Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Confundir conceitos atrapalha o país

Por lgarcia em 05/02/1998 na edição 38


Antonio Fernando Beraldo, da Universidade Federal de Juiz de Fora

 

P

esquisa recente, encomendada pela CNI e realizada pelo Ibope no período de 9 a 13 de janeiro, teve seus resultados publicados nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, e na revista Veja (4/2/98). Só para variar um pouquinho, a divulgação dos resultados pela mídia forma um excelente exemplo daquilo que, segundo a boa (e honesta) norma técnica, não se deve fazer. Já foi dito que a Estatística é a arte de enganar os trouxas, e esta arte está, entre nós, em franco aperfeiçoamento. Senão, vejamos:

Conforme foi noticiado, a pesquisa foi realizada no universo de eleitores, a partir de amostra de dois mil elementos “em todo o país” . Não foram divulgados nem a margem de erro (5%?, 2%?), nem o nível de confiança (95%?, 90%?), nem a metodologia (amostragem por conglomerado? por estratificação?) e, muito menos, os locais em que foram coletados os elementos da amostra (dizer “em todo o país” é muito vago).

Enfim, são os pequenos detalhes que fornecem a tal da confiabilidade que, presume-se, é o que a mídia mais busca ter (ou parecer). E não é para bancar o chato, não, nem para ser pedante: a Folha de S. Paulo, por exemplo, se dá ao luxuoso cuidado de informar tudo isso. Questão de qualidade da informação.

Os resultados da pesquisa estão embaralhados no texto, dificultando a compreensão das informações. Tudo foi misturado: intenção de voto, cenários de candidatos possíveis, desempenho do governo, temores em relação ao Plano Real, otimismo dos brasileiros, expectativa quanto a 1998… não é mostrada sequer uma tabela por categorias, não há distinção de sexo, faixa etária, escolaridade, nada. Informações soltas em parágrafos, apenas.

Tudo isso pode, e deve ser comentado, mas fica para depois. No momento, vamos nos deter apenas em um dos objetivos da pesquisa que, para nós, apresenta uma novidade interessante: saber, dos entrevistados, quem “atrapalha ou ajuda” o país. Deve ser uma nova versão do quesito “rejeição de voto”, bem curiosa, por sinal, e que carrega uma elevada carga de malícia.

Explicando melhor: se você, prezado leitor, fosse por milagre elevado às alturas do cargo de técnico da Seleção, e, por um milagre ainda maior, se dispusesse a consultar os outros 150 milhões de treinadores do País sobre a questão da convocação do polêmico jogador Edmundo, qual seria a pergunta óbvia? Imagino que “Você convocaria o Edmundo para a Seleção Brasileira?” estaria de bom tamanho: simples, clara, objetiva. Agora, se você quisesse não convocar o Edmundo, mas contando com o respaldo da torcida para sua atitude, uma boa pergunta seria: “Apesar do Edmundo ser descontrolado, impulsivo, violento, não confiável, etc., ainda assim você convocaria o Edmundo para jogar na Copa do Mundo?” Podemos até melhorar, com a ajuda de um “nariz-de-cera”: “O jogador Edmundo, figura psicologicamente instável, famoso por sua violência dentro e fora do campo, podendo deixar o time em situação difícil a qualquer momento do jogo, aceitando as provocações do adversário, está cogitado atualmente para a Seleção. Se você fosse o técnico da Seleção, único responsável pela convocação dos jogadores e, por isso mesmo, responsável pelos possíveis resultados adversos, mesmo assim se arriscaria a convocar o Edmundo?”

Os exemplos acima são variantes sutis (ou nem tanto) da pergunta principal. Um pesquisa pode ter seus resultados manipulados até antes de ser realizada. A distorção do questionário é obtida quando se leva o entrevistado a responder aquilo que se quer, a partir do direcionamento do raciocínio, induzido pela disposição das palavras dentro das frases. Como dizia a poeta, a “estranha potência” das palavras causa, principalmente, duas distorções:

– Uma, o entrevistado não responde aquilo que pensa, e sim aquilo que acha correto responder. Age como um estudante, que “chuta” a resposta que pensa ser a certa. Isto acontece muito com pessoas de baixa escolaridade e pouca informação sobre os assuntos.

– Outra, a opinião do entrevistado é deslocada por uma força maior ou menor dos termos utilizados na pergunta. Certas palavras, como “aborto”, “ladrão”, “morte”, “moleque”, “assassino”, “gostosa”, “puríssima”, devem ser evitadas, pois já se consolidaram em nosso inconsciente com sua carga, pejorativa ou não, e por si só desencaminham a reflexão necessária para uma resposta coerente com que pensamos.

Voltando ao caso da pesquisa, fico imaginando que segundas intenções levaram a esta dicotomia, “atrapalhar” ou “ajudar” o país. Atrapalhar, nos diz o Aurélio, é “confundir, perturbar, embaraçar.” Os Trapalhões produzem, ou produziam, trapalhadas inconseqüentes que faziam rir as crianças, e fixaram “trapalhada”, em nossa idéia, com um sentido de “divertimento”, como as dos palhaços do circo. Já a palavra ajudar é ” socorrer, favorecer, facilitar”. O problema não é só do significado das palavras – é também o da utilização dos verbos atrapalhar/ajudar com o objeto direto “o País”, como se “País” e “Governo FHC” fossem a mesma coisa. Feito isso, a dicotomia maniqueísta se espalha ainda mais: quem atrapalha o governo, atrapalha o País, o que nós, bons meninos, não devemos fazer, pois é muito feio. Ou seja, a oposição atrapalha o País, pois atrapalha o governo, e a oposição é feia. Já o País (nós, o Brasil, a Nação) deve ser ajudado e não, nunca, atrapalhado. Portanto, vamos todos ajudar o País-Governo FHC.

Este filme já foi visto antes, inúmeras vezes, em todas as situações onde era proveitoso (para o governo, não para o País), confundir os conceitos. Fazia-se uma perturbação nada divertida na cabeça das pessoas, tentando ajudar a socorrer situações embaraçosas, criadas por trapalhões nem um pouco ingênuos, com os resultados que conhecemos. Não vale a pena ver este filme de novo. Atrapalha.

 

M.M.

Com uma despesa que não passa de 20 mil reais (custo da pesquisa), a CNI conseguiu um festival de promoção, com direito a figuração no Jornal Nacional. Outras emissoras de televisão e de rádio deitaram e rolaram na aplicação da lei de Lavoisier ao prato-feito do Ibope.

Devidamente colocada a azeitona na empada do presidente da CNI, senador Fernando Bezerra (PMDB-RN), estava semeada a confusão.

Otimismo, confiança no real, desemprego, delenda fora Lula e Brizola (e Maluf e Quércia e todos os fortemente rejeitados), o tiroteio se prolongou desde 31 de janeiro até, pelo menos, 4 de fevereiro, data em que esta edição do O.I. foi fechada. Cada um pinçando o que lhe interessava. Para reafirmar adesismo, para valorizar apoio, até para fazer oposição.

Da mistureba apontada com muita propriedade por Antonio Beraldo no artigo acima, cumpre destacar algumas aberrações:

· O conceito de que a oposição “atrapalha” o país é de todo estranho às convicções políticas manifestadas por Fernando Henrique Cardoso nos últimos 40 anos. Vai pagar pelo que não pensa, ou não pensava. Resta saber quem introduziu essa pergunta no questionário, e para quê.

· Segmentos da imprensa valorizaram nos dias seguintes os aspectos “negativos”: temor de desemprego e falta de confiança no Real. Vamos dar de barato, para efeito de raciocínio (mas só para efeito de raciocínio), que a pesquisa é confiável no quesito relativo ao Real: usar politicamente as vicissitudes da moeda nacional é golpe baixo.

· O mote político da pesquisa é a boa situação da candidatura de FHC à reeleição. Mas os resultados práticos são danosos para o Planalto, porque colocam nos píncaros os bravos ex-presidentes Sarney e Itamar. O Estado de S.Paulonoticiou a pesquisa sob o título “Ibope mostra” etc., o que já não é ser faccioso, é ser basbaque. O Globo publicou=a com uma foto de Sarney e a seguinte legenda: “Sarney – segundo pesquisa, um político que ajuda mais do que atrapalha”. No dia 4/2 a Folha noticiava: “FHC prevê 2° turno se Itamar disputar”. Sarney e Itamar só têm taxa de rejeição baixa porque estão menos expostos à pancadaria. Se Sarney anunciasse sua candidatura, os adversários se encarregariam de relembrar à nação seu brilhante mandado (cuja conseqüência política foi o dilema eleitoral Lula ou Brizola X Collor, depois a eleição de Collor, de quem Itamar, nunca se deve esquecer, era vice), e sua rejeição subiria.

O impressionante não é que os manipuladores manipulem. É que os manipulados se deixem manipular com tanta facilidade.

 

Luiz Egypto (*)

Em ano de eleições com este, não será exercício de futurologia afirmar que a dança dos números dará o tom e o compasso nos salões da imprensa pátria. Embora as candidaturas majoritárias e proporcionais ainda não tenham sido oficializadas em convenções partidárias, já é possível prever, para os próximos meses, a aproximação de uma avalanche de pesquisas a inundar o noticiário – no geral acompanhadas de interpretações “científicas”, como de costume -, a levar de cambulhada pressupostos tão caros ao jornalismo sintonizado com o espírito público quanto distantes da prática contaminada pelo vírus da pesquisite.

Apuração fidedigna, investigação criteriosa e análise prospectiva dos fatos tenderão a ceder lugar à ligeireza das apreciações circunstanciais com sabor de “impacto”, bem ao gosto dos melhores preceitos da espetacularização da notícia.

O processo eleitoral que se avizinha promete servir um prato cheio à imprensa cada vez mais habituada a pautar-se nas sondagens de opinião fundadas em metodologias discutíveis, em avaliações deformadas e deformadoras. Há que se preparar o estômago e afinar o espírito crítico. A digestão não será nada fácil.

(*) Editorial do número 6 do OBSERVATÓRIO impresso, fevereiro de 1998.

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