Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO GUGU

Concorrentes repetem a fórmula

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

CASO GUGU

Manuel Muñiz (*)

O Domingo Legal ainda é tema de estudo e reflexão, e não podem deixar de ser, também, os programas do tipo mundo-cão, como os dos apresentadores ameaçados de morte ? Datena, Marcelo Rezende e Milton Neves ? na farsa armada pelos produtores de Augusto Liberato, o Gugu. A gravidade do fato levado ao ar só teve mesmo eco graças à sandice, para não dizer burrice, dos produtores, que ousaram mexer com jornalistas que detêm um horário considerável na TV, que, claro, se assustaram mais o que qualquer um.

Fora isso, tudo estaria na mesma: o Domingo Legal correndo atrás de sua audi&ecircecirc;ncia a qualquer preço, o que não significa que a orientação tenha mudado. Pelo contrário, o modelo está vivo, principalmente, nos programas dos apresentadores que tanto chiaram por conta do sensacionalismo barato e grotesco apresentado pelo SBT.

O que continua valendo é a busca da publicidade impulsionada pelos números da audiência. Dane-se o público e o que mais possa representar a técnica de programas sensacionalistas como os dos tais apresentadores. Embora se fundamentem em imagens reais, focalizam apenas o drama momentâneo, sem a responsabilidade de esclarecer a continuidade dos fatos, levando ao público mais dúvidas do que soluções.

Tensão simulada

Em busca de impacto, de audiência e lucro, vale tudo, ainda que a imagem dos acontecimentos possa representar a base de "verdade" sobre a qual os apresentadores representarão seu trabalho. A hipocrisia desse modelo não é menor do que a farsa apresentada por Gugu.

Imagino Datena chegando à redação da Bandeirantes. "E aí, como está o dia, hoje?", pergunta ao editor, que responde de pronto: "Hoje a coisa está boa: dois assaltos a banco, uma mulher querendo se suicidar e fuga de presos em Bangu. Fora nossa ronda com a PM."

Minutos mais tarde, o âncora do Brasil Urgente, como de hábito, diria no ar, soltando seus bordões aos gritos: "Assim não dá. Vejam a que ponto chegamos! Se continuar assim, a sociedade não agüenta, não agüenta…".

O enredo desse tipo de programa policial sustenta a forma de abordagem, mas não a justifica. Porque toda a representação, no fundo, é estéril. Não vai a lugar algum, embora dê a impressão de fazer alguma diferença.

As músicas de fundo simulando e provocando tensão são prova disso. As vozes alteradas dos comentaristas é outro ponto comum dos discursos que têm a mesma finalidade, de provocar espanto e indignação. No entanto, raramente um caso volta ao ar no dia seguinte ou se procura uma conclusão para os ataques feitos à Polícia, ao Estado etc.

Controle da programação

Em suma, o que vale é arrancar atenção, buscando com a técnica realçar a "gravidade" das imagens, que, aliás, já estão se tornando vulgares. Podemos assistir a alguém morrendo "ao vivo", comendo bolachas e tomando chá, impassíveis e impotentes.

Dessa forma, achar que o público acredita na tomada de posição desse tipo de apresentador é mesma mentira sem responsabilidade que o Domingo Legal apresentou. Falta a esse tipo de programa critérios sociais sérios. O que eles mais fazem é realçar atitudes criminosas e violentas. Justificativas como a de dizer que se divulgam matérias sobre criminosos para mostrar o que não se deve fazer é contar histórias da Carochinha.

Na verdade, a TV achou um nicho de mercado à sombra da incapacidade dos governos de cuidar da questão social brasileira, como da horda de desempregados e de pessoas que se colocam à margem da educação por falta de políticas sociais.

Está mais do que na hora de um controle da programação da TV, pela sociedade ou pelo governo. Somente medidas sérias e responsáveis poderão reordenar as idéias sobre esses programas, que usurpam a atenção do público com espetáculos sensacionalistas utilizando o jornalismo para entretenimento barato e grosseiro.

(*) Jornalista e professor da Faculdade Integrada da Bahia

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