Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA E TRÊS PODERES

Como se fossem coniventes

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

MÍDIA E TRÊS PODERES

Chico Bruno (*)

Em seu artigo dominical no Jornal do Brasil (12/10), o jornalista Augusto Nunes afirma que o Brasil é como "uma nau de insensatos que flutua repleta de representantes dos Três Poderes". Ao escrever a frase o jornalista acertou na mosca, principalmente depois dos últimos imbróglios que assolaram o país.

A semana foi farta para a mídia que, infelizmente, mais uma vez não soube aproveitar o abundante material produzido pelas autoridades brasileiras. As declarações do ministro Nelson Jobim, do Supremo Tribunal Federal, de que alguns artigos da Carta Magna foram incluídos sem terem sido votados no plenário do Congresso Nacional demonstram a total fragilidade republicana do país. A cobertura que a imprensa dispensou ao assunto foi tímida. Afinal, este é um fato de alta relevância, comparável à violação do painel eletrônico do Senado ou aos grampos telefônicos baianos.

Outro fato de extrema gravidade vem tendo cobertura pífia: o contrabando de sementes transgênicas de soja, que, segundo algumas autoridades do governo federal, começou em 1996 e não se restringe ao Rio Grande do Sul. Neste caso, o Executivo agiu e continua agindo da mesma maneira como age em relação ao jogo do bicho: faz de conta que não vê.

No rol da conivência

A imprensa segue os mesmos parâmetros, pois fez e continua fazendo vistas grossas às duas contravenções. No caso da semente de soja transgênica, nem houve tentativa de investigação jornalística para saber quem a contrabandeou, nem cobrança às autoridades que permitiram a ilegalidade. Para corroborar o descaso da imprensa, nenhum destaque ao pedido de CPI para apurar os responsáveis pelo contrabando, encaminhado à Mesa Diretora do Senado com a assinatura de quase a metade dos senadores com assento na Casa.

A imprensa, em ambas as situações, age como se fosse conivente com as ilegalidades praticadas em 1988, no caso da Constituição, e em 1996, no que tange ao contrabando das sementes de soja transgênicas.

Quem de direito poderia incluir no rol da conivência o Ministério Público, que também se omite em ambos os casos. Mas a praia em que surfamos é a da mídia, daí a cobrança de um maior empenho, para que os compromissos com os leitores sejam cumpridos. Aliás, a cada dia que passa a República vai se esvaindo em acontecimentos inusitados, que confirmam que estamos vendo passar uma nau de insensatos a flutuar nos Três Poderes do país e, também, na mídia brasileira.

(*) Jornalista

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