Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & GUERRA

CNN tem sistema de autocensura

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

MÍDIA & GUERRA

Que haverá censura durante a guerra, ninguém tem dúvidas. Só não se sabe ao certo a intensidade dos boicotes e a proporção de autocensura. Se depender da CNN, o Pentágono não precisa se preocupar: haverá um sistema de “aprovação de scripts”, ou seja, os correspondentes da emissora deverão enviar o material a oficiais anônimos em Atlanta, sede da emissora, para garantir uma reportagem “higienizada” de acordo com interesses dos tempos de guerra.

O novo documento da CNN, “Lembrete da Política de Aprovação de Script”, é de tirar o fôlego, segundo Robert Fisk [The Independent, 25/2/03]. “Todos os repórteres devem submeter seus scripts para aprovação”, diz o documento. “Os despachos não poderão ser editados até os scripts serem aprovados (…). Todos os despachos provenientes de fora de Washington, Los Angeles ou Nova York, inclusive de todas as sucursais internacionais, devem ser submetidos ao ?corredor? em Atlanta para aprovação”. O “corredor” é a equipe de editores anônimos de script que podem exigir mudanças no material do repórter. Quando uma reportagem é “atualizada”, precisa ser reaprovada pela comissão julgadora.

É notável que as palavras-chave são “aprovado” e “autorizado”. Por mais que a equipe além-mar saiba julgar melhor o que está acontecendo exatamente no local de onde está reportando, cabe aos chefes da CNN em Atlanta avaliar a história e determinar seu destino no noticiário.

Logicamente, a CNN não é a única a entrar no “modo-segurança” de autocensura. Outras emissoras americanas estão operando com sistemas similarmente antijornalísticos, e a culpa não é dos repórteres.

Com a CNN, no entanto, é preciso estar mais esperto. Não dá para fechar os olhos à tendenciosidade de uma emissora que, após a Guerra do Golfo de 1991, confessou ter permitido a interferência de “trainees” do Pentágono na redação da CNN de Atlanta.

 

Tempos de guerra são tempos difíceis para a mídia. Objetividade e neutralidade ficam mais distantes do ideal. Nos últimos meses, revistas, emissoras de TV e jornais têm usado o termo “guerra iminente” para se referir à posição dos EUA frente ao Iraque. Para Michael Josephson, presidente do Instituto de Ética Josephson, organização não-partidária e não-lucrativa, “se a expressão for usada por políticos, pode fazer parte da própria negociação política. Mas quando jornalistas o fazem, acatando o termo dado, cria a impressão de que, de fato, pessoas neutras ou objetivas estão concluindo que a guerra é inevitável.”

Uma busca no banco de dados de jornais americanos e serviços noticiosos dos últimos seis meses, excluindo cartas ao editor, revelou 1.023 menções ao termo “guerra iminente” ou similares em referência ao Iraque. Segundo Robert K. Elder [The Chicago Tribune, 19/2/03], The New York Times, The Washington Post, The Wall Street Journal, USA Today e The Los Angeles Times usaram a expressão “guerra iminente” em seções de notícias em janeiro, assim como o próprio The Chicago Tribune.

Há duas conseqüências decorrentes do uso dessa linguagem, de acordo com Josephson. “Primeiro, a comunidade jornalística de repente se torna parte de uma retórica e de um sistema político, o que é sempre perigoso. Segundo, isso pode literalmente mudar o clima e traduzir posições em negociação por posições firmes.”

Funcionários do Washington Post e do NY Times afirmaram que os jornais tentam utilizar o termo guerra “potencial” ou “próxima”. O USA Today, segundo a copidesque Susan Miller, tenta usar os termos “possível guerra” ou “conflito”, apesar de achar que, a uma altura dessas, a linguagem não é uma questão muito importante.

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