Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO DOS ANOS 90

Clóvis Rossi

Por lgarcia em 12/08/2003 na edição 237

DIÁRIO DE BAGDÁ

"Em ?Diário?, jornalismo sério também é bonito", copyright Folha de S. Paulo, 10/08/03

"O que primeiro chama a atenção no livro ?Diário de Bagdá? é que se trata de um livro de rara beleza.

O leitor convencional tem todo o direito de achar politicamente incorreto falar de beleza a respeito de uma obra que trata da guerra. Guerra nunca é uma coisa bonita. Tem também o direito de achar que é fútil pensar em beleza quando se fala de jornalismo sério.

Mas ?Diário de Bagdá? prova que:

1-) Imagens bonitas podem, às vezes, falar mais sobre a crueldade do que pilhas de sangue.

2-) Jornalismo sério pode ser bonito, não apenas no texto, mas no seu aspecto gráfico.

A beleza das imagens se deve, como é óbvio, ao notável Juca Varella, um dos fotógrafos mais brilhantes de um país que é pródigo em grandes profissionais da área. Mas se deve também (ou principalmente?) ao casamento de imagem e texto.

Pena que, nos últimos muitos anos, vicissitudes econômicas tenham limitado profundamente o uso, pelos jornais brasileiros, de duplas repórter/fotógrafo na cobertura de eventos internacionais.

A Folha, Sérgio Dávila e Juca Varella romperam a regra. O leitor do jornal ganhou, como ganhará agora o leitor do livro, uma espécie de edição ampliada, corrigida e melhorada dos textos a quente enviados de Bagdá e das fotos idem.

Não é um casamento fácil. Reportagem tem um forte componente subjetivo, até arbitrário. Um relato pode nascer do impacto causado nos sentidos de um repórter por sons, cores, caras, gentes, cheiros. O impacto será diferente em cada repórter.

Quando dois deles se juntam para o mesmo relato (em texto e foto), conseguir sintonizar cada impacto não é trivial.

A beleza do livro está dada também pelo resgate de uma verdade simples, mas que corre o permanente risco de ser sepultada por toneladas de teorias sobre a comunicação: jornalismo é, antes e acima de tudo, o ofício de contar bem boas histórias.

Boas histórias estavam disponíveis em cachos na Bagdá em guerra. Contá-las bem é que são elas. Dávila e Varella o fizeram. Primeiro, porque são profissionais de talento, o que já haviam comprovado em trabalhos anteriores. Segundo, porque escolheram a beleza do básico, do simples.

Para Dávila, tratou-se de contar a história pelo ângulo dos bombardeados (o que, de resto, fornece o subtítulo do ?Diário?). Já seria uma escolha importante e correta. Mas acho que os dois fizeram mais que isso.

Explico: é lícito supor que 99% ou mais dos brasileiros não têm a mais remota idéia do que seja Bagdá. Nem mesmo guias turísticos básicos estão disponíveis em português, a julgar pela bibliografia nessa matéria (em inglês) a que os dois tiveram que recorrer.

É igualmente lícito supor que porcentagem idêntica de brasileiros não tenha a mais tênue vivência de uma guerra. Pois bem: a TV transformou Bagdá e a guerra em assunto virtualmente hegemônico à época. Mas puxando, quase sempre e quase todos, por outros ângulos: político, geopolítico, armas de destruição em massa, terrorismo e Saddam Hussein, até ?choque de civilizações?.

O trabalho básico de contar como é Bagdá, como é Bagdá em guerra e como vivem os bagdalis, esse foi o foco de Dávila/Varella, com o que conseguiram a proeza (jornalística e também mercadológica) de juntar a fome (por informações) com a vontade de oferecê-las ao público brasileiro.

O resultado esteve nas páginas desta Folha e está agora no livro. Só tem um defeito: me mata de inveja, porque, em vez de escrever a resenha, queria mesmo é ter escrito o livro.

Diário de Bagdá – A Guerra Segundo os Bombardeados

Autores: Sérgio Dávila (texto) e Juca Varella (fotos)

Editora: DBA Quanto: R$ 59 (144 págs.)"

 


"Dávila e Varella lançam ?Diário? hoje", copyright Folha de S. Paulo, 7/08/03

"Quando a estátua de Saddam Hussein foi finalmente derrubada por um veículo militar conduzido por um fuzileiro naval norte-americano no dia 9 de abril, no episódio que marcou a queda do regime do ditador iraquiano na Guerra do Iraque, a praça Al Firdos, em Bagdá, onde tudo aconteceu, estava tomada não pela população, que era minoria, mas por jornalistas estrangeiros e militares da coalizão anglo-americana.

O episódio está narrado no capítulo ?Bagdá – A Queda que Não Houve? e seus bastidores estão no livro ?Diário de Bagdá – A Guerra do Iraque Segundo os Bombardeados?, que os jornalistas da Folha Sérgio Dávila e Juca Varella lançam hoje no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Em 144 páginas e com 120 imagens de Varella, a maioria inédita, Dávila reconta em forma de diário a cobertura do conflito desde a preparação, no começo de março, até o desembarque da dupla de volta ao Brasil, no dia 20 de abril, um domingo de Páscoa.

Os dois foram os únicos jornalistas brasileiros a permanecer em Bagdá durante as primeiras semanas da guerra. Dos 35 dias que passaram no Oriente Médio, 21 deles foram na capital iraquiana.

Juca Varella, 39, tem 18 anos de profissão, dos quais 12 trabalhando na Folha.

Entre outras reportagens, cobriu a morte de PC Farias, que lhe valeu o Prêmio de Foto do Ano no jornal, e o envolvimento do tesoureiro da campanha de Fernando Collor com a Máfia italiana, o assassinato de 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará, duas Copas do Mundo (França/1998 e Coréia-Japão/2002) e a Olimpíada de Sydney/2000.

Sérgio Dávila, 37, 15 anos de profissão, trabalha na Folha desde 1993. Foi editor da Ilustrada (1996-2000) e correspondente do jornal em Nova York (2000-2003), período no qual cobriu as conturbadas eleições presidenciais que deram a vitória a George W. Bush e o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, que rendeu mais de 500 artigos e o livro ?Nova York – Antes e Depois do Atentado?, lançado no ano passado pela Geração Editorial.

Pela cobertura da Guerra do Iraque, os dois receberam o Prêmio Folha do segundo bimestre e Dávila ganhou o Prêmio Dom Helder Câmara de Imprensa, da CNBB, dedicado a Juca Varella."

 

CELA FORTE MULHER

"?Mulheres dos meus olhos?", copyright IstoÉ, 11/08/03

"Elas querem se ver bonitas. Decoram-se com badulaques capazes de realçar o que têm de belo. Dentro do possível, são mães e também filhas. Amantes sedutoras, estão sempre dispostas a uma nova paixão ainda que saibam que o grande amor, além de não ser eterno, é sempre o próximo. Elas são simplesmente mulheres. Mulheres que matam, que sequestram, que mutilam. Mas isto não importa para o jornalista Antônio Carlos Prado, editor de ISTOÉ e membro do Conselho de Saúde Mental, Álcool e Drogas de São Paulo, que narra com uma cortante docilidade a vida das detentas dos presídios de segurança máxima de São Paulo em seu livro Cela forte mulher (Editora Labortexto). São sete anos de uma viagem solitária pelos pavilhões como voluntário que o fizeram mergulhar na vida e no coração dessas literalmente femmes fatales, jovens em sua maioria e muitas de classe média alta. Ele as transformou nas mulheres dos seus olhos. O livro, de 190 páginas, é cheio de histórias que se movimentam entre a tormenta e a calmaria de um feminino quase rodriguiano que Prado classifica de raro e imantado. ?A grande arma

das imantadas é a lábia, o calibre dessa arma é o poder de sedução?, define o autor, que mostra ao leitor, sem fazer alarde, que essas transgressoras são o que realmente são. Um somatório de sensações: da total ausência de sentimento de culpa, do prazer em causar sofrimento ao acolhimento e à delicadeza.

Emprestando os ouvidos e mantendo uma relação desarmada, o autor sabe de coisas que elas não contam a ninguém. Entre muros não tem platéia, dificilmente elas se prendem à encenação, ao contrário da prisão sem grades visíveis criada pela sociedade, onde cada um exerce seu papel. Numa crítica aberta ao sistema, ele defende uma política pública de saúde mental mais efetiva e engajada com as transgressoras. O quanto elas vão melhorar ele não sabe, mas certamente será um instrumento importante capaz de protegê-las delas próprias. ?Eu tenho a convicção, em se tratando de instituições totais e totalizantes, de que somente quem olha de perto ouve. E só sabe cuidar quem sabe olhar, ouvir e tocar: é assim que me relaciono com as presas, fora do moral ou do imoral, do certo ou do errado, do pecado ou da virtude. Não as julgo jamais. Não me relaciono com delitos ou patologias, me relaciono com pessoas em seu contorno psicossocial, na particularidade ou especialidade de essas pessoas serem mulheres?, escreve Prado. O livro inclui, ainda, um ensaio fotográfico de 24 páginas. A fotógrafa Carol Minêm deita os olhos, em preto-e-branco, na forma em que elas preferem ser vistas: feras e belas, mas que podem ser amansadas com afeto.

Eu gosto de mutilar, mas não sou tão ruim assim (…)

Se tentarem me enrolar, aí eu corto dedo, língua, orelha. (…) Eu ainda vou estudar odontologia. Aí poderei ser dentista e, de vez em quando, fazer um sequestro. Farei as duas coisas que mais gosto.

Bela, campeã estadual de skate, é filha de uma empresária paulista e cumpre pena de 48 anos por sequestro relâmpago

Há mulheres que dizem que entraram para o mundo do crime porque se apaixonaram por homens bandidos. Isso é mentira. Elas já se sentiam atraídas pela transgressão. (…) O crime significa viver adrenalina e mais adrenalina. Viver adrenada!

Sharon Stone é formada em administração de empresas e cumpre 28 anos por assalto a banco

Eu gosto de me superar. Envenenar a vítima sem que a quadrilha soubesse era um grande segredo. Quem é capaz de criar os seus próprios segredos se torna dono da história

Scarlet era sequestradora. Morreu quatro dias antes do Carnaval"

 

JORNALISMO DOS ANOS 90

"Quero ser grande – II", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 11/08/03

"Em seu excelente livro ?O Jornalismo dos Anos 90?, Luiz Nassif diz, à página 33:

?Nos próximos anos, o comando nas redações estará nas mãos dos estudantes de hoje que conseguirem casar profissionalismo, rigor na apuração dos fatos e capacidade de correr riscos na busca de novos ângulos das matérias.

O jornalista ?fast food? será apenas uma curiosidade, um chamariz para pegar o que restar de leitores menos exigentes?.

Concordo inteiramente com o mestre a respeito do primeiro período, mas não tenho o mesmo otimismo que ele expressa no segundo.

Como sou um cara de sorte, recebi de presente duas ótimas estagiárias na empresa em que trabalho. Mademoiselle Christiane e Fraülein Danielle (assim designadas por falarem francês e alemão, respectivamente) estudam em duas das melhores faculdades de jornalismo do Rio: Chris na UFF (7? período) e Dani na PUC (6? período). Ambas são inteligentes, gostam de aprender e trabalham sério (eu disse que tinha sorte). Assim, quando vi o primeiro Painel de Controle do Dia, pedi a elas que fizessem uma comparação entre a coluna que Nassif escrevia para o jornal carioca e a que ele escreveu um ou dois dias antes sobre o mesmo assunto (setor elétrico) na Folha.

As duas fizeram o bom trabalho que eu esperava, comparando linguagem, públicos-alvos, tipos de coluna, etc. Contente, chamei-as separadamente para conversar sobre o que tinham escrito, e aí vi que as coisas não estão nada boas nem nas melhores faculdades.

Comentei com Chris, a primeira com quem papeei, sobre aquela avaliação do Nassif que citei no início. ?Hi…Vai ser complicado?, disse a menina. Perguntei por que ela achava isso. ?É que não aprendemos nada direito na faculdade?, disse ela. ?Como assim??, insisti e ela tomou como exemplo a matéria de Economia que teve na faculdade. ?O professor só falou de uma teoria e não discutia com a gente. Eu saquei o que ele queria, fiz as provas para agradar a ele e passei fácil?, contou. Ainda perguntei se o cara era jornalista. ? Não! Era economista. Não sabia nada de jornalismo?, respondeu.

Ruim, né? E a situação não é melhor numa faculdade privada como a PUC, segundo Dani. Quando falei das queixas da sua colega de estágio, ela disse que algo semelhante ocorreu com ela. ?Tive Economia no primeiro semestre, quando ainda estava me ambientando na faculdade. Depois, nunca mais ouvi falar disso?, contou a garota, que antes já me dissera que a faculdade apresentava outra deficiência séria. ?Quase não escrevemos?, queixou-se quando mandei-a escrever uma materinha para testar como ela andava. Como tem jeito mesmo para o negócio, o texto não estava ruim, precisando apenas ser burilado.

Assim, mesmo os melhores jovens que saem das melhores escolas de comunicação não parecem contar com os instrumentos críticos mínimos necessários para enfrentar um mercado de trabalho que se orienta pela lógica do escândalo e do esquentamento de pautas e matérias que hoje domina as redações, como denuncia Nassif. Como não é provável que aqueles que dominam as redações e pensam desta maneira mudem por vontade própria – afinal, não se mexe em time que eles acham estar ganhando -, fica realmente difícil acreditar que a imprensa brasileira vá melhorar, pelo menos no médio prazo. Creio que teremos que aturar por muito tempo ainda o ?jornalismo fast food? que hoje nos é servido diariamente.

Esquentamento – Por falar em esquentamento, uma pequena história demonstrativa de como este processo está entranhado no dia-a-dia e como jornalistas mais conscientes lutam contra ele, mesmo sabendo que não podem vencê-lo.

Depois de uma coletiva do presidente da empresa em que trabalho, os coleguinhas de economia começaram a fazer o acerto do lide da matéria (velha prática: todo mundo combina o lide para ninguém tomar esporro no dia seguinte se o enfoque for diferente dos concorrentes. Isso é papo para depois, mas Nassif fala também desse ?efeito manada? no livro dele). Como não era nada muito complexo o lide de consenso foi tirado rápido. Só que um colega – bom e honesto repórter da sucursal de um jornal paulista – levantou uma questão:

– Se a gente usar o verbo (citou lá, mas não me lembro agora), vai facilitar o esquentamento.

Os outros concordaram. Ficaram então alguns minutos procurando um verbo sinônimo, mas semanticamente ?mais fraco? para enganar a redação. O tal verbo foi achado e todos seguiram felizes para o almoço (não sem antes acertarem também o horário para mandar o flash do tempo real sobre a coletiva…).

No dia seguinte, batata! Lá estava o verbo descartado na maior parte dos jornais, utilizado para esquentar a matéria. Se tivesse sido usado pelos coleguinhas, a redação teria mandado para as páginas um ainda mais forte, mudando o sentido da matéria. Como foi usado o mais fraco, acabou saindo como os repórteres tinham pensado. Bacana, né?

Férias! – Pode comemorar: você vai ficar livre de mim pôr um mês. Entrei de férias no trabalho e também vou descansar aqui no C-se. Volto dia 14 de setembro, se Deus quiser. Quem estiver com muita saudade (tem maluco pra tudo), pode ir no blog, que ficará no Rede, embora um tanto espaçadamente (aliás, obrigado aos amigos: o Picadinho Diário passou de 50 mil acessos semana passada. Valeu!). Até a volta!"

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