Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > O CASCATEIRO

Cicatriz aberta

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

O CASCATEIRO

Felipe Lemos (*)

O jornalismo, quem diria, o dito quarto poder, também leva seus golpes duros. E depois que o golpe machuca fica uma cicatriz aberta e uma lição para aprender. Uma ou duas ou até mais. A última das grandes chagas foi no jornalismo americano, eterno referencial para outros países. Mesmo lá, na terra de onde saem tantos exemplos para o planeta e de onde se dita moda, cultura e lazer, as “pisadas na bola” também ocorrem e nos convidam à reflexão.

Para alguns pareceu incrível, mas o mesmo jornalismo que já abrigou reportagens dos repórteres investigativos do Washington Post sobre o escândalo que derrubou Nixon também acolheu uma figura exótica e irresponsável como Jayson Blair, o mentiroso do New York Times. Réu confesso, Blair admitiu ter utilizado a criatividade para conceber invencionices em seus textos. Em outras palavras, criou fatos, pessoas, diálogos, situações sem o menor constrangimento e qualquer ética. Assumiu a máxima de que “o papel aceita tudo”. Lamentável que não estivesse escrevendo um romance ou contos, mas matérias para uma das maiores e mais importantes publicações diárias do mundo.

Enquanto teóricos, editores, acadêmicos e outros juntam os cacos e tentam mensurar o estrago, o episódio de Blair (que escrevia no jornal desde 1998 e foi demitido há poucos dias) enseja a oportunidade de analisarmos a fragilidade de instituições como o jornalismo. Quando algo assim acontece surgem diversas indagações: onde estava o editor? Como ninguém checava o que ele trazia para a redação? Quem vai pagar pelas mentiras propagadas?

Brecha para imposturas

Talvez uma pergunta que deveria ser apropriadamente feita agora: o que contribui para que situações vergonhosas como essa aconteçam? Inventar matérias e publicá-las num jornal é tão grave (sob o ponto de vista de responsabilidade profissional) quanto um médico esquecer um bisturi no corpo de um paciente ou de um engenheiro aprovar a construção de um prédio sem alicerces.

Depois da cicatriza aberta, resta esperar que feche o mais rápido possível. Cabe precaução antes que novas feridas apareçam. A frenética preocupação da mídia em geral em obter resultados imediatos e a perda do sentido original do jornalismo (informar com responsabilidade) são realidades que podem ser relacionadas ao caso Jayson Blair. Talvez não seja o caso específico do New York Times, mas quem garante que embustes como esse não ocorram em redações no Brasil, por exemplo, sem que ninguém saiba?

Em tempos de agilidade, versatilidade e dinamismo no envio e no recebimento de informações, preceitos básicos de precisão e responsabilidade parecem ter desaparecido. A velocidade esmagou a qualidade e ficamos espantados quando gente como Jayson Blair diz que inventava matérias. A tal da &eacueacute;tica, da qual tanto se fala em maravilhosas teorias defendidas pelos maiores nomes da comunicação, acaba encerrada num documento ou num livro técnico.

A preocupação de alguns editores se resume, em muitos veículos, a meras adaptações às regras dos manuais, e o rigor de uma informação genuína cai por terra. A correria do fechamento justifica erros, descuidos e irresponsabilidade de todo tipo. Portanto, antes de condenarmos ao paredón nosso amigo Jayson Blair olhemos para a realidade que nos cerca e verifiquemos se o jornalismo brasileiro não proporciona continuamente brechas preocupantes, que possibilitam imposturas.

(*) Estudante de Jornalismo em Florianópolis

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