Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > GLOBALIZAÇÃO

Confronto Financial Times X Le Monde Diplomatique

Por Alberto Dines em 20/06/1997 na edição 24

O Financial Times (FT) e o Monde Diplomatique (MD) aceitaram convite de Howard Machin, diretor do Instituto Europeu da London School of Economics and Political Science (LSE), para participar de um “debate contraditório sobre o tema da globalização”, realizado em Londres no dia 7 de maio último.

Os textos reunidos são: “Mas por que este ódio dos mercados?”, por Martin Wolf, redator chefe associado e cronista do FT, “Para salvar a sociedade!”, por Bernard Cassens, jornalista do MD e professor do Instituto de Estudos Europeus da Universidade de Paris VIII, “Uma obrigação moral”, por Peter Martin, redator chefe da edição internacional do FT, “Em face do jornalismo de mercado, encorajar as dissidências”, por Serge Halimi, jornalista do MD e também professor do Instituto de Estudos Europeus de Paris VIII, “Reformas que não foram suficientemente longe”, por Guy de Jonquières, redator chefe da seção de Economia e Comércio Internacional do FT, e “Uma máquina infernal”, por Riccardo Petrella, professor da Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e presidente dos Amigos do Monde Diplomatique.

Os textos podem ser lidos em francês e em inglês.

Publicamos aqui uma tradução (do francês) da apresentação da edição e de trechos do artigo de Serge Halimi, que discute diretamente o papel dos jornalistas em conexão com tópicos que estão no nosso Entre aspas.

Em caso de dificuldade de acesso ao site do MD, favor pedir esclarecimentos à equipe do O.I.

“A globalização é inevitável?

A globalização é tida, na quase totalidade dos grandes meios de comunicação europeus, como dado que dispensa discussão.

Entre eles, é o prestigioso cotidiano Financial Times que – com o semanário The Economist – dá títulos de nobreza às teses liberais. Justamente reputado pela qualidade de sua cobertura da política internacional e pelo rigor de suas informações econômicas, financeiras e mesmo sociais, o FT, como é chamado familiarmente, distingue sempre os fatos – sagrados – das opiniões, publicadas como comentários onde se mostram com vigor suas convicções. Assim, no dia 29 de abril último, numa tomada de posição pré-eleitoral que terminava afirmando sua preferência pelo ‘novo trabalhismo’ do Sr. Anthony Blair, ele lembrava que as opiniões editoriais do jornal ‘são moldadas por sua fé na economia de mercado, no livre comércio e na criação de uma Europa voltada para o exterior’.

Por seu lado, em sua diversidade, os pontos de vista manifestados no Monde Diplomatique fundam-se, eles também, em informações e fatos rigorosos, mas referindo-se a valores não mercantis. Traduzido em cinco países do Velho Mundo, o MD é resolutamente favorável a uma Europa dos cidadãos e das políticas comuns, e critica a proposta de uma zona de livre comércio, simples segmento do mercado mundial. Considera que a economia deve ser colocada a serviço da sociedade, e não o contrário.

Vê-se que se trata de duas visões de mundo diferentes, que raramente têm a oportunidade de se confrontar. Por isso, o MD acolheu a iniciativa do Sr. Howard Machin. O encontro reuniu público numeroso e deverá ter um prolongamento em Paris no outono, igualmente em ambiente universitário. Cabe esclarecer que os seis participantes não tentaram chegar a um consenso artificial, o que se avaliará pela leitura de suas intervenções.”

Em face do jornalismo de mercado, encorajar as dissidências

Serge Halimi

“Que devemos nós, jornalistas e intelectuais, fazer num mundo onde 358 bilionários possuem mais riqueza do que quase metade da população do planeta? Onde Moçambique, com 25% de crianças que morrem de doenças contagiosas antes dos cinco anos de idade, destina duas vezes mais dinheiro ao pagamento de sua dívida do que às despesas de saúde e educação? (….)

Mas como podemos nós, jornalistas e intelectuais, denunciar esta situação e propor soluções quando esses bilionários, os ‘Bill’ Gates, os Rupert Murdoch, os Jean-Luc Lagardère, os ‘Ted’ Turner, os Conrad Black do planeta possuem os jornais e as editoras para as quais escrevemos, as rádios nas quais nos manifestamos, as redes de televisão em que aparecemos? (….) Quando os que assinam os cheques, e escrevem as leis, e investem e reestruturam, e demitem, são também nossos empregadores, nossos anunciantes, nossos distribuidores, nossos interlocutores e nossos ‘decisores’?

(….) Conscientemente ou não, somos freqüentemente os bedéis da ordem e os ventríloquos da injustiça. E este é um dos resultados da globalização. Com certeza, ela não é inevitável: outros, ao longo da História, arrostaram o irreversível. Mas os meios de comunicação de massa, instrumento dos poderes vigentes, querem a qualquer preço convencer que a grande transformação capitalista deste fim de século tem caráter ‘incontornável’. E persuadir que, no fundo, ela seria até desejável. (….)

Fácil de detectar, retomada docilmente pelos grandes ‘partidos de governo’, clonada em cem linguagens pelo fenômeno da globalização, esta nova ortodoxia procura submeter todos os governos do planeta à ‘única política possível’: a que tem o consentimento dos ricos.

Quando os meios de comunicação e os governos se transformam em brigada de aclamação dos mercados financeiros, a ortodoxia liberal se torna quase totalitária.

Refletir como jornalistas e como intelectuais, esquecer os reflexos e a postura do escriba, é às vezes concluir que essa modernidade é destrutiva e que certos arcaísmos são necessários. É opor-se a um tipo de globalização e imaginar outro. É sobretudo combater a crença de que vivemos o único destino permitido.

Um pouco como os stalinistas em relação ao comunismo, cada vez que alguns tropeçam ou caem no caminho de uma sociedade de mercado pura, radiosa e florescente, os passos em falso são imputados a maus caminhantes, jamais à louca direção da marcha.

E, um pouco como faziam os stalinistas, os apóstolos da globalização atribuem a seus críticos um quantum de irracionalidade justiçável com um programa de reeducação.

E se, ao contrário, o mercado fosse um modelo que não funciona bem para a maioria dos habitantes do planeta? E se, ao contrário, os mercados, que podem ser uma máquina formidável para criar riquezas, não soubessem construir uma sociedade humana, justa e decente? Que preço teremos que pagar para aprendê-lo e tirar disso algumas lições? Quantas pessoas abandonadas na pobreza? Quantos descartados daquilo que o Sr. Greenspan, presidente do Federal Reserve americano, chamou ‘a exuberância irracional dos mercados’? Quantos afastados pelos vigilantes para fora das ‘comunidades’ privadas dos ricos? Quantos americanos atrás das barras de uma cela? Quantas destruições subterrâneas e quantos motins? E quantos cidadãos convencidos de que a democracia não é mais feita para eles?

Se o fim dos regimes policiais da Europa Oriental e o desabamento das certezas relativas à natureza humana que a eles estavam associadas nos ensinaram algo, certamente não será a necessidade de um outro totalitarismo, de uma outra tirania – a dos financistas. Mas sim o valor da dúvida e a urgência da dissidência.”

O registro completo do confronto está disponível via Internet no http://www.monde-diplomatique.fr/md/dossiers/ft/frindex.html

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