Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > NOTAS DE UM LEITOR

Cobrindo ficção

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

NOTAS DE UM LEITOR

Luiz Weis

O trabalho do repórter Cassiano Elek Machado, de que o exemplo
mais recente foi a cobertura da 1? Festa Literária Internacional
de Parati (Flip), na semana passada, vem garantindo na “Ilustrada”
da Folha de S.Paulo espaço para a literatura como
notícia.

Já era mesmo tempo de a imprensa se ocupar da ficção
e da poesia não apenas em resenhas, ou nas críticas
mais ambiciosas e artigos acadêmicos dos cadernos culturais,
mas também em reportagens regulares sobre o ofício
e os seus praticantes.

Cassiano dá conta do recado com distinção
e louvor: escreve bem, pelo visto lê bastante e faz entrevistas
ao mesmo tempo inteligentes e atraentes para o grande público.

Os seus editores bem que poderiam incumbi-lo ainda de fazer matérias
sobre o business do setor editorial. Geralmente, o assunto
entra em pauta empurrado pelas feiras de livros. É pouco.

A produção literária também tem mais
ganchos do que parece. Daria uma boa reportagem, por exemplo, as
freqüentemente tensas relações entre os escritores
e os preparadores de seus textos, nas editoras.

No Brasil não existe, como nos Estados Unidos e na Inglaterra,
o editor de textos literários, que não se limita a
revisar, em sentido estrito, os originais recebidos, mas checa incoerências
e repetições na história, propõe formas
melhores de dizer o que está dito em certas passagens, quando
não mudanças no próprio enredo.

Quem viu o excelente filme O tempo de cada um (“Personal
velocity: three portraits”), de Rebecca Miller, em exibição
em São Paulo, deve ter se impressionado, em um dos episódios,
com os poderes de uma editora capaz de fazer de um bom romance uma
obra de primeira.

Muitos escritores não gostam disso. No suplemento Mais!
(Folha, 3/8), o artigo “Língua solta”, do historiador
da arte Jorge Coli, começa dizendo que “não existe
o MAO, Movimento dos Autores Oprimidos, mas deveria”.

O artigo é uma pauta pronta para uma reportagem que certamente
chamará a atenção dos leitores ? de periódicos
e livros. Chamem o Cassiano.

 

Nenhum episódio importante da história contemporânea
americana foi tão virado e revirado pela imprensa como a
invasão da sede do Partido Democrata, no conjunto Watergate,
em Washington, em junho de 1972, para a instalação
de um grampo ? e tudo o que se lhe seguiu.

O episódio tornou familiar a inumeráveis leigos o
termo “jornalismo investigativo”, promoveu da pornografia para a
política o apelido “garganta profunda” e transformou em clichê
a expressão “todos os homens do presidente”, título
do best seller dos celebrados repórteres Bob Woodword
e Carl Bernstein, do Washington Post.

Trinta e um anos depois do que o então presidente Richard
Nixon chamara de “arrombamento de terceira categoria” e dos oceanos
de tinta gastos na apuração e interpretação
do assunto, fica-se sabendo que nem tudo o que se sabia era a verdade
verdadeira.

No caso, que se podia dizer o que fosse de Nixon, menos que ele,
em pessoa, tinha autorizado a operação.

Em um documentário da PBS (a TV educativa dos Estados Unidos),
exibido na semana atrasada, Jeb Stuart Magruder, vice-presidente
do comitê para a reeleição de Nixon naquele
ano, aparece dizendo que ouviu o presidente dar a um de seus homens,
John Mitchell, encarregado da campanha e depois secretário
de Justiça dos EUA, o “go ahead” para o arrombamento.

Nixon, que renunciou para não ser cassado em 1974 e morreu
vinte anos depois, nunca admitiu ter dado esse sinal verde ? e ninguém
conseguiu provar o contrário.

É claro que Magruder pode estar mentindo por alguma obscura
razão, mas a sua tardia revelação faz sentido,
como escreveu no New York Times (29/7) o historiador de Yale
David Greenberg. “As afirmações de Magruder”, comenta
ele, “têm recebido atenção em parte porque afastam
da mente o que sempre pareceu uma anomalia: a presunção,
de longa data, da inocência de Nixon em relação
à invasão”.

Para os jornalistas, fica a desconfortável sensação
de que a verdade pode ser uma presa mais esquiva do que se consegue
admitir no dia-a-dia ? para o ofício fazer sentido.

Pelo menos até o domingo (3/8) nenhum grande jornal brasileiro
tinha publicado um editorial sobre a decisão do Vaticano
de condenar a legalização de uniões entre homossexuais,
com um tom que faz lembrar os éditos da Santa Inquisição.

A Igreja, que nunca pecou por escassez de homossexuais nas suas
fileiras, nunca aceitou também a separação
entre religião e Estado, o que a leva a se comportar como
se, além dos governos, as populações lhes devessem
obediência, seja qual for a sua fé, ou nenhuma.

O reacionarismo medieval do pontificado de João Paulo II
em relação a questões de comportamento e valores
pessoais é arquiconhecido. Nem por isso as páginas
de opinião da mídia deveriam passar ao largo de suas
piores manifestações.

Melhor um editorial que dê razão aos curas do que
o silêncio por medo de contrariá-los.

Não é trivial, como se diz, o que a revista londrina
The Economist acaba de fazer com o premier italiano Silvio
Berlusconi, presidente de turno da União Européia.

Ela concedeu ao homem mais rico da Italia e pezzonovante
da mídia de seu país, cercado de acusações
de corrupção por tudo quanto é lado, a duvidosa
distinção de ser a capa da sua edição
desta semana, com a chamada “Dear Mr Berlusconi ? Our challenge
to Italy?s prime minister”.

Sob a forma de carta aberta, o desafio não apenas trata
do tido e sabido ? a lei sob medida recém-aprovada pela dócil
maioria do Parlamento italiano para impedir que a Justiça
ponha as mãos em seu líder ?, mas se desdobra em 28
perguntas sobre os seus biliardários negócios.

Como se fosse pouco, a revista colocou na internet um dossiê
de 8 mil páginas ? isso mesmo: 8.000 páginas ? contra
aquele a quem qualifica de “capitalista que abusa da democracia”.

The Economist é ardentemente pró-capitalista.
Democrata também, ainda que tenha tomado o partido de Augusto
Pinochet quando o procurador espanhol Baltazar Garzón tentou
extraditá-lo de Londres, onde se encontrava.

E embora não seja a mais europeísta das publicações
européias, é em nome da limpeza ética da Europa
unificada que a Economist quer que Berlusconi seja posto
para fora da cena política da UE.

Haja coglioni. Porque a revista corre o risco de pagar uma
montanha de libras ? o Reino Unido ainda não aderiu ao euro
? a título de indenização, se ele ganhar a
ação que prometeu abrir pelo “conteúdo difamatório”
da matéria.

Nas páginas quase sempre pedregosas da imprensa diária
brasileira, com os seus textos burocráticos ? mesmo quando,
dado o assunto, podiam ter uma pitada de sal ? além dos maus-tratos
de praxe ao português, é uma festa encontrar o avesso
disso.

Vai para o trono, portanto, o lide da matéria “Brasileiro
usa Teoria da Relatividade para resolver paradoxo do submarino”,
assinada por Ruth Helena Bellinghini, na pág. A 13 do Estadão
de quinta-feira, 31/7. É assim:


“Gente que vive tranqüila neste mundo de três dimensões
em que o tempo é marcado pelos ponteiros do relógio
nem pensa nisto. Mas os físicos ? ah, os físicos
? são diferentes”.



Já na página A 6 da mesma edição do
Estado, a matéria “Agenda social unificada deve sair
até 3?” informa que o ministro de Segurança Alimentar,
José Graziano, ao dizer que “estamos fazendo o caminho, caminhando”,
parafraseava “o poeta Pablo Neruda”.

Os famosos versos “Caminante, no hay camino, se hace el camino
al andar” são do espanhol Antonio Machado (1875-1939).

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