Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > DEVER DE CASA

Confusão na batalha da informação

Por lgarcia em 14/05/2003 na edição 224

DEVER DE CASA

Victor Aloi (*)

Com o fim da guerra e a queda do regime de Saddam Hussein, podemos fazer um balanço da cobertura midiática no Iraque. A mídia cumpriu seu papel? As teorias, as técnicas e os deveres jornalísticos, todos eles ensinados nas universidades, foram colocados em prática? Ou o que se viu foi a imprensa como mais uma máquina de guerra?

Nunca houve tanta diversidade de informações quanto nesta guerra. Nas escolas de Jornalismo aprendemos desde cedo que um fator fundamental para uma boa reportagem é a apuração. Aprendemos também que não se deve acreditar fielmente em tudo que a fonte nos revela. Os jornalistas que foram cobrir a guerra, porém, esqueceram um pouco desses ensinamentos e cometeram erros imperdoáveis.

Pôde-se ver enxurradas de matérias com informações incompletas e muitas delas falsas. Acreditou-se em todo pronunciamento de iraquianos e americanos. A imprensa se esqueceu de que é uma peça-chave em guerras, que não deve se vender, jamais. Assim como um míssil Tomahawk, a "informação" é arma poderosa em conflitos como este.

Perguntas esquecidas

Os discursos do ministro da Informação iraquiano foram um exemplo ? cômico, diga-se de passagem. A mídia noticiava tudo o que ele falava, sem ao menos duvidar, jogando toda a responsabilidade pela informação no ministro. Todo jornalista sabe que a responsabilidade na divulgação de uma informação é do jornalista, e não da fonte. A imprensa esqueceu que ele estava ali para servir aos interesses de Saddam Hussein, e ela, a imprensa, estava ali para servir ao interesse do público.

No Brasil, ficamos mais uma vez reféns de agências de noticias estrangeiras. Apenas enviaram correspondestes ao Oriente Médio a Rede Globo, a Folha e o Estadão. Enquanto que emissoras estrangeiras enviaram centenas de correspondentes, a TV de Roberto Marinho só tinha uma pequena equipe instalada no Kuwait, além dos correspondentes em Londres e Nova York. O que se viu nas TVs e jornais brasileiros foram as notícias da Reuters e de outras agências estrangeiras. Como um contraponto a essa dependência, os jornais usavam as redes de TV árabes, como a al-Jazira, tão parciais quanto as americanas.

Ao fim da guerra, pode-se dizer que a imprensa confundiu-se. Confundiu informação jornalística com propaganda, ao falar demasiadamente sobre as inovações tecnológicas do exército americano. Confundiu antiamericanismo com pacifismo, ao tornar a imagem de Saddam Hussein um coitado indefeso. Confundiu leitores, ouvintes e espectadores quanto à veracidade de suas informações, ao divulgar notícias do porta-voz da Casa Branca e do ministro da Informação iraquiano sem ao menos confrontá-las.

"O campo de batalha somos nós." Esta frase, do jornalista e crítico de mídia Alberto Dines, resume claramente a guerra midiática. Foi um verdadeiro campo de batalha pela informação, persuasão, manipulação e pela tentativa de formação de uma determinada opinião. A mídia se confundiu tanto que acabou esquecendo de perguntar a Bush: cadê as armas de destruição em massa? Cadê as armas químicas? E os terroristas?

(*) Estudante de Jornalismo da Faculdade Integrada da Bahia; vencedor do concurso "A guerra que a gente (não) vê"

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