Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > RÁDIO ELDORADO

Comunique-se

Por lgarcia em 18/12/2002 na edição 203

RÁDIO ELDORADO

“?Não posso mais trabalhar aqui?”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 16/12/02

“Uma confusão armada por um congestionamento provocou um clima tenso no dia 06/12 durante a transmissão do programa Última Edição, da Rádio Eldorado. Preso no engarrafamento, o diretor-geral da rádio, João Lara Mesquita, entrou no ar como ouvinte-repórter para relatar o que estava acontecendo, quando ele e o âncora Marco Antônio Abreu ?se estranharam? ao vivo. ?Estou consternado. Não posso mais trabalhar aqui?, disse o jornalista a Comunique-se.

Segundo Abreu, o chefe ficou irritado porque achou que o apresentador estava falando demais e emitindo sua opinião. ?Ele disse para todos ouvirem: ?Cale a boca. Não quero mais ouvir a sua opinião no ar. Você fala, fala, fala, fica deitando falação enquanto estamos passado por esse sufoco?.

Os motoristas presos no congestionamento foram vítimas de assaltos e moradores de uma favela da região apedrejaram alguns carros. ?Tentamos entrar em contado com a direção da Ecovias e pedia no ar que alguém nos procurasse para explicar o que realmente estava acontecendo. Mas o sr. João Lara se alterou e pediu que me substituíssem?.

O próprio João Lara Mesquita confessa, em editorial publicado na site da Rádio Eldorado (aqui), que ficou nervoso com a situação. O presidente do Clube da Voz, associação voltada para profissionais de rádio, Edson Mazieiro, diz ser justificável que qualquer pessoa perca a cabeça numa situação como essa, mas enfatiza que é solidário ao âncora, já que, segundo ele, houve desrespeito contra Abreu. ?Não queremos criar polêmica. Nosso objetivo é apenas mostrar como se deu o ocorrido. Com tantos anos de profissão, nunca vi nada igual. Problemas têm que ser resolvidos fora do ar?, diz Mazieiro.

Abreu conta que ficou uma semana afastado da rádio. Nesta segunda (16/12), durante uma reunião com o próprio João Lara Mesquita, da qual participaram os editores Taís Freitas, Felipe Bueno e Lidice Leão, o âncora decidiu que não quer mais continuar na emissora. ?Ele me enviou e-mail pedindo para que nos encontrássemos, para pedir desculpas. Mas acabou sendo ainda mais grosseiro comigo. Até de anta ele me chamou. Se eu decidir ficar, vou acabar endossando o que ele me falou?, diz Abreu.

O apresentador conta que recebeu mais de 300 e-mails de apoio de ouvintes. ?Vejo que tenho grandes amigos. É isso que me preenche?, afirma.

Mesquita disse, através de sua secretária, que o que há para dizer está escrito no editorial publicado no site da emissora.”

“Sete horas de angústia, pânico e terror”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 16/12/02

“Segunda- feira, 9/12/2002, 16h40.

Acabo de chegar de Bertioga, no que foi um dos piores fins de semana de minha vida. Minha cabeça dói de tanto pensar. Ainda assim sento ao computador, relembro o que passei e escrevo:

Sexta feira, 6/12/2002.

Assisti as manchetes do jornal nacional, e percebendo que não havia nada de novo, pego meu carro e me dirijo para a rodovia dos Imigrantes. O trânsito estava intenso, mas fluia bem. Passei o pedágio, peguei a interligação para a Anchieta, e exatamente as 21h20 sou obrigado a parar, a 5 km do início da descida da serra, por causa de um congestionamento monstro.

Eu não sabia, mas meu suplício estava apenas começando. Liguei do celular para a Rádio Eldorado e avisei ao Felipe Bueno, chefe de redação, que o congestionamento estava armado. Pedi a ele que avisasse ao âncora do horário, que não fizesse entrevistas longas, e desse preferência à prestação de serviços, que é o que está escrito no Manual de Redação da Eldorado. Mas o âncora, não parava de falar. Liguei de novo ao Felipe e pedi que além dele ligar para a Ecovias, que falasse de novo ao âncora para ser breve nas interrupções dele.

Os ouvintes-repórteres começaram a entrar no ar. As duas pistas da Anchieta haviam sido fechadas pelos moradores da favela, o congestionamento só tendia a crescer. Liguei mais uma vez para a Eldorado-Estadão, 700Khz, e pedi ?pelo amor de Deus?, que o âncora fosse breve e colocasse no ar tantos ouvintes-repórteres quanto possível, enquanto o Felipe mais uma vez tentava ligar para alguém da Ecovias para que a concessionária explicasse aos ouvintes o porquê daquilo tudo. O Felipe me informava que ninguém da Ecovias queria falar, que ?eles não tinham ordens para dar entrevistas?.

Meu sangue subiu. Nervoso, comecei a ligar para os outros chefes da redação em suas próprias casas, pedindo a eles que fossem para a rádio porque aquela noite seria longa. Enquanto isto eu continuava a ouvir os relatos de nossos ouvintes, naquele momento contando sobre assaltos que eram praticados pelos moradores da favela, sem que nenhum policial rodoviário aparecesse para ajudá-los. Um destes ouvintes contou que o carro dele havia sido apedrejado…

Mães de família, sozinhas em seus carros com filhos, ligavam e entravam no ar desesperadas pela falta de apoio, ou de explicações por parte da Ecovias. De meu celular, ainda no acostamento da interligação, liguei para o Antonio Penteado Mendonça que estava em casa. Bingo! ?Nico, corra prá rádio para ajudar. Está acontecendo um enorme congestionamento, assaltos são praticados, e a redação da rádio está com pouca gente?, foi assim que eu contei a ele o que estava rolando.

Enquanto isto, o âncora continuava a deitar falação. Liguei prá rádio, entrei no ar e disse: ?quem está falando agora é João Lara Mesquita. Por favor, pare de dar sua opinião pessoal, e coloque apenas os ouvintes no ar?, tudo isto foi dito num tom bem exaltado, pois eu começava a ficar com medo das possíveis consequências daquele congestionamento.

Um ouvinte-repórter ligou para dizer que havia recebido um impresso do povo da favela, alertando que eles iriam fechar a rodovia em sinal de protesto. Eram mais ou menos 22hs, e até aquele momento eu não havia visto nenhum guarda, ou o pessoal da Ecovias.

Liguei aos berros para meu irmão Ruizito e contei a situação. Pedi a ele que ligasse o rádio. O Ruy ficou muito nervoso, e pelo sim pelo não, liguei também para a casa de meu pai e contei o que estava havendo. Minutos depois me liga o delegado Naif Saad Neto, a quem mais uma vez relatei o que estava acontecendo.

Pouco depois outro delegado me liga, desta vez o Ivaney Caires de Souza. A esta altura eu estava apavorado, e disse ao delegado que a tropa de choque não conseguiria chegar, porque o congestionamento já estava se tornando monstruoso. Ia da baixada até um pouco antes do pedágio da Imigrantes. E aos gritos, eu disse ao Ivaney: ?Por favor, ponha lucidez nesta história!?. O Ivaney entendeu no ato, e me disse que iria pedir à polícia de Santos que subisse a Serra, e assim a desimpedisse.

Um pouco mais tarde, um carro que vinha pelo acostamento, onde eu havia parado meu carro, começa a buzinar. Eu não tinha por onde sair, porque as duas pistas da Interligação estavam impedidas, o congestionamento era enorme, e uma fila de carros vinha pelo acostamento logo atrás do meu. Pelos 700 Khz eu ouvia o Nico ancorando e entrevistando o secretário de segurança, o Sr. Saulo de Abreu Castro, que havia sido informado pelo Naif.

O Saulo tentava acalmar os ouvintes da Eldorado. Enquanto isto, o motorista do carro atrás do meu, irritado porque eu não andava (repito que estava no acostamento), começou a tentar empurrar meu carro com o dele. Como nem assim eu saí, o motorista desceu, foi até a janela do meu carro, e ameaçou me agredir com um soco de fora para dentro do carro.

Tranquei as janelas e as portas, e sai mais para a direita, caindo num atoleiro, mas conseguindo tirar meu carro do acostamento. O motorista esquentado pôde então tentar descer a Serra, e eu, apavorado de ser linchado, continuava atolado e falando com a redação, orientando o pessoal e entrando no ar com notícias ao vivo do martírio pelo qual passavam os cidadãos paulistanos e santistas que naquela sexta-feira maldita tentavam descer a Serra.

E assim foi até a uma e meia da madrugada de sábado. Então o congestionamento começou a se desfazer e os carros a seguirem seus caminhos. Consegui desatolar meu Audi e fui em frente. Eu estava com pouca gasolina, pois havia saído de casa com o tanque pela metade, e tinha ficado todo aquele tempo com o motor ligado para dar carga em meu celular e assim continuar a prestar serviços.

Assim que cheguei ao viaduto que passa por cima da Anchieta, logo depois da primeira pista que desce a serra, a dos caminhões, parei e esperei mais um pouco, porque daquele lugar eu podia ver o início da descida da serra, e percebi que o congestionamento ainda persistia.

Neste momento, uma e trinta da manhã, surgiu um cara suspeito vindo em minha direção. Eu, que estava fora do carro, falando no celular, comecei a correr para o lado oposto do suspeito. Foi quando o Naif me ligou pela segunda vez. Descrevi onde estava e o que via, e o Naif me pedia calma. Ele ia mandar algum policial me escoltar Serra abaixo.

Foi então que apareceu o primeiro policial rodoviário que eu havia visto desde que entrara na Imigrantes. O policial parou a viatura, e eu ainda falando com o Naif, disse ao policial que ?eles eram uns irresponsáveis?. O cara ficou bravo e veio em minha direção, com a atitude de quem ia me dar um soco na cara. Andei para trás, olhando para o policial que avançava, e continuei a falar com o Naif. Este tentava desesperadamente me acalmar. ?Joao fique calmo. Não bata boca com estes caras. Eles sao estourados. Pode acontecer uma desgraça.?

Fiquei mais calmo graças a esta conversa. Minutos mais tarde chegou um guincho da Porto Seguros que entrevistei ao vivo. Mas disse que eu não queria ser guinchado, mas escoltado pela descida da Serra. E foi isto que aconteceu. Alguém pelo rádio da viatura falou ao policial quem eu era, e este me escoltou até a baixada. Cheguei em meu barco às tres e meia da manhã. Conversei um pouco com meus amigos Plinio Romeiro e Aloisio Christiansen e fui dormir.

Sábado acordei ao meio dia e toquei meu veleiro para Bertioga. Chegamos lá por volta das 15hs. Liguei meu Semp-Toshiba, presente do Afonso Hennel, e sintonizei mais uma vez os 700 Khz da Eldorado. Um certo Hamilton, da Ecovias, dizia no ar que ?a coisa não tinha sido séria, que eles haviam tomado as providências,? etc, etc. Mais que depressa, liguei para a rádio e pedi que me colocassem no ar junto com o Sr. Hamilton. Abriram o microfone para mim e eu comecei: ?O que este homem está dizendo é uma mentira deslavada?. E começamos a bater boca no ar.

O Hamilton então disse que era mentira minha, pois eu havia sido escoltado. Retruquei dizendo que eu tinha entrado na estrada às oito da noite, e só a uma e meia da manhã é que chegou o primeiro policial perto de mim. Falei um montão para o tal senhor, e as tantas ele disse que iria mandar tudo aquilo ?ao jurídico da Ecovias?. Perdi a cabeça e no ar disse a ele: ?quem vai te processar é a Rádio Eldorado. Segunda feira vou constituir como meu advogado, o doutor Manuel Alceu Affonso Ferreira, o mesmo que me ajudou a acabar com a Voz do Brasil, e vou pedir uma indenização enorme por perdas e danos, e vou doar tudo ao hospital do câncer?. E prossegui: ?Desde junho que sofro da síndrome do Pânico, estou me tratando com medicamentos e acompanhamento médico. Só por isto e só por isto, minha crise de pânico diminuiu.?

Acalmei depois disto. Desliguei o rádio, peguei meu bote e fui dar uma volta. De noite, antes de ir dormir, estava no cockpit de meu barco quando uma canoa de metal se aproximou sorrateiramente. Quando me dei conta, dois homens haviam pulado para dentro de meu barco, armados com um 38 e uma carabina 44, e mandaram que me deitasse no chão com o rosto para baixo.

Gritei para meu amigo Alonso que assistia TV dentro do barco, para que ele fizesse o mesmo, e não olhasse na cara dos bandidos. Um terceiro assaltante subiu a bordo com uma espingarda calibre 12.

Fomos amarrados com as mãos para trás e trancados no banheiro da proa do veleiro. Os ladrões levaram minha câmera nikon, duas objetivas, o rádio vhf fixo e o portátil, o ploter do barco, um binóculos, um motor de popa de 15hp, meu botão SR-500, da flexboat , equipado com um motor Mercury de 115hp, meu aparelho celular e o aparelho celular do Alonso. Levaram também uma maleta contendo um notebook e um celular, ambos da Rádio Eldorado, e, ainda, um celular satélite Globalstar que estava a bordo. E na saída ainda disseram: ?se vocês se mexerem, ou ligarem o veleiro, nós voltamos e fuzilamos vocês.Tem gente nossa olhando seu barco da praia, estamos de olho em vocês desde ontem?. E foram embora.

Rezei. Pensei em meus dois filhos pequenos, o Luis de sete anos, e o José de quatro anos e meio, e quase chorei de medo, humilhação e desespero. Esperamos uns dez minutos, o Alonso se soltou, me desamarrou, e ficamos quietos dentro do banheiro por mais dez minutos. Então, baixinho eu disse ao Alonso: ?Você vai para a proa do barco, agachado, e corta o cabo do ferro. Enquanto você faz isto, eu ligo o motor do veleiro e nós vamos para o pontão da balsa de Bertioga.Se chegarmos lá, estaremos livres.?

Foi assim que fizemos. E conseguimos.

Agora são 17h e cinquenta minutos da segunda-feira, nove de dezembro.

João Lara Mesquita”

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem