Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA NA MÍDIA

Chris Cramer

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

GUERRA NA MÍDIA

"Seqüestrando a internet", copyright Gazeta Mercantil, 28/09/01

"Com a América e seus aliados se preparando para a guerra contra o terrorismo, um outro conflito perigoso está sendo travado. É a guerra da internet, que se tornou uma batalha cheia de ódio, desinformação e cinismo.

Em questão de horas após os seqüestros e ataques terroristas em Washington e Nova York no dia 11 de setembro, um outro tipo extremamente preocupante de seqüestro estava acontecendo por meio da Internet e do e-mail.

Grupos jornalísticos respeitados como a CNN e a Reuters se tornaram alvo do conflito que, neste caso, teve suas raízes em uma universidade no Brasil. E pode ser considerado o mais sério exemplo até hoje de quão inescrupulosamente as pessoas usam uma ferramenta fácil como o e-mail para seus próprios propósitos cínicos.

No caso da CNN, depois dos ataques ao Pentágono e ao World Trade Center, nós, assim como outras muitas emissoras ao redor do mundo, exibimos uma breve seqüência mostrando alguns palestinos na região ao leste de Jerusalém, incluindo crianças, celebrando a tragédia. Era um vídeo chocante – fornecido pela agência Reuters Television – e foi claramente usado para ilustrar um dos lados mais amargos da reação internacional.

O que parece um simples e ingênuo comentário colocado numa sala de bate-papo online por um estudante da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que fez graves alegações sobre a autenticidade das imagens, transformou-se em tentativa de macular nossa reputação.

Tão chocante quanto os comentários do estudante foi a repercussão produzida por pessoas com objetivos ainda mais sinistros. Assombra-nos o desrespeito quase total pelos padrões jornalísticos normais por parte de grupos que se definem como ?mídia alternativa?, que publicaram o boato sem checar apropriadamente com a CNN ou a Reuters.

Um deles, o web site Indymedia.org, declara: ?Indymedia é um meio de comunicação democrático para a criação de histórias verdadeiras, radicais, acuradas e apaixonantes.? Este site colocou a seguinte informação em sua sala de bate-papo em 12 de setembro, um dia após os ataques:

?CNN usa imagens de 1991 mostrando palestinos celebrando para manipular você.

Data: quarta-feira, 12 de setembro, 22h32.

Em todo o mundo estamos submetidos a 3 ou 4 grandes distribuidores de notícias, e um deles, como você bem sabe, é a CNN. (…) Acho que todos vocês têm visto (assim como eu) imagens desta companhia. Em particular, uma seqüência de imagens chamou minha atenção: os palestinos celebrando o bombardeio, nas ruas, comendo algum tipo de bolo e fazendo caretas para a câmera.

Bem, ESTAS IMAGENS FORAM GRAVADAS EM 1991!!! Estas são imagens dos palestinos celebrando a invasão do Kuwait! É simplesmente inaceitável que uma gigante das comunicações como a CNN use imagens que não correspondem à realidade ao falar sobre um assunto tão sério.

Um professor meu, aqui no Brasil, tem fitas gravadas em 1991, com as mesmas imagens; ele está mandando e-mails para a CNN, Globo e jornais denunciando o que classificou de crime contra a opinião pública. Se algum de vocês tem acesso a este tipo de arquivo, procure por ele. Enquanto isso, eu tentarei ?colocar minhas mãos? em uma cópia da fita.?

?Um crime contra a opinião pública?, palavras fortes, e para as quais foi dado crédito quando colocadas na internet e circuladas sem validação alguma. Não é necessária muita imaginação para perceber o estrago potencial, raiva e perigo que rumores falsos e sem base podem causar.

A ficção se tornou fato, e a CNN foi inundada por telefonemas de telespectadores e jornalistas informando ter recebido um e-mail contendo estas falsas alegações. A CNN rapidamente iniciou seu breve questionamento interno e, em pouco tempo, confirmou a veracidade do vídeo. No comunicado datado de 14 de setembro, a CNN classificou as alegações como ?sem fundamento e ridículas?.

A ele se seguiu o comunicado oficial da Reuters em 20 de setembro: ?A Reuters rejeita isto como totalmente sem fundamento. O videoteipe em questão foi gravado por equipe da Reuters no dia 11 de setembro imediatamente em seguida aos ataques nos Estados Unidos.?

A Reuters também recebeu um comunicado detalhado da Unicamp afirmando que o estudante em questão havia descrito o que seu professor lhe contara em uma sala de bate-papo na internet. Depois de estabelecido que o comentário era improcedente, ele retirou a alegação. O estudante contou à Unicamp que acreditava que seu endereço de e-mail havia sido atacado por um hacker e que vários e-mails com mensagens distorcidas haviam sido enviados em seu nome.

Quando a torrente de telefonemas para a CNN finalmente começou a se acalmar, a história de repente ganhou força mais uma vez com um revés novo e igualmente terrível. Um funcionário importante da BBC supostamente havia confirmado as alegações. No entanto, ao ser contatado pela CNN, negou a confirmação e informou que seu nome, endereço e e-mail haviam sido ?seqüestrados? por pessoas desconhecidas.

A tragédia na América sinalizou uma outra, alegações sem fundamento feitas contra a mídia, tendo a internet como arma. Web sites fictícios da CNN apareceram na semana passada, juntamente com novos boatos, disseminados por e-mail na África do Sul, de que a CNN teria reportado que os ataques foram planejados naquele país.

Ataques por e-mail de grupos de lobby a emissoras e daqueles com interesses específicos se tornaram regra nos últimos anos. Muitos executivos da área de comunicações adquiriram o hábito de mudar seus endereços de e-mail rotineiramente para evitar o ataque diário do ?spam?.

Mas isto foi diferente, isto foi uma tentativa planejada de distorcer as notícias, não apenas lobby sobre certos aspectos dela. O ?cyber terrorismo?, como o terrorismo urbano, é atualmente um acontecimento cotidiano, e é igualmente difícil de ser combatido.

Ironia amarga quando você considera que entre os primeiros a abraçar a internet estavam os militares norte-americanos que visavam a conter desentendimentos civis no caso de uma guerra catastrófica."

 

"Boato nasceu de bate-papo", copyright Gazeta Mercantil, 28/09/01

"Quem conta um conto aumenta um ponto. No caso da internet, as múltiplas possibilidades de anonimato e de recriar histórias sem a responsabilidade de obedecer a verdade podem causar danos não dimensionáveis. No caso do boato contra a CNN, e que envolveu um aluno da Unicamp, a reitoria da universidade informou por sua assessoria de imprensa que não vai se manifestar sobre o assunto, para não dar publicidade à história. Mas distribuiu nota na qual conta o que aconteceu e desmente a versão de que seus técnicos e peritos estariam analisando a suposta fita com as imagens ?fraudadas?.

A nota diz: ?A Reitoria da Unicamp informa que desconhece a existência de uma fita de vídeo datada de 1991, cujas imagens teriam sido veiculadas pela rede de televisão CNN, como de palestinos comemorando os atentados terroristas nos Estados Unidos. Sendo a suposta fita de 91, surgiram logo suspeitas de que as imagens levadas ao ar eram falsas.? Segundo o comunicado, o boato partiu de um aluno da pós-graduação. Márcio A. V. Carvalho, do mestrado de Lógica e Sociologia da Unicamp, teria procurado a direção da instituição no último dia 17 para esclarecer que a mensagem teria partido dele e que não era verdadeira.

Carvalho contou que teria ouvido de uma conhecida, verbalmente, a informação de que um professor de outra instituição de ensino (e não da Unicamp) possuiria uma fita que comprovaria a fraude da CNN. O aluno, então, teria enviado a informação para uma lista de discussão sobre teoria social pela internet. Muitas pessoas retornaram e-mails com pedidos de detalhes. A notícia circulou em todo o Brasil, foi traduzida para vários idiomas e chegou a outros países.

De acordo com o estudante, ele teria procurado novamente a pessoa que lhe passou a informação, que desta vez negou conhecimento sobre a fita. Imediatamente, diz a nota, ele enviou um desmentido para a lista e para todas as outras pessoas que o procuraram. Segundo a Unicamp, a mensagem original teria sido redistribuída para várias partes do mundo, ?com graves distorções?, inclusive em formato de artigo assinado pelo estudante. ?Ele alerta que seu domínio foi hackeado. E-mails têm sido enviados em seu nome e aqueles datados a partir de 15.09.2001 devem ser ignorados?, alerta a universidade paulista.

Por cautela, a instituição diz que não vai mais se pronunciar sobre o assunto. ?A Reitoria considera esse desmentido definitivo, evitando novas manifestações como cuidado para fazer cessar a onda de boatos.?"

    
    
                     
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