Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CURSOS DE JORNALISMO

Como garantir uma missa sem hereges

Por lgarcia em 12/12/2001 na edição 151

CURSOS DE JORNALISMO

Wladymir Ungaretti (*)

Todas as vezes que ouvi falar em melhoria da qualidade de ensino, pelo menos tem sido assim na área dos cursos de Jornalismo, acabei presenciando o aumento dos mecanismos burocráticos ? voltados para viciar e punir. A estrutura se reorganiza sob a alegação da necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de transmissão de conhecimento e, na verdade, institui formas mais "democráticas" de domesticar alunos e, eventualmente, professores rebeldes. O objetivo é sempre o mesmo: estabelecer o máximo de diferenças entre os bons e os maus. Acentuar a imagem negativa dos problemáticos. Recompensar os considerados bons. Por isso mesmo, todo processo de "melhoria da qualidade" vem acompanhado de sistemas mais sofisticados de avaliação de alunos e professores. Decorrência lógica é a crescente supervalorização da capacidade de decoreba em detrimento de qualquer-iniciativa-criativa-descontrolada.

Os bons alunos são valorizados e até premiados pelos professores-doutores. E, em relação aos maus alunos, a idéia é sempre a de enquadrá-los. Quando a rebeldia é demais o indicado é acachapá-los. Em meio a estes mecanismos "educativos" e/ou com parte deles é preciso estimular uma "rebeldia light". Coisa para "inglês ver".

Em tempos de neoliberalismo ? que de neo não tem nada ?, o sistema de educação superior está todo voltado para uma velha idéia produtivista que abarca professores e alunos numa obsessiva competição. É o discurso da eficiência. Não por acaso, as exigências de titulação e a necessidade de resultados são fundamentais. Acabou o espaço para os "incapazes".

Os verdadeiros críticos estão amarrados por uma montanha de normas e diretrizes burocráticas. Também são obrigados a ser instrumentos do processo de submissão, cujo objetivo final é impor a ordem e a obediência. Em lugar do prazer pelo estudo e por trabalhar em sala de aula é preciso cumprir os mecanismos de soma de pontos, com o aumento de títulos e dos "trabalhinhos de pesquisa". A sala de aula passa a representar um mal necessário. Dar boas aulas não conta pontos.

Reafirmo: o ensino de Jornalismo está em crise. Os cursos são a reprodução dos preceitos morais e ideológicos de uma sociedade em crise global. Alunos e professores, impregnados pelos valores do individualismo e da competição, são elementos essenciais para a manutenção dos mecanismos de alienação da realidade. De manipulação. O que vale é a autoridade, e não a liberdade. O saber criativo é esmagado pela pedagogia dos burocratas. O professor crítico vive na corda bamba. De um lado estudantes pragmáticos ansiosos pelo ingresso no mercado. De outro lado, a pressão dos professores-policiais-censores. Manter um discurso coerente e uma prática correspondente é quase impossível.

As reformas curriculares nos cursos de Jornalismo têm implicado aumento significativo no número de disciplinas e de carga horária. Quando criada a faculdade de Jornalismo da UFRGS, por exemplo, sua duração era de três anos e o curso estava estreitamente ligado à área das chamadas Ciências Humanas. Todas as reformas curriculares realizadas, desde sua fundação, significaram acréscimos dentro da idéia de realização de restaurações como forma de recuperar as defasagens do curso. Pode parecer correto o raciocínio indicativo de que este aumento de carga horária e de disciplinas se justifique pela crescente complexidade do exercício da profissão. Ou seja: a necessidade cada vez maior de especialização estaria se refletindo nos atuais cursos de Jornalismo.

A arte de enganar

A partir disso, propomos um raciocínio contrário, inverso. O que continua sendo absolutamente essencial para o exercício da profissão de jornalista? Continua sendo necessário que tal profissional tenha uma ampla "enciclopédia", o que significa ter uma sólida formação cultural. E, é claro, um grande amor pela língua portuguesa. As técnicas dos diversos meios (jornal, rádio, TV e nos tempos atuais, jornalismo on line) são de uma gama imensa de variações. É evidente que existem especificidades, tanto da técnica em relação a cada um desses meios, como até mesmo no campo interno de cada um deles. Redigir para o jornal O Globo não é o mesmo que redigir para o Jornal do Brasil, assim como não são idênticas as técnicas de redação nas diversas emissoras de rádio e/ou TV.

Quando passei pela faculdade, na condição de estudante, não havia laboratório fotográfico, estúdio de rádio ou TV, e nem por isso saíamos da faculdade sem as condições para o exercício da profissão. Tínhamos uma formação de cidadania muito mais sólida do que os atuais profissionais entregues ao deus-mercado. Qualquer estudante de Jornalismo com boa formação cultural, com domínio da língua está preparado para trabalhar em qualquer veículo de comunicação. O conhecimento de aspectos técnicos do meio ou do veículo específico se dá de forma natural.

Por essa e outras razões, a obrigatoriedade de um monte de disciplinas técnicas, nas diversas áreas (impresso, rádio, TV e on line) é "pura encheção de lingüiça", resultante da visão tecnocrática herdada do autoritarismo. Sou pelas cadeiras introdutórias e obrigatórias abrindo, logo a seguir, o direito de cada aluno escolher uma área para o restante do curso e uma segunda como opcional. O que é melhor para um professor: dar aulas a 50 alunos tendo apenas cinco interessados pelo conteúdo, ou dar aulas apenas aos cinco interessados? Por que obrigar o estudante a assistir aulas sobre as técnicas de como segurar o microfone ou sobre a abertura do diafragma de uma câmara fotográfica se o aluno quer trabalhar com texto? Ou vice-versa? Carl Jung denominava de misoneísmo uma das características intrínsecas da mente humana, "o medo e o ódio irracional às idéias novas."

Ou ainda: "Faça-o assustar-se com um bicho-papão e corra para salvá-lo, usando um cassetete de jornal para matar o monstro. Ou seja, primeiro, engane-o e depois engane-o de novo. Esta, em substância, é toda a teoria e prática da arte do jornalismo… (do Livro dos Insultos, de H. L. Mancken)

Jornalismo diluído

É preciso continuar assustando as comunidades do interior com a falta de segurança. O ensino de Jornalismo, para a elite, vai de vento em popa. Até porque tudo se passa no plano celestial.

O deus-mercado continua procurando por jovens jornalistas, recém-formados, com alto espírito competitivo e que realizem algum tipo de ação comunitária. Salário inicial ridículo, mas com amplas possibilidades de melhoria dependendo do grau de subserviência.

Em lugar de contestadores com espírito solidário temos competidores. As indignações diante das injustiças são resolvidas pelas ações filantrópicas.

Quem forma jovens assim e os joga no paraíso do mercado? Quem?

Todas as faculdades de Comunicação com seus cursinhos técnicos de Jornalismo. E se entre as dezenas de jovens algum lunático expressar o desejo de não vender sua força de trabalho a alguma rede, mas se colocar à disposição para a assessoria de imprensa de algum MST da vida, também acredite, será disfarçadamente ridicularizado. Claro que com a máxima discrição e com muitos sorrisos-sabonete. São bem vistos os que possuem espírito empreendedor e esperam em seguida constituírem suas pequenas empresas de comunicação. Já existem disciplinas, nos cursos de Jornalismo, com este "novo espírito." É preciso valorizar os empreendedores.Ou será que a lógica conservadora impregnada em toda a sociedade, nos tempos atuais, não atinge importantes aspectos do ensino nas universidades e, em especial, nos cursos de Jornalismo? Quem trabalha nos veículos de comunicação são fantasmas diplomados em faculdades celestiais?

Quem instituiu o mito, além das próprias empresas de comunicação, de que fazemos um jornalismo isento e que sempre escuta o outro lado? Estarão os cursos de Jornalismo completamente imunes ao espírito mercantilista do ensino imposto ao país pelas regras das agências internacionais da globalização capitalista? Não basta gritar contra a privatização. A defesa de um ensino aberto e plural tem sido na maioria das vezes instrumento do oportunismo dos que, disfarçados de democratas, fazem o jogo da elite. É mais comum do que muitos de vocês podem pensar a existência de sofisticados (e sutis) mecanismos que escamoteiam o conservadorismo. Recursos intelectuais são abundantes, até porque todos são mestres e/ou doutores.

É preciso insistir. Repetir.

Assim como a universidade não é um organismo neutro, pelo contrário, é uma instituição em que aparecem as contradições e conflitos de classe, o ensino de Jornalismo aí está inserido e da mesma forma não é neutro. Nele se agudizam os conflitos. Não por acaso os cursos de Jornalismo foram diluídos nas faculdades de Comunicação. Essa junção conservadora ? reacionária ? com os cursos de RP (Relações Públicas) e PP (Publicidade e Propaganda) cumpre esta função de diluição, deixando tudo no plano do comunicalês, bem ao gosto da parcela da elite que controla a indústria pesada da comunicação de massa.

Tapando o nariz

As faculdades de Comunicação, com seus cursos, formam ? ainda que precariamente ? a mão-de-obra voltada para as necessidades do deus-mercado. Os cursos são a expressão mais acabada dessa política. Estão sempre se adaptando à conjuntura, sem nenhuma proposição estratégica, em termos de formação profissional. Não por acaso celebram ? como grande feito ? quando alguns de seus alunos são escolhidos para os cursinhos promovidos pelas grandes empresas, os quais nada mais são do que mecanismos sofisticados de cooptação de jovens profissionais com o melhor grau de adestramento.

Também não por acaso os "melhores" professores são aqueles com perfil "policial-censor", ou seja, aqueles que exercem todo o seu saber supervalorizando a decoreba e a avaliação pelos conceitos A, B, C, D e E.

Por essa mesma lógica, não existem reformas curriculares, mas sofisticadas restaurações. Se nas áreas do ensino do Direito e da Medicina, por exemplo, é possível a instituição de mecanismos sofisticados que disfarcem a não-neutralidade, na área do Jornalismo temos o mito arraigado (e cultuado) dessa falsa neutralidade pela escuta (obrigatória?) do outro lado. Temos que sempre escutar o outro lado. Nunca é demais lembrar de algumas das idéias de Mino Carta, jornalista que no passado criou e dirigiu o Jornal da Tarde, as revistas Veja e IstoÉ, atualmente editando Carta Capital. Em uma de suas entrevistas, ele disse que nosso país é uma sociedade tão pouco complexa que existe apenas um lado, o da elite, que, com seus jornais ? todos iguais ? vende a idéia de neutralidade. Para essa elite e para os jornais (de um lado só) os cursos de Jornalismo, em geral, são o instrumento capenga, muito por incompetência, mas ainda com relativa eficiência para a formação de mão-de-obra. Reforma nunca, mas restaurações sempre que o mercado exigir. Sempre que a elite propuser.

Já em 1920, Henry Louis Mencken (1880-1960), um dos primeiros jornalistas a ter uma coluna assinada na imprensa americana, e que teve alguns de seus textos publicados no Livro dos Insultos (prefaciado por Paulo Francis e editado pela Companhia das Letras), dizia o seguinte: "Hoje há muitas faculdades como esta [Jornalismo], mas duvido que sirvam para alguma coisa. Por um lado, parecem estar todas caindo nas mãos de pedagogos profissionais ? uma classe obrigada a chafurdar no lodo por uma tirania plutocrática pior ainda do que a que oprime os jornalistas. Por outro lado, o máximo que uma faculdade de Jornalismo pode conseguir, mesmo supondo que ela injete em seus alunos um civilizado código de ética ? é gerar jovens repórteres que fugirão do jornalismo tapando o nariz, assim que se familiarizarem com o que se passa dentro de uma típica redação de jornal".

(*) Jornalista e professor de Jornalismo da UFRGS

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