Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES >   CASO TIM LOPES

Comunique-se

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

GZM EM CRISE

“GZM: funcionários preocupados com qualidade”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 27/09/02

“Os editores do jornal, suplementos, revistas e meios eletrônicos da Gazeta Mercantil enviaram a Luiz Fernando Levy mais uma carta com reivindicações pelo pagamento dos salários. Eles manifestaram preocupação quanto à qualidade do jornal. ?O temor generalizado entre os editores é o de que, pelas razões expostas em correspondência anterior – e que se agravaram desde então – pode chegar o dia em que o leitor se surpreenderá com um jornal dramaticamente mutilado?.

Leia aqui a carta:

?Reunidos às 16 horas de quinta-feira, dia 26 de setembro, os editores dos meios impressos e eletrônicos do Departamento de conteúdo do Grupo Gazeta Mercantil, decidiram reiterar a seus empregadores sua profunda preocupação com a falta de solução para o gravíssimo problema de não pagamento de salários.

Não cabe aqui repetir, por sabido, cansativo e desgastante, que o atraso no recebimento de salários cria situações de aguda crise pessoal e familiar entre todos os jornalistas desta Casa. A tensão que disso resulta já provoca baixas no comparecimento de jornalistas ao trabalho, com prejuizo evidente para a qualidade das funções que executam. O temor generalizado entre os editores é o de que, pelas razões expostas em correspondência anterior – e que se agravaram desde então – pode chegar o dia em que o leitor se surpreenderá com um jornal dramaticamente mutilado. A danos da mesma dimensão, correspondentes às peculiaridades da natureza do veículo, estariam submetidos os meios eletrônicos.

Esta manifestação tem dois objetivos principais: 1) Tentar retomar o diálogo epístolar que vinha sendo mantido entre a direção da empresa e os jornalistas – interrompido pelo silêncio da primeira. 2) Expor com sinceridade e lealdade o quão grave é a situação. (Para ajudar o entendimento do quadro: a rápida reunião dos editores, da qual resultou esta manifestação, foi convocada em substituição a uma assembléia no meio da redação, que se estenderia por várias horas; entre os repórteres há expectativa de que grande parte dos atrasos seja solucionada até amanhã, sexta-feira, conforme transmitido aos editores e à direção da empresa no início desta semana).

Para relembrar, resumimos a situação dos atrasos no pagamento de salários:

1) Jornalistas de fora da redação de São Paulo ainda não receberam

integralmente o pagamento de férias relativo ao mês de julho.

2) A quinzena de salários aprazada para o dia 20 de agosto só foi paga até

a faixa 7.

3) A quinzena aprazada para 5 de setembro só foi paga até a faixa 2.

4) Nenhum pagamento foi feito da quinzena aprazada para o dia 20 de

setembro.

Diante do exposto, esperamos que a direção da empresa nos preste informações o mais breve possível.?”

 

ÉPOCA

“Época entre formadores de opinião”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 27/09/02

“O grande desafio da revista Época – acontecer entre os formadores de opinião – parece ter sido finalmente alcançado, a julgar pelos números de circulação da Marplan, que comprovam um expressivo crescimento da publicação nos últimos meses, sobretudo nas classes A e B.

Esse foi um dos mais importantes recados passados pelo diretor de Redação da Época, Paulo Moreira Leite, no encontro que teve na manhã desta quarta-feira com executivos da comunicação corporativa, em evento promovido por este Jornalistas&Cia, dentro do projeto Encontro com Editores.

Paulo, que falou para uma platéia de 60 colegas, num agradável e descontraído café da manhã, no Mercure Grand Hotel (bairro do Paraíso), disse que o segredo desse bom desempenho tem um nome: jornalismo feito com seriedade, independência e sem preguiça ou desculpas, em que pesem as inúmeras dificuldades enfrentadas atualmente – ?O jornalista não pode se conformar com situações que o impeçam de exercer bem seu ofício; tem de se indignar e lutar para poder oferecer um produto de qualidade e não atribuir a fatores burocráticos um trabalho mal feito?.

Na conversa, não se furtou a comentar as polêmicas capas que ajudaram a virar o jogo a favor da revista, fazendo com que passasse a ser efetivamente comentada nas rodas, nos jantares, nos clubes, no trabalho, como tem de ser com uma publicação que quer firmar-se junto aos seus leitores e à concorrência.

Quatro dessas capas realmente viraram assunto nacional e nasceram, como ele próprio diz, mais da transpiração do que da inspiração. Uma delas foi sobre maconha, com a Soninha (que acabou lhe custando o emprego na tevê Cultura e uma projeção que jamais havia imaginado), uma outra sobre seqüestro, com Washington Olivetto (ainda em mãos dos sequestradores), uma terceira sobre erro médico, com Ana Maria Braga, e também aquela sobre a Roseana Sarney, que contribuiu para mudar os rumos da sucessão presidencial na primeira fase da campanha. Paulo também não deixou de dar respostas às acusações que pipocam aqui e ali de que a revista teria embarcado na candidatura Serra. Sobre este último assunto foi enfático: ?isso tem um nome e o nome é ciúme do furo.?

Para quem não acompanhou direito o episódio vale relembrar. A capa feita pela revista com Roseana Sarney foi acusada de estar a serviço da candidatura tucana, pois ajudou a desencadear um processo nacional de rejeição a ela, e isso serviu de pretexto para atribuir a Serra e seus correligionários a responsabilidade pela ação.

?Balela – disse Paulo -, foi sorte e suor. Estávamos no rastro da Roseana, pela sua posição na sucessão e iríamos fazer uma matéria provocativa, mostrando a contradição de as mulheres aproximarem-se do poder (ou próximo a ele) não pelo aguerrido PT (que sempre escancarou suas portas ao feminismo e às mulheres), mas sim pelo PFL. Com a revista já em gráfica, por volta das 20h da sexta-feira recebemos, através de um repórter que tem um amigo no Maranhão, a informação da descoberta da Polícia Federal no escritório do Jorge Murad. Em pouco mais de meia hora mudamos tudo, jogando no lixo mais de 200 mil capas já rodadas e uma parte do miolo da revista. Sem qualquer interferência da cúpula da empresa, que, aliás, apoiou a decisão. Fizemos, naquele episódio, jornalismo e da melhor qualidade.?

Quando assumiu Época, a revista vinha de uma crise envolvendo o comando e já de um primeiro processo de mudança, desviando-se do projeto inicial da Focus alemã. Com a contratação de Paulo Moreira Leite para suceder Augusto Nunes, a Globo rendeu-se às evidências de que o projeto Focus foi um erro e que os anabolizantes (brindes para vender mais assinaturas) uma distorção.

Ao aceitar o convite, Paulo disse que sua grande missão seria fazer a revista ser comentada nos jantares, repercutir na classe média, oferecer impacto a assuntos relevantes, mas nem sempre atraentes. Aumentar a venda pela qualidade editorial e não por subterfúgios.

?Cheguei de volta ao Brasil – comentou -, após uma temporada como correspondente da Gazeta Mercantil em Washington, num momento particularmente especial, sobretudo dentro das Organizações Globo. Os controladores da empresa afastaram-se da operação por entender que era fundamental separar jornalismo de negócios e os negócios do jornalismo, sabedores de que se não fosse assim a médio e longo prazos perderiam a credibilidade. O caso da capa com Ana Maria Braga ilustra muito bem isso e mostra a nossa total independência, inclusive dos demais veículos do grupo. Fizemos a capa, chamando para a possibilidade (real) do erro médico, e isso virou assunto de destaque não na Globo, mas no Programa do Gugu, no SBT, o que, aliás, ajudou a alavancar tremendamente a venda nas bancas e, obviamente, a audiência da concorrência.?

Outro caso comentado pelo diretor de Época foi a capa com Soninha, que ainda hoje mostra-se desconfortável com o rumo que tomou sua vida, depois da matéria da maconha. Diz Paulo: ?Fuma-se muita maconha no Brasil, mas o tema descriminalização da maconha já não chama mais a atenção de ninguém. Muito menos editorialmente. Queríamos mostrar o tema, mas a partir de personagens que assumissem o fato. A editora Angélica Santa Cruz, que coordenou a matéria, havia feito um trabalho parecido para Veja, numa matéria sobre aborto, e saiu a campo buscando personagens. Ora, a Soninha é maior, vacinada, deu entrevista, posou para foto e é jornalista. Dizer que não sabia que seria capa, que estaria nos outdoor etc, é renegar a própria profissão, pois ela sabe, como todos nós, que manchete, destaque, quem dá é o editor, no fechamento. Foi o que fizemos, com muita competência. Tanto que ela questiona a forma, mas não o conteúdo ou suas declarações. Acho que acertamos e que a sociedade ganhou com isso?, declara.

Ele comparou o caso de Soninha com o do publicitário Olivetto. ?Da mesma forma que ganhou quando decidimos colocar o Olivetto (Washington, da W/Brasil), numa capa que fizemos sobre seqüestro. Ali, se houve um erro, foi termos falado pouco do próprio seqüestro do Olivetto (até porque efetivamente havia informações confidenciais e que poderiam comprometer as ações em andamento), mas não a divulgação do caso. Óbvio que esse é um assunto polêmico e que não tem uma regra absoluta, mas eu, particularmente, estou convencido de que para o bem da sociedade é preciso divulgar as ações criminosas para inibi-las, sem fazer o jogo que interessa aos criminosos. Acho que aqueles que concordam em não divulgar um seqüestro e depois do caso encerrado dão detalhes de como foram as negociações, quanto foi pago de resgate etc., prestam um desserviço maior à sociedade, pois abrem aos bandidos informações estratégicas e que servem de orientação para novos crimes. Nós, ao contrário, tratamos tudo abertamente, mas no recusamos a dar essas informações. Obviamente, ao fazer aquela capa, quando ninguém falava no assunto, explodimos nas bancas, sobretudo porque os leitores – sequestrados das informações – queriam efetivamente acompanhar e saber o que estava se passando ao seu redor?.

Paulo comentou também sobre a capa com Hugo Chávez, aquela que dava o golpe na Venezuela como coisa sem volta e diz que ali, efetivamente, a revista errou. ?Erramos menos que os demais – diz -, mas não há como negar que a revista poderia no mínimo ter feito sua cobertura mostrando o absurdo e a irresponsabilidade daquela aventura. Reconheci pessoalmente o erro em editorial na edição seguinte?.

Paulo assegura que Época vai continuar buscando o furo, buscando o impacto, a repercussão junto aos formadores de opinião, pois entende que esse é o espaço que a revista tem de ocupar e que já está ocupando, e que isso é o que a diferenciará tanto da Veja, quanto da IstoÉ. Não com sensacionalismo barato, mas com jornalismo de qualidade, criativo, investigativo, bem escrito, bem apurado.

Foi convincente. Provocado sobre como via e que análise fazia das concorrentes, particularmente da Veja, onde trabalhou por mais de duas décadas, disse: ?A impressão que eu tenho é de que os colegas da Veja fazem de conta que não existimos, mas lá dentro agem sabendo que existimos e incomodamos. Eu no lugar deles provavelmente faria o mesmo?.

Sobre a paranóia dos números, das tiragens, das vendas, saiu com essa: ?Nos tempos da Veja, numa reunião entre o dono da Abril, Roberto Civita, e os editores da revista, após inúmeras intervenções sobre matérias e capas que tinham ajudado a vender mais ou menos revistas (cada um puxando a sardinha para sua própria brasa) ele disse: jornalista não deveria preocupar-se com números, com tiragem, e sim com notícias. Ele estava certo, embora hoje todos saibamos que os números – esses mesmos que garantem o emprego de todos nós – são discutidos até mesmo pelo porteiro da editora.?”

 

CASO TIM LOPES

“Viúva de Tim Lopes vai processar TV Globo”, copyright Folha Online, 27/09/02

“O advogado André Martins, representante legal da viúva do jornalista Tim Lopes, Alessandra Wagner, disse que sua cliente entrará com uma ação de indenização por danos morais e materiais contra a TV Globo.

Martins afirmou que a Globo não aceitou a proposta de indenização feita por Alessandra e, por isso, ela irá à Justiça. A pedido da família, os valores em negociação não estão sendo divulgados.

Segundo o advogado, Alessandra não aceita que, entre outras recusas, a Globo não queira pagar indenização por danos morais ao filho dela (enteado de Lopes).

?A Globo se recusou a pagar danos morais ao enteado do Tim. Aí a gente não conversou mais nada. Alessandra achou um absurdo eles usarem a imagem do filho dela, cartas do filho dela no ar para dar emoção e não reconhecerem a dor do menino?, disse Martins.

Para o advogado, ?faltou ética? à Globo e não será possível fazer acordo. Martins avaliou que poderá dar entrada na ação num prazo de 15 a 20 dias.

Lopes foi morto no dia 2 de junho quando fazia uma reportagem na Vila Cruzeiro (zona norte). Ele foi torturado e morto por traficantes do grupo de Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, segundo a polícia.

Para Martins, a Globo expôs Lopes ao risco e sonega informações sobre o informante dele na favela. Ele quer que o Ministério Público convoque como testemunha a chefe de Lopes na Globo, Márcia Monteiro, já ouvida no inquérito.

Na última segunda-feira, o chefe de reportagem da emissora, Marcelo Moreira, depôs e disse que a reportagem de Lopes era considerada ?de alto risco?.

Moreira disse ter sabido que Lopes já teria mostrado algumas imagens feitas na favela à chefe de redação. Afirmou que não sabia quem era o informante de Lopes, mas ouviu dizer que essa pessoa teria sido retirada da favela pela Globo, não se lembrando de quem lhe dera a informação.”

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