Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > FOGO NO XUXA PARK

Christiane Ramalho

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

QUALIDADE NA TV

FOGO NO XUXA PARK

"Incêndio no bastidor", copyright no. (www.no.com.br), 19/01/01

"Falhou o sistema de segurança da Rede Globo no incêndio que, no dia 11, feriu oitenta pessoas no programa Xuxa Park. Não é isso que diz a emissora, mas quem estava lá acha que houve falhas. A iluminação de emergência, por exemplo, era mais fraca do que o recomendável. E a confusão entre as 300 pessoas que tentavam escapar foi ampliada pela escuridão que caiu sobre o estúdio. ‘Ficou um breu completo’, conta a professora Maise Morse Lemos de Matos, que levou cerca de 15 minutos para achar uma saída.

A escuridão a que Maise e o funcionário se referem não se deveu a um desligamento das luzes de emergência. Na cúpula da empresa uma pessoa admite que a potência da iluminação foi mal calculada e por isso incapaz de clarear o local em meio à fumaça. O mau funcionamento dos esguichos de água que deveriam espirrar automaticamente do teto ao primeiro sinal de fogo, no sistema de sprinklers, e a ineficiência da brigada de incêndio foram comentadas por Maise – e confirmadas por funcionários da emissora, que falaram a no. com a condição de não serem identificados.

‘Aquilo virou um inferno’, conta um dos funcionários, que estava dentro do estúdio e afirma que o que viu foi o colapso da segurança do Projac, prédio onde ficam os estúdios da Globo em Jacarepaguá. Ele disse que a falta de máscaras de gás foi apenas uma dos erros da brigada anti-incêndio. Com seis bombeiros e 11 homens de apoio, ela teve atuação quase nula no resgate das vítimas: ‘Se não fosse a ajuda do pessoal das equipes de produção e da técnica do programa, muita gente teria morrido’.

A professora Maise Matos, que se recupera de lesões nos dois pulmões, diz que no meio da correria várias das pessoas em fuga, inclusive ela própria, receberam pingos de água fervendo vindos dos sprinklers no teto. Sinal de que eles não cumpriram sua função de encharcar o ambiente. Na confusão, uma menina de cerca de cinco anos, morena e vestida de odalisca, agarrou-se à sua perna e acabou arrastando-se com ela até a saída, onde chegou desacordada.

A menina conseguiu recuperar-se. Quem ainda não teve a mesma sorte foi o segurança Leonílson Vieira de Oliveira, a vítima mais grave do acidente, com 100% dos pulmões queimados. Segundo um diretor da emissora que acompanhava o resgate, Leonílson saía do estúdio quando recebeu de Marlene Mattos, empresária de Xuxa, a ordem para que voltasse ao foco do incêndio e resgatasse pessoalmente a menina Thamires Gomes Valleja. Leonílson demorou a conseguir soltar a criança de um cinto e uma tranca que a prendiam à roda roda-gigante no palco da emissora, ficando muito tempo exposto à densa fumaça. E Thamires está internada em estado grave.

‘Num incêndio, quando aparece um herói, quer dizer que houve falhas. Se a brigada estivesse bem preparada, não deixaria que os leigos se expusessem daquela forma’, avalia João Oliva, técnico em segurança do trabalho com experiência em grandes empresas, como Meridién, Brahma e Verolme. Para ele, outro erro sério foi a localização da principal porta de emergência, bem atrás do palco, onde estava concentrado o material inflamável. Mas observa que a segurança do Projac acertou ao trancar essa porta, evitando que as pessoas se dirigissem para lá.

O fogo começou por volta das nove da noite no topo da réplica de nave espacial, e se espalhou com velocidade impressionante, devido ao material altamente inflamável usado no cenário – principalmente resina, polietileno, gelatina líquida e vinil, segundo o Instituto Carlos Éboli. A própria Xuxa escapou por pouco. No instante seguinte entraria na nave que virou uma bola de fogo e poderia matá-la. Também teve sorte a cantora Daniela Mercury, que se preparava para entrar em cena quando o incêndio começou. Nada sofreu. Um diretor da Globo confirma que jamais recebeu qualquer instrução sobre o tipo de material a ser utilizado nos cenários. ‘Não existe nenhuma espécie de manual com normas nesse sentido’, admite.

A professora Maise Matos, 40 anos, tinha chegado ao estúdio por volta das quatro da tarde, com o filho Eduardo, de 11 anos. Na sala de espera, chegou a assistir – ‘meio de banda’ – a um vídeo com instruções de segurança, que ninguém ali parava para olhar. A gravação começou duas horas depois e estava terminando quando o fogo começou. Na confusão, ouviu Xuxa gritar ‘corram, crianças’. Mas nem todas reagiram imediatamente. Aquilo a princípio parecia mais uma brincadeira do programa.

Maise e seu marido, o engenheiro Fernando Matos, de 44 anos, elogiam a atenção que receberam da Rede Globo depois do incêndio. Não se queixam da emissora, mas acreditam que uma parte dos riscos poderia ser evitada. ‘Tenho dúvidas se realmente a brigada de incêndio estava tecnicamente preparada para lidar com um incêndio provocado por esses materiais’, diz Fernando.

Inaugurado há apenas cinco anos, movido a alta tecnologia em cenografia, equipamentos audio-visuais e infra-estrutura, o Projac é o maior complexo de televisão da América Latina. Custou mais de 120 milhões de dólares e tem 1,3 milhão de metros quadrados, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. O estúdio F, que pegou fogo, é apenas um dos seis estúdios, com mil metros quadrados e pé direito de doze metros. Destina-se à gravação de shows.

Na sexta-feira, oito feridos continuavam internados, quatro em CTI. A Rede Globo negou o mau funcionamento da segurança e que Leonílson tenha recebido ordem para voltar ao meio do fogo e resgatar uma criança. Segundo a emissora, sua atitude foi espontânea. (colaborou Julio Ludemir)"

"A vaca, o frango e o fogo", copyright Valor Econômico, 19/01/01

"É um universo regido pelo narcisismo, pela fixação nas partes, grosseria e boçalidade. Não, esta ainda não é a parte do texto que trata da Xuxa, mas sim de ‘A Vaca e o Frango’, desenho animado exibido pelo Cartoon Network (de segunda a sexta às 13h e 21h30). Nele, dois irmãos, uma vaca de uns 9 anos e um frango de 11, vivem às turras com o Bum Defora, criatura meio diabólica, vermelha e de rabo pontudo, que sempre procura enganar os pais da vaca e do frango. Os pais, que misteriosamente são humanos, só aparecem desenhados da cintura para baixo.

O absurdo do elenco, que também inclui o primo Frango Desossado, estende-se aos enredos sem pé nem cabeça e falas sem sentido. O traço do desenho é exagerado, e as personagens são grotescas – a vaca tem narinas, lábios e tetas enormes, o Bum Defora está sempre com as nádegas à mostra e o Frango é um minicafajeste de bico e pescoço exagerados.

Apesar disso tudo há encanto e graça nesse universo delirante, que capta em desenho preocupações e angústias da infância. Mais precisamente, da segunda metade da infância, que se estende dos 8 anos à puberdade e é marcada pelo sadismo anal. Com essas chaves oferecidas por Freud em ‘Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade’, livro de 1905, os cacos de sentido começam a compor um mosaico sobre essa fase do desenvolvimento humano, com suas fixações em torno do intestino. Assim, não surpreende que nesse mundo tênia solitária seja nome de um brinquedo, que a vaca tenha um bichinho de pelúcia chamado Totô, o ursinho fedido, ou que um personagem se vanglorie de saber soltar pum. Nem causa estranheza que, em visita ao escritório onde o pai trabalha, a vaca apareça sentada numa máquina de xerox, enquanto o frango, enlouquecido, tira cópias da bunda da irmã.

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, o universo amalucado de ‘A Vaca e o Frango’, que o cartunista californiano David Feiss inventou para embalar sua filha de 6 anos, trata a infância com mais propriedade e honestidade do que todas as loiras da TV jamais foram capazes.

Fogo na nave

Xuxa, a sedutora habilidosa que com seus ‘inhos’ e ‘inhas’ manipula crianças para vender badulaques, esforça-se para mostrar que superou seu infantilismo e já é capaz de perceber e respeitar a dor alheia. Depois do incêndio que teve início na nave do Xuxa Park, a apresentadora tem feito visitas diárias ao hospital. Em seu portal na internet, procura mostrar ao público sua compaixão, pedindo ‘a todos os internautas que se unam numa corrente positiva de oração e fé pelas vítimas do incêndio’.

O fato, extremamente triste e lamentável, é, no plano simbólico, muito auspicioso. Xuxa, esse mundo em ruínas que passou a semana exibindo seu novo corpo em capas de revista, teve sua imagem de musa do verão 2001 definitivamente chamuscada. O sábado passado amanheceu sem o Xuxa Park. Talvez seja o prenúncio do mundo melhor apregoado por outra empulhação monumental, também travestida de filantropismo, chamada Rock in Rio. Mas essa já é uma outra história."

"Incêndio no ‘Xuxa Park’ atrasa decisões na Globo", copyright Folha de S. Paulo, 18/01/01

"Primeiro, em novembro, foi o cerco judicial à novela ‘Laços de Família’, que foi proibida de usar menores em suas gravações. Agora, é o incêndio no estúdio F do Projac, dia 11, durante as gravações do programa ‘Xuxa Park’.

Os dois incidentes mobilizaram a cúpula da Globo e acabaram atrasando a decisão sobre as novidades da programação de 2001 da emissora, que estréia em abril.

A nova linha de programas da emissora, que deveria ter sido escolhida em novembro ou início de dezembro, ainda é uma incógnita até para diretores de núcleo da Globo. Não se sabe, por exemplo, se o ‘Você Decide’ volta e se Regina Casé terá mesmo um novo programa. Se fosse reestrear em abril, o ‘Você Decide’ já deveria estar em produção. O programa de Cazé já deveria estar em testes.

Assim, a Globo deverá improvisar. A sitcom ‘A Grande Família’, que seria um programa de férias, deverá permanecer na grade. ‘Brava Gente’, especial de fim de ano, deverá se tornar programa fixo -ainda não está definido se será mensal ou semanal.

A estréia de ‘A Grande Família’ foi adiada para 13 de fevereiro. Motivo: a protagonista será Marieta Severo, que até o final do mês grava ‘Laços de Família’.

Chuvisco 1

A Globo decidiu tirar temporariamente do ar os programas de Xuxa. O ‘Xuxa Park’, que na semana passada foi substituído por desenhos, não será exibido amanhã. O ‘Planeta Verão’ de domingo deverá dar lugar a um filme.

Chuvisco 2

A emissora, Xuxa e Marlene Mattos acham que não fica bem exibir os programas enquanto vítimas do incêndio do dia 11 permanecem internadas.

Guerrinha

Em apenas três dias, caiu pela metade a audiência do ‘Superpop’, da Rede TV!. O programa de Luciana Gimenez estreou com 4 pontos e, anteontem, deu só 2. Na quarta, chegou a apanhar de 12 pontos a 1 do ‘É Show’, de Adriane Galisteu, na Record.

Concorrência

Marina Filizola, a Internética do ‘Superpositivo’ (Band), fez teste para ser apresentadora do ‘Erótica’, da MTV. Ela tem contrato com a Bandeirantes até setembro.

Descarte

Dos 12 participantes do novo ‘No Limite’, apenas um foi escolhido entre as 40 mil pessoas que se inscreveram pela Internet. Os outros 11 foram ‘garimpados’ pela produção"

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