Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O BRASIL PROFUNDO

Clóvis Rossi

Por lgarcia em 06/01/2004 na edição 258

MAIORIDADE PENAL

“Crimes e sensações”, copyright Folha de S. Paulo, 02/01/04

“São Paulo ? Vê-se agora, pela reportagem de Gilmar Penteado ontem publicada por esta Folha, que o ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) tinha razão ao dizer que não era correto discutir a questão da maioridade penal em cima de emoções. No caso, as emoções despertadas pela morte de dois jovens.

A pesquisa divulgada pela Folha mostra que, mesmo que fosse reduzida a maioridade penal e mesmo que todos os jovens que cometessem delitos fossem de fato presos, haveria uma redução insignificante no número de homicídios, roubos e latrocínios (entre 1% e 2,6%, conforme o tipo de crime).

Ou, posto de outra forma: há uma diferença entre os fatos (a criminalidade praticada por menores de 18 anos) e a percepção dos fatos pela sociedade. Os fatos ficam muito aquém da percepção, mais ou menos como ocorre com a temperatura e a sensação térmica: o termômetro pode marcar, digamos, 15 graus, mas, se o vento frio sopra forte, ?sente-se? um frio de 7, 8 ou 9 graus.

Mas não é correto as autoridades se prenderem aos fatos e desprezarem as sensações do público a que servem (ou deveriam servir). Até porque, no mesmo dia em que a Folha reproduzia a pesquisa, feita em São Paulo, o jornal ?Correio Braziliense? trazia outros dados (sobre Brasília) que mostram que a percepção do público não é só paranóia.

Diz o jornal que, em 2003, aumentou quase 80% o número de assassinatos praticados por menores de 18 anos, na comparação com 2002, assim como cresceu igualmente o registro de vários outros crimes praticados por adolescentes.

Há, portanto, um problema a enfrentar: cresce de fato, e não apenas na percepção da sociedade, a criminalidade entre menores.

Mudar a idade penal pode não resolver nem o problema real nem a sensação da sociedade.Mas ou o governo ataca de frente a questão geral da criminalidade e, por extensão, da insegurança, ou o problema e a percepção dele, exagerada ou não, só farão crescer.”

 

O BRASIL PROFUNDO

“Distante dos olhos da mídia e do poder: um país que flui silencioso”, copyright O Globo, 3/1/04

“Marcio Moreira Alves ? o Marcito dos tempos de foca do ?Correio da Manhã? ? é um ser irrequieto e obstinado. Como revelou em recente crônica no GLOBO, tem bicho-carpinteiro no corpo. Ainda imberbe, nos idos de 1950, foi correspondente de guerra em Suez. Em Alagoas, cobrindo a votação do impeachment do governador Muniz Falcão, foi ferido no tiroteio que sacudiu a Assembléia Legislativa. A reportagem que enviou, ?Morte em Alagoas?, rendeu-lhe o Prêmio Esso. Ativista político de esquerda nos anos de chumbo, elegeu-se deputado pelo antigo MDB da Guanabara. No auge da contestação estudantil e política de 1968, combateu a ditadura, conclamou o povo a boicotar a parada de 7 de Setembro, foi ameaçado de processo pelo governo militar, e ante a negativa da Câmara em conceder a licença, acabou sendo o estopim do mais truculento ato do regime: a edição do AI-5, que, entre outras coisas, cassou o seu mandato junto com outros deputados e fechou o Congresso. Preso num protesto contra a ditadura com outros jornalistas e intelectuais em frente ao Hotel Glória, restou-lhe um exílio itinerante por vários países, até sua volta em 1980, com a Anistia. A experiência com o regime e o contato com os movimentos revolucionários foram retratados em livros como ?68 mudou o mundo?, ?Um grão de mostarda ? O despertar da revolução brasileira?, ?O Cristo do povo? e ?Tortura e torturados?, entre outros.

Tempo não arrefeceu ímpeto do repórter ávido

Em quase dez anos de jornalismo político ininterrupto, Marcio Moreira Alves registrou em mais de dois mil artigos tudo o que de mais notório tem se passado na cena política brasileira. O tempo, que aquieta e amadurece o espírito, no entanto, não arrefeceu o ímpeto do repórter ávido e cavador de histórias. Hoje, a barba espessa mesclada de fios brancos e a cabeleira revolta ? em lenta fuga ? que lhe dão um ar mosaico, acentuam-lhe a maturidade e aguçam a curiosidade. Mas não saciam a sede de conhecer nem esmorecem a vibração de escrever sobre o que sua visão de lince capta ao longo da irrequieta trajetória.

Deixa momentaneamente a tribuna de onde monitora os movimentos do poder e da administração pública para se debruçar sobre o país que flui silencioso e esquecido nas profundezas do território. Aquele território que não freqüenta a mídia e que muitas vezes nem precisa estar tão distante para ser despercebido. E tal qual os Von Martius, Saint-Hilaire e Agassiz do século XIX que mergulharam no coração do Brasil para revelar a natureza, as artes e os ofícios das gentes perdidas nos rincões ignotos, Marcio faz um rali emocionante para mostrar o Brasil que dá certo. No caminho encontra seres e personagens capazes de comover com seus atos heróicos e surpreender com seus feitos nascidos do nada, com a criatividade e a obstinação que só o isolamento e a necessidade, somados a uma fé inamovível, explicam.

Da seleção de histórias desse périplo, surge agora, pela Nova Fronteira, ?Histórias do Brasil profundo?, completando uma trilogia que começou com ?Brava gente brasileira? e ?Sábados azuis ? 78 histórias do Brasil que dá certo?. São histórias singelas de empreendedores e empreendimentos, experiências e idéias que frutificam à margem da agitação das megalópoles insolúveis, às voltas com os guetos de exclusão, pobreza e desesperança que teimam em sobreviver nas periferias.

Gente de feição decidida e alma enfezada

Não há quem não sinta um misto de orgulho e sentimento de solidariedade ao conhecer programas como o das escolas de alternância de Nova Friburgo, os projetos de desenvolvimento e incorporação social da prefeita de Boa Vista, do milagre da agroindústria do Agreste e do Vale do São Francisco, de onde sai a melhor uva do Brasil, exportada, junto com melões e mangas excelentes para o mercado europeu. Ou do Circo Picolino, em Salvador, do pólo moveleiro de Porto Trombetas, no Pará (tente localizar no mapa) e do progresso do jovem estado de Tocantins com sua surpreendente capital.

?Histórias do Brasil profundo?, no costumeiro estilo jornalístico, objetivo e claro de Marcio Moreira Alves, mostra um Brasil original, bonito, reinventado no talento dessa parcela de brasileiros forjada no abandono e na adversidade do meio ambiente. Uma gente de feição decidida e alma enfezada, que contrasta com o país que nem sempre dá certo em tudo, mas que seguramente pode acertar muito mais.”

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