Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > LINGUAGEM

Clóvis Rossi

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

HELICÓPTEROS E CELEBRIDADES

"Gente que voa e que rasteja", copyright Folha de S. Paulo, 7/8/01

"Um precioso flagrante de como o país está dividido em dois andares bem nítidos (para usar a imagem de Elio Gaspari) apareceu na mídia no fim de semana.

O grande assunto, tema inclusive de capa das revistas ?Veja? e ?IstoÉ? e do ?Fantástico? (Rede Globo), foi o acidente de helicóptero que matou a modelo Fernando Vogel e o piloto. Aliás, nos primeiros dias do noticiário, nem aparecia o nome do piloto, tratado apenas pela sua função.

Em momento algum se dizia, por exemplo, ?morreram a modelo e o piloto Ronaldo Ribeiro?. Mas o inverso (?morreram a modelo Fernanda Vogel e o piloto?) foi tolerado.
Até aí, ainda vá lá. O ser humano se interessa mesmo pela vida e destino de outros seres humanos, mais ainda se forem ricos, bonitos ou famosos -ou tudo isso ao mesmo tempo.

O diabo começa com as insinuações sobre as condições do vôo e sobre uma eventual irresponsabilidade de João Paulo Diniz, uma das quatro vítimas. Nunca se foi além da insinuação, pela simples e boa razão de que não há elemento algum que possa provar que tenha havido irresponsabilidade de qualquer gênero, número ou grau.

De todo modo, as insinuações serviram para que se discutisse a segurança de vôos de helicópteros. Nada contra. Tudo a favor, aliás.

Mas ninguém se animou a discutir a insegurança -esta, sim, real e provada- do andar de baixo, retratada, por exemplo, na reportagem de Aureliano Biancarelli e Fabiane Leite, na Folha de ontem, sobre a fuga de médicos da periferia por medo da violência.

Pouco mais de 40% dos médicos relataram algum tipo de violência em seu local de trabalho, 4,5% deles (90 em 2000) desistiram, e cerca de 30% dos postos médicos estão vagos.

O importante é proteger a segurança da gente que voa. Já a que rasteja para sobreviver nos buracos da periferia não pode contar nem mesmo com a certeza de ter postos de saúde."

LINGUAGEM

"O interesse público não justifica o mau gosto", copyright Folha de S. Paulo, 10/8/01

"Quando comecei a trabalhar em jornal, e isso já vai longe, em meados do século passado, os lugares-comuns que mais me irritavam eram o ?tríduo momesco? e a ?insidiosa moléstia?. Tinha dos tríduos, em geral, uma noção piedosa, até mesmo carola, três dias dedicados a louvar determinado santo, comemorar determinada festa religiosa.

Daí que não entendia o tríduo dedicado ao rei Momo, que já naquele tempo não era de apenas três, mas de quatro dias. Achava que o nome ?carnaval? era suficiente para designar aquilo que também chamavam de folguedos populares. Chamá-lo de tríduo, além do mau gosto, era uma profanação.

Quanto à insidiosa moléstia, tive experiência na própria carne. Fechei uma página do jornal em que trabalhava, li por alto as matérias, conferi os títulos, as legendas, cumpri as funções rotineiras de um editor. No dia seguinte, fui chamado à diretoria. Deixara escapar a palavra ?câncer? numa nota de duas colunas.

Então eu não sabia que o dono do jornal estava com câncer, fazendo um tratamento dispendioso (e inútil) na Suécia? Não era chegado, ainda, o tempo dos manuais de redação, mas cada jornal tinha sua lista de conceitos e preceitos que deviam ser obedecidos. Um deles era se referir ao câncer como ?insidiosa moléstia?.

Ignora-se quem por primeiro juntou ao substantivo ?moléstia? o adjetivo ?insidiosa?. Tal como no caso de ?ladeira íngreme?, se tivesse registrado a coisa, no Departamento de Direito Autoral ou no Registro de Patentes Públicas, estaria milionário. Pois todos os jornais e revistas se proibiam nomear a insídia da tal moléstia. Era a marca de pênalti mais ostensiva para o obituário que já estava adrede preparado.

Felizmente esse tempo passou. A doença começou a ser chamada pelo nome que lhe era próprio, e isso ajudou no combate ao mal. Seria absurdo termos um Hospital Nacional da Insidiosa Moléstia. Cada coisa no seu galho, inclusive as doenças e suas respectivas insídias.

Como sempre acontece, depois da bonança vem a tempestade ou vice-versa -e o que era proibido tornou-se não apenas permitido, mas escancarado. E, como o câncer teria realmente alguma coisa de insidioso, ele passou a merecer da mídia um tratamento VIP, com direito ao tapete vermelho dos gráficos, que mostram como ele nasce, dissemina-se e mata.

Tivemos o recente caso de Mário Covas, que divulgou a doença por se considerar um homem público que nada deveria esconder da sociedade. Tudo bem da parte dele. Nem por isso o tratamento que recebeu dos jornais, revistas e TVs foi decente. Compreende-se a honesta transparência de Covas, que assumiu a condição humana em sua integral vulnerabilidade. Mas, que diabo, sua privacidade podia ser respeitada sem que com isso o decantado interesse público fosse prejudicado.

Qual o interesse público em se conhecer detalhes de uma colostomia, de uma retenção urinária, de uma obstrução intestinal? Um operário anônimo, uma autoridade, um prelado, um artista, qualquer ser humano pode passar por esse tipo de problema, sem precisar ver expostos os gráficos que mostram a localização do tumor, os procedimentos de higiene que cabem apenas aos médicos, às famílias e ao próprio doente.

Cada profissão tem, ou, pelo menos deveria ter, a sua ética específica. Alguns exemplos: o sigilo dos padres que ouvem confissões, dos médicos que tratam seus doentes, dos advogados que cuidam do interesse de seus clientes, dos militares em questões de segurança nacional, até mesmo dos jornalistas em relação às suas fontes -pessoalmente faço restrições às fontes, constituem uma praga do atual jornalismo, mas o que fazer?

Invocar o interesse público para justificar a invasão da privacidade em estágios terminais de doenças é administrar um tipo de morbidez que não dignifica nem os profissionais nem os leitores.

No que diz respeito ao câncer, é fora de dúvida que ele tem sido desmistificado e que isso representa um saldo positivo na busca de sua cura radical. Pouco a pouco, e à medida em que a palavra e a doença deixaram de ser um tabu maligno, a medicina vai obtendo resultados satisfatórios. A sobrevida e a qualidade de vida dos atingidos por tão insidiosa moléstia aumentaram consideravelmente nos últimos anos.

A doença, em si, deixou de ser um palavrão, uma senha fatal. O mesmo vem acontecendo com a Aids, que, apesar de recente e de tratamento mais problemático, aos poucos está perdendo o seu estigma maléfico, tornando-se uma doença sem significado indigno.

Mas, tanto no caso do câncer como no caso da Aids, os avanços da ciência dispensam que os doentes sejam expostos ao discutível ?interesse público?, tendo suas radiografias publicadas em cores, seus exames de laboratório divulgados, suas rotinas hospitalares oferecidas à morbidez alheia.

Um vigário do interior contou-me que, em sua igreja, tinha uma imagem de são Sebastião em tamanho natural, o corpo flechado, a nudez coberta por faixa de linho vermelho. Todos os anos precisava trocar a faixa, de tanto que era mexida pelas beatas que tinham o interesse público de ver tudo."

    
    
                     

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