Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > MTV

Clipe reconstrói o mundo cão

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

MTV

Fabio Leon Moreira (*)

Estreou há duas semanas na programação da MTV um videoclipe que, se a audiência que alimenta a emissora musical quiser forçar a si mesma uma pequenina, porém, consistente reflexão, verá como a ordem dos fatores altera, em muito, o produto. Perceberá que uma das maiores multinacionais do entretenimento midiático tem munição de sobra para depredar o telhado de vidro de muitos detratores, mas também possui uma vidraçaria tão frágil cobrindo as cabeças grisalhas de seus executivos "mudernos" que um diminuto cascalho é capaz de fazer estragos perpétuos. Esse cascalho propriamente dito tem quatro minutos e meio de duração e é uma peça publicitária altamente irônica, que sintetiza com maestria a máxima de que toda a caça tem seu dia de caçador.

É um presente de grego que passou despercebido pela alta direção da matriz americana. Sorte nossa.

The Barry Williams Show, o primeiro trabalho "videoclíptico" de Peter Gabriel, oriundo de seu último álbum, Up, é provocativo por mexer com uma das instituições máximas do telespectador médio americano: os programas de auditório que, com pautas que embrulham o estômago, tentam, pela exposição das diversas camadas do esgoto humano camuflar um assistencialismo sensacionalista por natureza. Estão presentes no clipe e cantados na música os personagens que povoam estes antros. "Meu namorado sadomasoquista me espancou demais", "Minha mãe faz programa para sobreviver", "Estou apaixonada pelo estuprador da minha filha". Nada a dever às chamadas de programas como Ratinho e Márcia Goldsmith, crias de víboras mais peçonhentas como o colega hispânico naturalizado americano Geraldo ? o SBT reproduziu algumas edições de seus programas.

Os apresentadores deste mercado de franchising grotesco vangloriam-se de mostrar a verdade que ninguém quer ver. Exibem, por exemplo, a silhueta de alguém com deformação genética, renegado pelo serviço de saúde pública. Suplicam por um hospital e uma equipe médica que possam dar trégua a seu sofrimento, abrem uma conta bancária para receber donativos para a compra de remédios, não sem antes permitir que a platéia e a audiência saboreiem suas chagas. Isso é um exemplo, já que no cardápio de morbidez destes programas não falta desgraça.

Guardadas as devidas proporções, a MTV transmite música televisionada e alguns dos seus clipes não fogem desta estética mundo cão. É Lenny Kravitz tocando em discotecas movidas a orgias de adolescentes suadas em Flying Away, é o grupo techno Prodigy esmiuçando a madrugada de um rapaz que se entorpece com álcool e drogas, molestando notívagos pelas sarjetas de Londres em Smack My Bitch Up, é Charlie Brown Jr. no desfile interminável de armas pesadas pela disputa de um sino dourado em Hoje eu acordei feliz", é o parto genuíno de uma criança focalizada em close e com a genitália raspada da mãe disponível para milhares de adolescentes aprenderem como é a realidade de um hospital público na capital federal em Só Deus pode me julgar", de MV Bill.

A verdade, também dirão produtores e diretores dos videoclipes, é essa, e não podemos modificá-la. Como se não existisse um meio-termo em que se pudesse avaliar a gravidade das situações mostradas sem que o asco ou a perplexidade se fizessem tão presentes.

Segundos despercebidos

Peter Gabriel transforma essa massificação apocalíptica em poesia dura, triste. Mas onde está a ironia e de que forma este clipe é um presente de grego para a MTV? Bem, o ex- vocalista do grupo Gênesis (que tinha o sem-sal Phil Collins como baterista) tornou-se um artista politicamente correto por definição. Não poupou ataques ao longo dos últimos anos. Compôs uma música para o ativista dos direitos humanos sul-africano Steve Biko, morto sob tortura na África do Sul do apartheid, uma outra endereçada aos pesquisadores científicos que, em outra forma de tortura, submetem pequenos animais a experimentos.

Só que ele derrapa nas intenções de encontrar o verdadeiro inimigo, respingando nos programas sensacionalistas a essência de todo o mal. Escolheu como diretor de um clipe que critica esse sistema o ator Sean Penn que, num passado não muito distante, foi alvo de especulações sobre seu tumultuado casamento com Madonna. Segundo os tablóides da época, teria amordaçado e espancado a cantora durante horas e tentado alvejar os helicópteros de TV que circundavam sua mansão à base de tiros de espingarda. Sensacionalismo puro, não?

O que se vê neste episódio é uma reciclagem da demagogia, pois o cantor jamais poderia escolher uma emissora que escapasse ilesa das críticas de sua própria programação, até porque essa emissora não existe. Todas têm em suas grades um percentual de atrações que desagrada ou ofende alguém. Visto dessa forma, ninguém tem o direito de julgar. A mesma MTV que produz um pequeno libelo contra a exploração humana, pondo-o acima de lixos subculturais como Eminems e Cristinas Aguileras da vida (fora os exemplos já citados acima) é a mesma que insere em suas vinhetas fotogramas subliminares recheados de sadomasoquismo e pornografia infantil (conferir mais informações sobre isso no sítio <www.mensagemsubliminar.com.br>.

Da mesma forma que a revanche dos programas sensacionalistas pode estar nesta brecha deixada pela emissora musical. A única diferença são os centésimos de segundo de exibição na TV que até então ninguém percebia.

(*) Jornalista

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