Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ARGENTINA

Comunicadores antimidiáticos

Por lgarcia em 10/07/2002 na edição 180

ARGENTINA

Jorge Marcelo Burnik, de Misiones (*)

Ns últimos anos, na Argentina, os governos têm sabido manipular astuciosamente a colocação de alguns âncoras de duvidosa ideologia no tocante à meritória objetividade, a qual dizem procurar. Um dos casos de destaque deste tipo de jogo foi o do âncora Bernardo Neustard, fiel servidor da linha do ex-presidente Menem. O sempre envelhecido Neustard fez um show jornalístico no qual, solapadamente no começo e burladamente no final, defendeu à capa e espada cada escândalo que ameaçou a quem descreveu como amigo (Carlos Menem), discurso emitido sem descanso no canal de TV Telefe, com seu Tiempo Nuevo, e agora no P+E (canal a cabo, Politica + Economia, associado à Agência Bloomberg).

Logo, com a descrença na imagem erodida de Neustard, o auto-renovável cenário político criou outro porta-voz. Este novo apresentador das idéias neoliberais, e concomitantemente do governo, é Daniel Hadad, que por estes dias protagoniza o escândalo que é manchete de jornais e revistas da Argentina, a compra do Canal Azul Televisión por uma desconhecida quantia (presumidamente bilionária). Mas o que é segredo mesmo é a sombra do ex-presi…diário Carlos Menem, como o patrocinador da despesa para a compra de mais um canal de comunicação por parte do advogado transformado em telejornalista-empresário Daniel Hadad.

A mesma pessoa que em dezembro de 1992 manifestava ao jornal La Prensa (20/12/92): "Para a empresa midiática, ganhar dinheiro é um dever ético.". Longe estão desta ideologia a filantrópica formação social e o direito do povo de saber das ações do seu governo. O canal Azul TV já foi almejado secretamente pela Igreja Universal do Reino de Deus (revista 3 puntos, 27/6/02) como ferramenta de manipulação de massas. Trata-se de um canal de TV aberta (Buenos Aires) e a cabo (no interior do país), com uma programação marcadamente estrangeirizada, que pertencia à companhia espanhola Telefônica, e que, por uma lei que proíbe a propriedade de dois canais abertos ao mesmo tempo pela mesma empresa, teve então de optar por um. Ficou porém com o controle da Telefe.

Mas, o que realmente criou mais uma situação de tensão social é que nos bastidores da compra da Azul TV apareceu a lembrança da boa relação que mantiveram Menem e Hadad durante a gestão presidencial dos anos 90, período no qual o até então produtor televisivo Hadad passou de apresentador de programas a no que aqui se chama "Zar da mídia" (czar da mídia), pelo poder financeiro-midiático conseguido em pouco tempo. Miguel Bonasso (Página/12 de 7/7/02) ilustra em sua matéria quão singular é a historia de Hadad, que passou de um salário de menos de 500 dólares (1985) à compra de um apartamento de 350 mil dólares poucos anos depois. Atualmente tem um duplex de 800m2 cotado a 3 mil pesos o m2 (antes da desvalorização da moeda), além da duvidosa adjudicação da Rádio Municipal (hoje Rádio 10).

Muitos criticaram na mídia a aparentemente estéril defesa do "emergente" Hadad feita por personagens escuros da vida sociopolítica da Argentina, nomes como os de Eduardo Massera, Suares Mason, Guillermo Cherasni e, mais perto no tempo, Aldo Rico, que foram heroicamente maquiados nas análises midiáticas (às vezes até ridicularizantes) de Hadad.

Os fatos acontecidos há duas semanas na Ponte Avellaneda, que custaram a vida de dois piqueteiros, foram inescrupulosamente deturpados no programa DH (Despues de Hora, iniciais egolatradamente coincidentes com Daniel Hadad) pelo âncora, com a idéia de sugerir "conspirações sediciosas dos piqueteiros contra a ordem pública". Conspiração que justificaria a ação policial no já imortalizado "massacre de Avellaneda".

A volta dos mortos vivos

A aquisição da Azul TV é analisada pela mídia como mais um elo de uma corrente midiática que procuraria estabelecer uma antinomia com a realidade atual da Argentina. Fala-se em "uma rede que propícia a redução dos espaços democráticos, o gatilho fácil fantasiado de mão rigorosa necessária, e a criação de um inimigo subversivo que justifique o controle militar do conflito social". Embandeirado com a ideologia dos que mais têm e de políticos à procura de uma nova chance, o neoczar da mídia que comungou com o governo dos 90 avança intempestivamente, mas não fica claro para onde vai, e isso o faz perigoso.

A importância do controle da mídia era de tal interesse no governo Menem que até foi revelado que durante algum tempo, no início da chamada era menemista, estabeleceu-se uma sala de rádio na Casa Rosada, ilusionismo midiático pelo qual foi designada a esta virtual estação uma freqüência da Rádio Nacional, a 98.3. Estação esta que logo passou às mãos de Hadad sem licitação e em tempo maratônico (24 horas), saindo do espaço físico da Casa Rosada.

À já escandalosa intenção de Menem de voltar a ser presidente somou-se na semana a "ressurreição" nos Estados Unidos do suicidado arrecadador do governo menemista, Alfredo Yabran, que teria assinado um documento na compra de um imóvel no país do Norte. Muitos entenderam esta notícia como oportunismo, num país com poucas alternativas de escapismo da inativa ação do setor político.

A dupla Menem-Yabram é para o povo argentino a lembrança de um tempo infame, e dentro da paranóia coletiva, o nome de Hadad se associa cada vez mais àquele passado escuro de negociatas. Como bem manifesta o jornalista Bonasso (Pagina 12): "Mesmo que o desemprego ultrapasse os 30%, e a lei obrigue os excluídos a morrerem de fome no silêncio, sem perturbar a digestão dos que ? como Daniel Hadad ? reclamam um Estado mínimo".

(*) Jornalista graduado na Universidade Nacional de Misiones, Argentina; para ver o artigo de Miguel Bonasso no Página 12, acesse <http://pagina12.feedback.net.ar/secciones/elpais/index.php?id_nota=7357&seccion=1&PHPSESSID=27d949ba729933e07a619e68f779c4fc>

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