tudo indica, serão difíceis.
Sem qualquer experiência executiva, ela terá, se eleita, de se haver com o legado de dívidas bilionárias numa metrópole em que o poder público não dá conta da enorme demanda por serviços e investimentos. Caso se confirme, como tudo faz crer, a disposição atual do eleitorado, terá sido eleita por um partido que, até agora, tem inviabilizado sistematicamente as gestões dos candidatos que consegue levar ao poder.

Com o distanciamento que a posição apartidária propicia, a Folha deseja preservar suas faculdades de fiscalização e crítica voltadas para ambas as opções em jogo, embora reconheça que existem diferenças importantes e qualitativas entre elas."

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