Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Ciência e globalização

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

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OFJOR CI?NCIA

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FÓRUM MUNDIAL-FÓRUM SOCIAL

Ulisses Capozoli (*)

Enquanto durarem, e mesmo depois disso, os debates do Fórum Econômico Mundial, em Davos, e o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, serão, por algum tempo, o foco de interesse da imprensa. Mas, pelo que foi publicado até agora, é de se esperar que em nenhum dos dois casos a mídia se dê conta de que, por trás do processo de globalização, estão a ciência e sua materialização no cotidiano do mundo ? a tecnologia. Não identificar a presença do conhecimento científico na alteração das relações tradicionais entre as nações do planeta certamente é um desastroso empobrecimento da compreensão da globalização.

Comecemos pelo século 16. Toda uma corrente de historiadores, dentro e fora de Portugal, aceita que as chamadas viagens de descobrimentos, iniciadas com a conquista de Ceuta, no norte da África, em 1415, é a raiz mais antiga do que pode se chamar de globalização. Neste sentido, globalização é o processo de interação econômico-cultural entre nações que, antes disso, estavam isoladas.

Os portugueses andavam atrás de especiarias, exigências de um mercado que se sofisticava por mudanças no padrão de vida e visão de mundo, acontecimentos que integram o Renascimento ou acompanham o processo de retomada do conhecimento clássico intermediado pela presença árabe na Europa Ocidental. Nessa busca alteraram-se os padrões de alimentação e também a imagem do mundo (uma dimensão cultural), possibilitadas pelo encontro do "outro": culturas até então desconhecidas, como as populações primitivas da América. Dessa relação a Europa obteve milho, tomate e especialmente a batata, alimento básico para as hordas miseráveis de trabalhadores dos primeiros tempos da Revolução Industrial.

Do México para baixo escoaram para a Europa montanhas de ouro, prata, diamantes e outras preciosidades que financiaram o desenvolvimento da Revolução Industrial, a primeira substituição da força dos músculos humanos e animais pelo movimento rápido e metódico das máquinas. O carvão, vegetal e mineral, foi o alimento da primeira geração de máquinas voltadas para a indústria têxtil e mineração, entre outras. Depois o carvão foi substituído pelo petróleo e, em meados do século XX, pela energia nuclear.

Roda de fogo

Há um século e meio Marx e Engels falaram em "globalização" da produção quando se referiram aos então modernos sistemas de estradas de ferros e de linhas de navegação que permitiam a produção e distribuição de bens em escala planetária.

Tanto navios como locomotivas resultaram de avanços que ocorreram na física, mais especificamente na termodinâmica, ou estudo da transformação da energia, nesse caso envolvendo a máquina a vapor.

Em 1946, o escritor inglês de ficção científica Charles Arthur Clark escreveu seu célebre artigo prevendo o uso de satélites artificiais para as telecomunicações. Seria possível pensar, hoje, a globalização sem os sistemas de comunicação que conectam as bolsas de valores das nações, apenas para se referir ao lado econômico desse processo? E os satélites de comunicações, podem ser considerados fora do contexto da exploração espacial? E a informática, que tanto permitiu como se desenvolveu pela exploração do espaço? Pode-se falar de globalização, na forma atual, na ausência de computadores e da internet?

Ainda assim, uma ampla legião de pensadores continua referindo-se à globalização apenas pelo seu lado de mercado, como se fosse um processo de erupção abrupta, despojado de história. Tanto é assim que as declarações do diretor-gerente do fórum de Davos, Claude Smadja, mereceram destaque na imprensa: "Agora percebemos que a globalização não pode ser apenas um negócio e uma revolução econômica, tem de ter uma dimensão cultural e social também" (O Estado de S.Paulo, 26/1/01, pág. B 5).

A cautelosa interpretação de Smadja sem dúvida reflete as discussões que estão sendo feitas em Porto Alegre e que mereceram críticas do presidente da República. Fernando Henrique considerou os R$ 970 mil destinados à reunião como "desperdício que algum governador do futuro vai pagar" (Folha de S.Paulo, 25/1/01, pág. A 8).

O presidente, nessa declaração, misturou Cartismo, movimento por reformas eleitorais e sociais, com Luditismo, quebra de máquinas por trabalhadores revoltados com perdas de postos de trabalho. A Folha, astutamente, registrou o que Freud certamente interpretaria como um sintomático ato falho. O jornal poderia ter lembrado o vigoroso discurso feito por Lord Byron no parlamento inglês, quando foram baixadas leis condenando à morte um homem que destruísse uma máquina. Byron disse, com lógica irrefutável e atual, que os homens destruíam as máquinas porque estavam sendo destruídos por ela.

O governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, devolveu a crítica presidencial ao lembrar que a sociedade brasileira espera explicações envolvendo o fiasco da nau dos 500 anos, os gastos exorbitantes da Feira de Hannover e a tentativa frustrada e custosa de mudar o nome da Petrobrás.

Uma conclusão lógica é que o presidente da República realmente esqueceu seus escritos científicos de comportamento da sociedade em benefício de críticas mais convenientes.

Mas essa não é uma característica exclusiva do presidente. Prova disso foi a entrevista que o produtor de queijo e contestador da globalização, o bigodudo José Bové, deu ao programa Roda Viva , da TV Cultura, às véspera dos encontros. Bové, uma das estrelas do fórum de Porto Alegre, não foi entrevistado, mas julgado e praticamente condenado por parte de seus entrevistadores.

Memória e inteligência

Intolerância ideológica, limitações de dimensão histórica e preocupações ligadas exclusivamente à lógica de mercado, além da pura e velhíssima arrogância ? como se os homens fossem só engrenagens do mecanismo de produção e acumulação ?, com facilidade transformam programas de entrevistas na TV em pancadaria verbal. Na falta de um diálogo inteligente sobra o boxe, onde só falta morder orelhas. Vence quem grita mais alto e é mais agressivo. É a lógica inerente a uma sociedade que, em 500 anos de história, cultivou mais de 300 de escravidão. Mais que nunca, Joaquim Nabuco é leitura obrigatória.

Quanto à ciência e globalização, motivo deste escrito, há uma outra razão forte nessa conexão. É uma obra de ficção, Nova Atlântida, do filósofo inglês Francis Bacon, publicada em 1627. Francis Bacon, como sabe todo estudante de filosofia da ciência, é o pai do método científico atual. Nessa obra, publicada um ano depois de sua morte, ele defende a idéia de que uma sociedade científica seria capaz de suprir suas necessidades materiais e, com o trabalho metódico das "casas de Salomão", como chamou os laboratórios de pesquisa científica, certamente seria mais feliz.

Com a ajuda de Francis Bacon pode-se compreender que o desemprego atual é bendito, em vez de maldito, pois é resultado da potencialização do trabalho humano pelas máquinas. Se hordas de desempregados crescem a cada dia (malgrado as oscilações eventuais das estatísticas) e com isso fazem crescer a violência social, é porque o fruto do trabalho amplificado pelas máquinas não é razoavelmente dividido. É a carência do que economistas clássicos e por isso mesmo insuspeitos, como o canadense J. K. Galbraith, chamam de "bem-estar social". E esse é o contraponto necessário do encontro de Porto Alegre, como, no passado, foi a fala de Byron.

A automação não é nova e o velho Aristóteles foi um dos que sonhou com o tempo em que as máquinas pudessem realizar o trabalho sujo, bruto e perigoso, para que os homens tivessem mais tempo para pensar sua condição humana. Armadilhas feitas por caçadores da pré-história foram uma forma de economizar tempo de caça em benefício de atividades, em princípio, mais criativas.

Se uma sociedade como a brasileira ainda não compreendeu boa parte disso, a responsabilidade é, entre outros, de uma oligarquia escravista e de um certo tipo de jornalismo no qual, como disse Leonardo da Vinci, a memória substituiu a inteligência. A memória, neste caso, restrita ao pensamento repetitivo, à camisa de força ideológica, como se não existisse história e o mundo não fosse novo a cada dia.

(*) Jornalista especializado em divulgação científica, historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)

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