Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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PRIMEIRAS EDIçõES > GLOBO EM CRISE

Cidade Biz

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

GLOBO EM CRISE

“Globopar anuncia moratória por 90 dias e busca investidor”, copyright Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br), 28/10/02

“Foi um duro golpe para o governo de Fernando Henrique: no mesmo dia em que o oposicionista Luiz Inácio Lula da Silva fazia seu primeiro pronunciamento como presidente eleito, a Globopar, empresa holding da família Marinho, anunciou a moratória de suas dívidas. Os dois eventos têm em comum apenas o fato de que ambos, de alguma forma, foram apanhados pela enorme crise econômica resultante da política econômica do governo Fernando Henrique.

Lula colheu os votos da insatisfação e se elegeu com um discurso mudancista, confirmado em pronunciamento de vitória. A Globopar colheu tudo o que de pior a política econômica em curso foi incapaz de evitar: a desvalorização maciça do real, onerando o seu passivo em dólar, o encurtamento do crédito no Brasil e no exterior, o aumento dos juros e a estagnação da economia, que tem sido particularmente severa sobre as receitas de publicidade.

A queda da Globopar, que não será acompanhada pela TV Globo – empresa distinta, embora também tenha a família Marinho como acionista controlador -, é a maior reestruturação de dívida privada no país desde a moratória da operadora de celular BCP, de US$ 375 milhões, decretada em março deste ano. A nota oficial da Globopar não especifica o volume de dívida sujeita à reestruturação dos pagamentos, mas o balanço da empresa acusa um passivo de R$ 2,6 bilhões, em números de junho.

?Apesar dos esforços da empresa e de seus acionistas para gerenciar a dívida da Globopar, por meio de significativos aportes de capital, a deterioração do ambiente macroeconômico evidenciou a necessidade de reavaliar o cronograma de pagamento da dívida?, afirma no comunicado oficial o presidente da Globopar, Ronnie Moreira. Segundo a nota, os acionistas da companhia investiram mais de US$ 170 milhões na holding, que envolve os negócios dos Marinho em TV paga, internet, gráfica e publicação de revistas, nos últimos seis meses. Mas não foi suficiente para compensar o impacto da desvalorização cambial do período.

?No contexto deste processo de reavaliação?, continua o comunicado, ?a Globopar e algumas de suas empresas controladas estão procedendo a uma revisão de seus planos de negócios, com ênfase na melhora da geração de caixa?. Em seguida, o texto informa que a holding e algumas de suas empresas controladas irão reescalonar o fluxo de pagamentos de suas obrigações de caráter financeiro. ?A Globopar espera dar novas informações sobre esse processo de reavaliação nos próximos 90 dias. A TV Globo Ltda. é garantidora de uma parte das dívidas de caráter financeiro da Globopar?, diz a nota.

O texto também informa o plano da família Marinho de atrair investidores estrangeiros, saída para levantar recursos e sanear suas finanças. ?A Globopar contratou a Goldman Sachs & Co. e Houlihan Lokey Howard & Zukin Capital para assessorá-la no processo de reavaliação e para atrair investidores?, afirma o comunicado. ?Debevoise & Plimpton e Barbosa, Müssnich e Aragão estarão prestando assessoria jurídica à Globopar?, prosssegue. ?Além disso, o Unibanco atuará nesse processo prestando assessoria especializada com relação ao mercado brasileiro.?

A frustração com os negócios de TV paga e a disparada do dólar este ano são as principais chagas da Globo, que informou à assessoria do presidente eleito, com antecedência, o que iria fazer. A TV Globo, porém, segue firme, segundo informa na nota o presidente da emissora, Roberto Irineu Marinho. ?A performance da TV Globo continua sólida, apesar das difíceis condições econômicas atuais?, diz Roberto Irineu. ?A TV Globo continua revendo suas operações, visando a identificar oportunidades para melhorar sua geração de caixa, mantendo sua posição de líder baseada na alta qualidade de suas produções nacionais?, diz.

A notícia caiu como uma bomba sobre as empresas de mídia, agências de publicidade e grandes anunciantes. Todos sabiam que a Globo era uma das empresas brasileiras mais prejudicadas pela desvalorização do real. Desde 1994, início do primeiro governo de Fernando Henrique, a empresa confiou além da conta nos estímulos que o governo dava para que os grupos brasileiros buscassem financiar suas necessidades de capital no exterior. Quando o processo mudou de sinal, a partir da maxidesvalorização, em janeiro de 1999, a direção do grupo demorou para tentar pelo menos trocar o seu passivo em dólar por dívidas em reais.

O ano de 2000, excepcional para a publicidade, aparentou para muitos, e talvez para a Globo também, que a economia brasileira iria entrar num círculo virtuoso de crescimento, afastando qualquer ameaça de crise cambial. Deu tudo errado. Os Marinho correram para o BNDES, praticamente único financiador de última instância no país, mas já era tarde. De um lado, começava a campanha eleitoral, o que tornaria suspeita a abertura dos cofres de um banco estatal para uma empresa de mídia e, de outro, se o governo atendesse a Globo, teria de atender também pelo menos mais uma dúzia e meia de empresas endividadas em dólar, como CSN, Embratel, BCP, Klabin e Eletropaulo.

Quem pôde, fez hedge e amenizou o impacto do dólar caro. A Globo não pôde, pois hedge é uma operação cara, e suas dificuldades só fizeram crescer. Em sendo o grupo de mídia dominante do país, havia um consenso no mercado que jamais o governo deixaria a Globo chegar a uma situação extrema de ter que jogar a toalha e chamar a banca para confessar: ?devo, não nego, pago quando puder?, segundo o velho dito do mercado. Com a notícia divulgada no final da tarde desta segunda-feira, um frio correu a espinha das empresas do ramo, muitas outras como a Globopar, igualmente carregando passivos onerosos e sem sinal de reversão deste quadro de dificuldades no curto prazo.

Já há quem fale na necessidade de tão logo assuma, o futuro presidente Luís Lula da Silva anuncie uma espécie de Proer para as empresas de comunicação brasileiras, assim como está em montagem o resgate das companhias aéreas. O fato é que, ou empresas como Globopar abrem seu capital para investidores estrangeiros, ou o governo abre as portas do BNDES, ou só restará o caminho da concordata. Conforme a nota que fez distribuir, a família Marinho já se decidiu pelo caminho do capital estrangeiro. O que não se sabe é se este capital, que no mundo inteiro também encontra um cenário de frustrações nos setores de mídia e entretenimento, se sentirá encorajado a entrar no Brasil com a economia performando à meia bomba, com uma moeda se liquefazendo e com os juros na estratosfera.”

“Globopar diz que vai ?reescalonar? dívida”, copyright Folha de S. Paulo, 29/10/02

“A Globopar Comunicações e Participações, holding da família Marinho que controla empresas de comunicação, como a Net (antiga Globo Cabo) e a Globo.com e a Editora Globo, anunciou ontem uma moratória, com o reescalonamento do fluxo de pagamentos da sua dívida financeira.

A empresa diz que a medida é decorrente da ?significativa desvalorização do real e da deterioração das condições econômicas do Brasil?.

De acordo com o comunicado, distribuído no começo da noite pela empresa, o reescalonamento é parte de uma reavaliação da sua estrutura de capital.

?A Globopar espera dar novas informações sobre esse processo de reavaliação nos próximos 90 dias?, afirma.

A dívida sujeita à moratória, de acordo com a assessoria de imprensa da Globopar, é de US$ 1,5 bilhão, sendo US$ 900 milhões em bônus.

A assessoria de imprensa da Globopar informou que a suspensão dos pagamentos foi feita em meio a um processo de renegociação dos débitos com os credores. Informou ainda que as dívidas da Net estão fora do reescalonamento.

Investimento

A nota afirma que a TV Globo Ltda., empresa que engloba as emissoras de televisão aberta do grupo Globo e que não faz parte da empresa de participações, ?é garantidora de uma parte das dívidas financeiras da Globopar?.

Segundo a assessoria, isso não significa que ela seja afetada pela suspensão dos pagamentos. A TV Globo, a Infoglobo (controla o jornal ?O Globo?) e o Sistema Globo de Rádio não fazem parte da Globopar.

Segundo o documento, a família Marinho investiu nos últimos seis meses ?mais de US$ 170 milhões? na Globopar, mas não conseguiu reverter o quadro de dificuldades.

?Apesar do forte apoio financeiro dos seus acionistas, a contínua desvalorização do real e a significativa redução do crédito disponível no mercado para as empresas brasileiras vêm onerando de forma significativa a dívida em dólares da Globopar?, diz o texto divulgado ontem.

A nota diz também que ?a Globopar já começou a conversar com alguns credores? e que as empresas Goldman Sachs & Co. e Houlihan Lokey Howard & Zukin Capital foram contratadas para assessorá-la na reavaliação dos ativos e na atração de investidores. Em relação ao mercado brasileiro, a assessoria será do Unibanco.

Em junho deste ano o grupo Globo anunciou a criação da Globo S.A., que deveria englobar todos os investimentos do grupo e substituir a Globopar.

Ela seria presidida por Henri Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobras que assumiu no começo deste ano a presidência da Globopar.

Em setembro, o grupo anunciou a saída de Reichstul do cargo e a suspensão do processo de criação da Globo S.A.

A Globopar passou a ser apenas uma holding financeira, presidida por Ronnie Vaz Moreira, levado por Reichstul para ser o diretor financeiro da empresa.

Assembléias canceladas

Ontem, foram canceladas duas assembléias de acionistas da Net que deveriam tratar do fechamento da reestruturação da dívida da empresa, de aproximadamente R$ 1,1 bilhão.

A assembléia de acionistas que deveria aprovar as propostas a serem levadas aos credores foi interrompida e deverá prosseguir amanhã.

Em comunicado à Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), a Net diz que as propostas ainda se encontram ?em fase de análise e de definição?.

De acordo com o que a Folha apurou, a Globo decidiu anunciar a suspensão do pagamento da dívida da Globopar apenas ontem, um dia depois do resultado das eleições presidenciais, para que isso não fosse usado por nenhum dos dois lados da campanha eleitoral.

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) recentemente deu apoio para a Globocabo.

Mesmo assim, o BNDES só entrou com pouco mais de R$ 30 milhões na operação de emissão de debêntures. O ingresso maior de capital foi da própria Globo, que injetou R$ 600 milhões na empresa. Colaborou Guilherme Barros, do Painel S.A.”

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